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Barra Mansa,29/04/2026

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    A Disciplina da Cultura e o Resgate da Memória

    Cultura em ebulição no Rio de Janeiro


    A Disciplina da Cultura e o Resgate da Memória Cesar Miranda Ribeiro, presidente da Fundação MIS.

    A Disciplina da Cultura e o Resgate da Memória

    Por Marcelo Kieling

    A inauguração da primeira exposição do Museu da Imagem e do Som (MIS) em Copacabana e sua abertrura parcial, não é apenas uma vitória da arquitetura ou do turismo; é, acima de tudo, um triunfo da persistência administrativa. Foram anos de tapumes que escondiam não apenas uma obra, mas uma parte vital da alma brasileira. Ver o projeto de Diller Scofidio + Renfro finalmente ganhar vida é um sinal de que o Rio de Janeiro está aprendendo a concluir o que começa.

    No centro dessa retomada está o jornalista Cesar Miranda Ribeiro, presidente da Fundação MIS. Para quem o conhece desde os tempos de CPOR/RJ (Centro de Preparação de Oficiais da Reserva do Exército), na turma de 1979, sua ascensão ao comando do MIS não é surpresa, mas uma consequência natural de um perfil moldado pela disciplina. A formação militar, muitas vezes incompreendida por setores da cultura, revelou-se aqui o "remédio" necessário: o foco na missão, a hierarquia de prioridades e a resiliência diante de orçamentos escassos e burocracias paralisantes.

    Cesar Miranda Ribeiro não é apenas um gestor de "pedra e cal". Sua trajetória profissional demonstra uma compreensão clara de que um museu no século XXI precisa ser um organismo vivo. Ele herdou um acervo que é o "DNA" do Brasil — da Rádio Nacional aos arquivos de Carmen Miranda — e teve a sensibilidade de entender que a tecnologia deve servir à memória, e não substituí-la.

    A tese central aqui é clara: o MIS Copacabana sob Cesar Miranda Ribeiro rompe com a tradição do "museu-depósito". Ele propõe um espaço de diálogo. No entanto, o desafio que se impõe agora é a sustentabilidade.

    Inaugurar é um ato político; manter aberto e relevante é um ato de gestão contínua. Cesar Ribeiro provou ser o homem certo para o primeiro passo; sua trajetória sugere que ele tem o fôlego necessário para o segundo.

    Para o público, fica aqui o convite para redescobrir o Rio. Para os gestores, fica a lição: a cultura exige paixão, mas sobrevive de método. E para nós, companheiros de um CPOR/RJ em um longo e difícil ano de 1979, fica o orgulho de ver um par conduzindo com honra uma das trincheiras mais nobres da nossa identidade.

    Para dar o real ar para este fato histórico para o Rio de Janeiro, para o Brasil e para o mundo, trago a seguir uma entrevista com Cesar Miranda Ribeiro:

    1. Ribeiro, assim era a sua chamada na tropa, nossa amizade nasceu em 1979, no CPOR/RJ, sob a disciplina da Cavalaria. Olhando para trás, como os valores de liderança e resiliência aprendidos naquela época foram fundamentais para você enfrentar as "batalhas" da gestão pública décadas depois?

    Minha formação tem duas bases que se complementam. A primeira vem do ambiente familiar, onde aprendi valores como caráter, respeito, responsabilidade e a valorização da cultura. Esses princípios moldaram minha forma de ver o mundo e de me posicionar diante das pessoas e dos desafios.

    A segunda base foi consolidada no CPOR/RJ, em 1979, na Cavalaria. Ali, a hierarquia e a disciplina deram método, organização e clareza àquilo que já vinha sendo construído. A formação militar estruturou a capacidade de liderança, reforçou o senso de dever e preparou para a tomada de decisões em contextos de pressão.

    Ao longo do tempo, essas duas dimensões caminharam juntas. A base familiar deu o sentido e os valores, enquanto a formação militar trouxe rigor, disciplina e capacidade de execução. Na gestão pública, essa combinação se mostrou essencial para atuar com equilíbrio, responsabilidade e compromisso com o interesse coletivo.

    2. Sua carreira é marcada por passagens em setores estratégicos. Qual foi o maior aprendizado que você trouxe da iniciativa privada para o setor público que permitiu destravar um projeto tão complexo quanto o MIS Copacabana?

    A breve passagem pelo meio militar, como oficial da reserva, somada a 36 anos dedicados ao audiovisual na TV Globo e à experiência como presidente da RioFilme durante a pandemia, foram determinantes para a construção da minha formação como gestor.

    Na iniciativa privada, aprendi a importância do planejamento, do cumprimento de prazos, da eficiência na execução e da capacidade de transformar projetos complexos em entregas concretas. Esse ambiente exige objetividade, integração de equipes e foco em resultado, aspectos essenciais na condução de um projeto como o MIS Copacabana.

