JJ
Flávio, o Palhaço
A Presidência da República não é um palco para vaidades pessoais
Flávio, o Palhaço 🤡
Por JJ
Antes de analisar o debate de ontem, na TV Bandeirantes, talvez o Brasil devesse pedir desculpas ao mundo — e, sobretudo, a todos aqueles que se dispuseram a assistir àquele encontro na esperança de conhecer propostas, confrontar ideias e compreender os caminhos que os candidatos pretendem oferecer à nação. O desempenho de Flávio Bolsonaro foi marcado por provocações, deboche e ataques pessoais que pouco contribuíram para o esclarecimento público. A política, quando rebaixada à provocação permanente, deixa de ser instrumento de transformação e converte-se em caricatura de si mesma. O título deste artigo não é gratuito: o palhaço, aqui, é a metáfora de uma atuação que transforma um espaço destinado à discussão dos destinos nacionais em palco de encenações. A pergunta que permanece, entretanto, é muito mais séria do que o personagem: como chegamos a um ponto em que alguém que pretende ocupar a Presidência da República se apresenta dessa maneira diante de milhões de brasileiros? O país não precisa de um animador de plateia, de um provocador profissional ou de um herdeiro político sustentado pelo sobrenome. Precisa de alguém capaz de compreender a dimensão do cargo, a responsabilidade da palavra e a gravidade das decisões que afetam a vida de uma nação inteira.
O episódio exige uma reflexão histórica. O Brasil atravessou ditaduras, crises econômicas, escândalos de corrupção, rupturas institucionais e dolorosos períodos de retrocesso democrático. A redemocratização representou a promessa de que as divergências seriam resolvidas pelo debate público, pela força dos argumentos e pela soberania popular. Essa promessa, contudo, não se sustenta sozinha: depende da responsabilidade dos partidos, da imprensa, das instituições e, principalmente, dos cidadãos. É legítimo não gostar de Lula, do PT ou da esquerda; em uma democracia, ninguém deve ser obrigado a compartilhar preferências políticas. O que precisa ser exigido de qualquer candidato é compromisso com a verdade, respeito às instituições, transparência e capacidade de apresentar soluções verificáveis. O Brasil tem dimensões continentais, enorme relevância internacional e desafios sociais que não admitem improvisação. Por isso, a discussão não deveria ser sobre simpatias pessoais, sobrenomes ou ressentimentos herdados, mas sobre a qualidade das propostas, a consistência das explicações e a responsabilidade de quem pretende governar. E é precisamente sob esses critérios que considero preocupante a postura exibida por Flávio Bolsonaro: a Presidência não é um prêmio de herança familiar, tampouco um degrau a ser conquistado pela provocação. É uma função de Estado, que exige preparo, densidade política, domínio dos problemas nacionais e respeito à inteligência dos eleitores.
Lula, aos oitenta anos, carrega uma trajetória política extensa, marcada por realizações reconhecidas por seus apoiadores e adversários, controvérsias, erros e disputas. No debate, a impressão que tive foi a de um veterano diante de um adversário que, em diversos momentos, preferiu a provocação à exposição consistente de ideias. Na minha avaliação, Lula demonstrou mais experiência para lidar com o confronto, enquanto Flávio Bolsonaro sem propostas viáveis, não conseguiu, talvez porque não tenha, apresentar um programa para o futuro do Brasil. Um debate presidencial, porém, não pode ser reduzido a um picadeiro, onde o candidato Flávio, fique repetindo bordões desconexo apenas para dialogar com a sua base.
Foi agressivo, inconveniente e debochado. Uma verdadeira "tia do ZAP".
