JJ
A bala como política pública
Brasil amanheceu diante de um carro perfurado por tiros
A bala como política pública
Por JJ
Mais uma vez o Brasil amanheceu diante de um carro perfurado por tiros, de uma família devastada e de uma pergunta que já deveria envergonhar toda a República: até quando o Estado seguirá confundindo segurança pública com licença para matar?
Na Pavuna, no Rio de Janeiro, um empresário teve o veículo atingido por 23 disparos efetuados por agentes da Polícia Militar. Vinte e três tiros. Não se trata de um detalhe numérico. Trata-se da medida exata do descontrole institucionalizado, da brutalidade naturalizada e da completa erosão dos limites legais que deveriam separar a ação estatal da barbárie.
Há pouco mais de um mês, também no Rio de Janeiro, uma médica negra perdeu a vida em circunstâncias igualmente revoltantes, sem motivo plausível e sem justificativa aceitável aos olhos de qualquer sociedade minimamente civilizada. Casos distintos, mesma lógica. Corpos tombam, versões oficiais surgem às pressas, corregedorias anunciam apurações protocolares, e a máquina segue funcionando como se nada tivesse acontecido.
O problema não está apenas no agente que aperta o gatilho. Está no modelo que o treina, no discurso que o legitima, na política que o premia e na elite que o aplaude à distância de condomínios blindados. Está na construção de uma cultura de guerra interna, onde parcelas da população são tratadas como inimigos domésticos e territórios populares convertidos em zonas de exceção.
Essa mentalidade não nasce do acaso. Ela é alimentada diariamente por setores midiáticos comprometidos com o medo como mercadoria e com a violência como espetáculo. Programas sensacionalistas, comentaristas irresponsáveis e lideranças da extrema direita transformaram a morte em linguagem eleitoral. Vendem a fantasia do confronto permanente, da mão de ferro, do abate como solução simples para problemas complexos.
Enquanto isso, as velhas elites brasileiras, carcomidas moralmente e incapazes de oferecer projeto social inclusivo, sustentam esse arranjo perverso. Preferem a repressão à cidadania, a sirene à escola, a viatura ao saneamento, o caveirão ao emprego. Sempre foi mais confortável administrar desigualdades pela força do que enfrentá las pela justiça.
O resultado é um Estado que falha em prevenir crimes, falha em investigar delitos e se especializa em matar suspeitos, inocentes, trabalhadores e profissionais que apenas estavam no caminho errado diante da arma errada. Não é eficiência. Não é coragem. Não é ordem. É fracasso embalado como firmeza.
As polícias brasileiras precisam ser profundamente reformadas em forma e conteúdo. Forma, porque a estrutura militarizada, vertical, opaca e orientada para o confronto mostrou seus limites históricos. Conteúdo, porque não basta mudar organogramas mantendo a mesma doutrina da eliminação física do outro.
É urgente investir em inteligência, perícia, investigação qualificada, controle externo real, treinamento técnico, protocolos rígidos de uso da força, transparência absoluta e responsabilização exemplar quando houver abuso. É urgente valorizar o bom policial, aquele que protege sem humilhar, que age com técnica e não com ódio. É urgente romper com a pedagogia do extermínio.
Nenhuma democracia madura mede o sucesso de sua segurança pública pela quantidade de cadáveres produzidos. Mede pela preservação da vida, pela redução consistente da criminalidade e pela confiança entre população e instituições.
Cada carro metralhado, cada trabalhador executado, cada inocente morto em operação policial revela menos sobre a força do Estado e mais sobre sua decadência.
Se o Brasil continuar aplaudindo chacinas administrativas e confundindo vingança com justiça, seguirá enterrando vítimas e chamando isso de política pública.
E toda vez que o Estado dispara 23 vezes contra um cidadão, atira também contra a própria ideia de civilização.
JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira




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