    Já na RioFilme, em um momento crítico, foi necessário promover um realinhamento estratégico para manter o setor audiovisual ativo na cidade. Trabalhamos na construção de protocolos para a retomada  segura dos cinemas e dos sets de filmagem, equilibrando responsabilidade sanitária com a continuidade das atividades econômicas e culturais.

    Como presidente da Fundação Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, a condução do MIS Copacabana exigiu a aplicação integrada de toda essa experiência. No setor público, esses aprendizados foram articulados com os ritos institucionais e o diálogo entre diferentes órgãos, permitindo avançar com responsabilidade e consistência. O MIS Copacabana é resultado de um esforço coletivo e se consolida como um equipamento estratégico para a cultura. Trata-se de uma vitrine que amplia o acesso ao conhecimento sobre a nossa identidade e contribui diretamente para o fortalecimento do turismo no estado do Rio de Janeiro e no Brasil.

    3. O MIS Copacabana ficou marcado por anos de obras paralisadas e incertezas. Qual foi o "ponto de virada" administrativo que permitiu que, sob sua gestão, o museu finalmente saísse do papel e fosse devolvido à sociedade?

    O ponto de virada ocorreu em 2021, em uma reunião no Museu do Amanhã, durante o início das atividades do Passaporte Cultural do Estado. Naquele momento, ao lado da secretária Danielle Barros e do então governador Cláudio Castro, foi firmado um compromisso claro de que faríamos todos os esforços necessários para retomar e concluir a obra da futura sede do MIS em Copacabana, que estava paralisada desde 2015. O local não poderia ser mais simbólico, dentro de um museu que nos remete ao amanhã, ao futuro, reforçando o sentido de reconstrução e de perspectiva.

    A partir dali, houve um alinhamento efetivo entre as diferentes esferas de decisão. Cada um, dentro de sua responsabilidade institucional, contribuiu para destravar processos, reorganizar etapas e garantir as condições para a retomada das obras.

    Esse compromisso, assumido de forma objetiva naquele momento, foi sendo cumprido ao longo da gestão. Hoje, o projeto está em fase avançada, com a entrega total prevista para 2026. Inclusive, já contamos com uma exposição instalada no local, que, a partir de maio, estará aberta ao público mediante agendamento, marcando uma etapa concreta de ocupação e devolução desse espaço à sociedade.

    4. Gerir um museu que guarda a memória da Rádio Nacional e de ícones como Carmen Miranda é uma responsabilidade enorme. Como você equilibrou a necessidade de modernização tecnológica com o respeito ao acervo histórico inestimável do MIS?

    Gerir um acervo dessa relevância exige tratar modernização e preservação como dimensões complementares. A chegada da inteligência artificial amplia nossa capacidade de organizar, catalogar e difundir conteúdos, mas sempre com o cuidado de preservar a integridade e o sentido histórico do que foi construído. O acervo ligado à Rádio Nacional e a figuras como Carmen Miranda representa um patrimônio que não pode ser apenas guardado, ele precisa ser continuamente interpretado e acessado. Preservar é também garantir que essas histórias permaneçam vivas e compreensíveis para as novas gerações. A tecnologia entra como ferramenta para ampliar esse alcance. Ela permite transformar acervos em experiências mais acessíveis e interativas, sem descaracterizar sua essência. O objetivo é fazer com que a inteligência do passado dialogue com o presente, alcançando um público mais amplo e diverso.

    Há também uma dimensão de reconhecimento. Muitos desses artistas e profissionais construíram suas trajetórias com esforço e, em muitos casos, enfrentando dificuldades significativas. Valorizar esse legado é uma forma de respeitar essa história e de assegurar que ela continue a inspirar. 

    Nesse contexto, o papel do museu é claro: utilizar os mecanismos contemporâneos para democratizar o acesso ao conhecimento, mantendo o compromisso com a preservação e com a memória.

    5. A arquitetura do novo MIS é ousada e vertical. Como você enxerga a integração desse novo prédio com a vida pulsante de Copacabana e o impacto que ele terá no turismo cultural do Rio de Janeiro?

     A concepção arquitetônica do novo MIS, embora tenha origem em 2009, mantém-se atual em 2026. Sua proposta dialoga diretamente com as nuances de Copacabana, com suas curvas, sua intensidade urbana e a convivência entre moradores, trabalhadores e turistas.

    Copacabana é reconhecida mundialmente por esse caráter aberto, democrático e plural. É um espaço que traduz, de forma muito clara, a diversidade da nossa identidade cultural. Trata-se de um território onde diferentes origens se encontram, muitas vezes vindas de contextos distintos, e aqui convivem em harmonia.