É nesse terreno que surgem perguntas que não podem desaparecer sob uma avalanche de ironias. Qual é a explicação para aos milhões pedidos Vorcaro, mencionados no debate? Qual foi, precisamente, a atuação do candidato no episódio relacionado ao criminoso acusado de assassinar uma criança de cinco anos com um tiro de fuzil? Por que votou contra a ampliação da licença-maternidade das servidoras públicas do Estado do Rio de Janeiro, conforme a crítica apresentada? São questões que exigem documentação, contexto e respostas objetivas. A gravidade dos temas não autoriza condenações automáticas, mas tampouco permite que perguntas relevantes sejam substituídas por sarcasmo. Quem deseja governar o Brasil deve estar preparado para responder a questionamentos difíceis, não para tentar transformar o questionador em adversário pessoal. É justamente aí que se mede a diferença entre fazer política e encenar uma disputa.
Também é preciso desconfiar da falsa equivalência que, por vezes, ameaça transformar o jornalismo político em uma operação de nivelamento artificial. Se comentaristas da TV Globo, da CBN ou de qualquer outra emissora concluírem que os dois candidatos tiveram desempenhos igualmente ruins, essa conclusão deverá ser examinada à luz dos argumentos apresentados, das perguntas respondidas e das informações verificáveis. O que não aceito é que a busca por uma aparência de imparcialidade acabe apagando diferenças concretas de postura, conteúdo e responsabilidade. A imprensa tem o dever de escrutinar o poder, inclusive aquele com o qual seus profissionais ou proprietários eventualmente simpatizem; o público, por sua vez, tem o direito de cobrar critérios transparentes e coerência editorial. O mesmo rigor deve valer para os candidatos: quem acusa precisa demonstrar, quem promete precisa explicar e quem pretende governar precisa aceitar o contraditório. No caso de Flávio Bolsonaro, minha indignação nasce justamente da distância que percebo entre a solenidade do cargo almejado e a postura demonstrada no debate. Não se trata de exigir elegância artificial ou discursos decorados, mas de cobrar substância, responsabilidade e capacidade de discutir os problemas do país sem transformar a arena democrática em um espetáculo de provocações. A Presidência da República não é um palco para vaidades pessoais. É o centro de decisões que repercutem sobre o emprego, a educação, a saúde, a segurança, a economia e a posição do Brasil no mundo.
É triste, profundamente triste, que um país com a história, a diversidade e o potencial do Brasil ainda precise assistir a debates nos quais a provocação ameaça ocupar o lugar das ideias. A eleição permanece nas mãos dos cidadãos, e o julgamento de cada candidatura deve resultar da análise de suas propostas, de seus antecedentes documentados e de sua disposição para prestar contas à sociedade. No dia 25, a pergunta que deveremos fazer a nós mesmos não será apenas em quem votamos, mas que país ajudamos a construir e que responsabilidade assumimos diante das próximas gerações. Para dimensionar o risco de uma escolha política desastrosa, recorro à ficção: Thanos, o titânico antagonista de Os Vingadores, da Marvel, representa a face extrema de um poder que se julga autorizado a impor sua própria vontade ao universo, provocando uma catástrofe de proporções inimagináveis. A referência não estabelece equivalência entre personagens e políticos; serve apenas para ilustrar, em linguagem épica, como o exercício irresponsável do poder pode produzir consequências devastadoras. Na política real, não são necessárias Joias do Infinito nem um estalar de dedos: bastam decisões equivocadas, instituições fragilizadas e a indiferença diante dos sinais de perigo para comprometer o futuro de gerações inteiras. Minha crítica, aqui, tem endereço definido: Flávio Bolsonaro e a postura que apresentou no debate e em toda a campanha. Considero que sua atuação não demonstrou a estatura política, a seriedade nem a densidade intelectual que deveriam ser requisitos elementares para quem pretende presidir a República , e que não deveriam faltar a ninguém que aspire a dirigir uma instituição pública. O Brasil não precisa de um palhaço, muito menos de um miliciano, no comando, mas de responsabilidade, preparo e respeito ao povo. Porque a Presidência não é herança familiar, a democracia não é espetáculo e o futuro de nossos filhos não pode ser tratado como piada.
JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira




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