    Nesse contexto, o novo edifício do MIS não é um elemento isolado. Ele se integra à dinâmica do bairro, dialoga com sua paisagem e reforça sua vocação cultural. A verticalidade do projeto amplia a presença do museu na cidade e cria novas possibilidades de interação com o público. Do ponto de vista do turismo cultural, o impacto tende a ser significativo. O equipamento se consolida como um ponto de referência, capaz de atrair visitantes interessados não apenas no acervo, mas na experiência cultural como um todo. Mais do que um espaço expositivo, o MIS Copacabana se apresenta como um símbolo dessa cidade aberta, diversa e acolhedora, contribuindo para fortalecer ainda mais a imagem do Rio de Janeiro no cenário nacional e internacional.

    6. Inaugurar é um marco, mas manter é o desafio contínuo. Quais são as estratégias de sustentabilidade financeira que você implementou para garantir que o MIS não sofra novas interrupções no futuro?

     A sustentabilidade do MIS Copacabana está sendo tratada como uma política de Estado. Já iniciamos estudos técnicos, conduzidos de forma integrada pelo Governo do Estado, pela Secretaria de Cultura e pela Fundação MIS, com o objetivo de definir o modelo de gestão mais adequado para garantir a continuidade e a eficiência do equipamento.

    Estamos avaliando diferentes formatos, sempre considerando equilíbrio entre responsabilidade pública, viabilidade financeira e manutenção da missão cultural do museu. A ideia é estruturar um modelo sólido, que assegure previsibilidade de recursos, capacidade de operação e qualidade na programação.

    Esse processo está em andamento e, em breve, será apresentado à sociedade o modelo de gestão que será adotado para o MIS Copacabana, com foco em garantir estabilidade, continuidade e pleno funcionamento ao longo do tempo. 

    7. Como o MIS pretende dialogar com as novas gerações? Existe algum projeto específico para atrair o público jovem e tornar a história da nossa imagem e do som relevante para quem nasceu na era digital?

    O MIS Copacabana será a grande vitrine cultural desse trabalho contínuo da Fundação MIS, que desde 1965 atua na preservação da cultura carioca, fluminense e brasileira. A estratégia para dialogar com as novas gerações passa, justamente, por integrar tradição e linguagem contemporânea.

    As sedes da Lapa e da Praça XV seguirão como centros de preservação e aprofundamento do acervo, mantendo o contato direto com a sociedade e ampliando a produção de conhecimento.

    Já o MIS Copacabana terá um perfil mais voltado à difusão, com forte presença de acervo digital e recursos interativos, permitindo uma experiência mais alinhada com o público da era digital.

    Parte do acervo físico, como instrumentos e figurinos ligados a nomes como Carmen Miranda, será apresentado por meio de réplicas e soluções expositivas adequadas, considerando também as condições ambientais da região, especialmente a proximidade com o mar, que exige cuidados específicos de conservação.

    Além disso, o diálogo com universidades, produtores, cineastas e pesquisadores será intensificado. O acervo da Fundação continua sendo base para a criação de documentários, livros e filmes, o que mantém sua relevância ativa e contemporânea.

    O objetivo é claro: fazer com que a memória da imagem e do som não seja apenas preservada, mas constantemente reinterpretada, acessível e significativa para as novas gerações.

    8. Ao final desta missão, qual é o legado pessoal que você deseja deixar para a cultura fluminense e como você gostaria que sua gestão no MIS fosse lembrada daqui a vinte anos?

    Ao final desta gestão, iniciada em 2021, gostaria que ela fosse sintetizada em três palavras: Cultura, Educação e Memória.

    Foram mais de 800 ações realizadas pela Fundação MIS, alcançando diferentes regiões do estado do Rio de Janeiro, levando a cultura fluminense para além das nossas divisas e também para outros países da América Latina. A resposta da sociedade foi consistente e gratificante, refletindo no respeito crescente pelo Museu da Imagem e do Som.

    Houve também a continuidade e ampliação de iniciativas fundamentais, como o projeto “Depoimentos para a Posteridade”, que preserva a memória viva da nossa cultura. E, sobretudo, a construção coletiva, junto aos demais órgãos do Estado, daquilo que será reconhecido como um dos mais importantes equipamentos culturais do Rio de Janeiro e do país, o MIS Copacabana.

    A ideia original do Museu da Imagem e do Som, concebida ainda no antigo Estado da Guanabara, mostrou-se visionária e permanece atual.

    Hoje, a presença de instituições semelhantes em diversos estados brasileiros reforça a força desse conceito.

    O legado que desejo deixar é esse: uma gestão marcada pelo trabalho, pelo compromisso com a cultura e pela gratidão ao povo que dá sentido a tudo isso.




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