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Barra Mansa,02/10/2026

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    MK - Marcelo Kieling

    A cadeira vazia de Lula

    E o enterro do debate presidencial


    A cadeira vazia de Lula

    A cadeira vazia de Lula e o enterro do debate presidencial

    Por Marcelo Kieling

    Na quinta-feira à noite, o estúdio da TV Globo exibirá uma cena rara na política brasileira: ocandidato que lidera todas as pesquisas representado por uma cadeira vazia. Lula decidiu não participar do último debate antes do primeiro turno, marcado para três dias antes da votação. Flávio Bolsonaro, seu principal adversário, confirmou presença. E as regras da emissora fazem o resto: a cadeira vazia fica em cena, e os presentes têm direito de questionar o ausente — até três vezes, segundo a coluna Painel da Folha.

    A decisão parece simples e é um labirinto. É, ao mesmo tempo, uma covardia calculada, um medo perfeitamente racional e a confirmação de que o debate presidencial morreu antes de começar. As três leituras são verdadeiras — e nelas está a história desta semana.

    A covardia calculada

    Comecemos pela acusação que os adversários já ensaiam: Lula foge. Há verdade nisso, e não é pouca. O debate é um dos últimos momentos de exposição não controlada de uma campanha — sem roteiro, sem carreta, sem militância para aplaudir no tempo certo. Ao recusá-lo, o presidente otimiza sua eleição e degrada o debate público na mesma medida. Quem lidera com 40% contra 36% (Datafolha, 28/9) e vê o segundo turno empatado — 42% a 42% na Quaest, 47% a 45% no Datafolha — sabe que tem mais a perder do que a ganhar diante de três opositores com microfone livre. Escolhe, então, o silêncio.

    O argumento da campanha — ninguém é obrigado a participar — é juridicamente impecável e politicamente insuficiente. Legitimidade não se decreta; se expõe. Um presidente que se recusa a confrontar rivais em rede nacional, três dias antes de pedir votos, entrega ao eleitor a impressão de que prefere ser aplaudido a ser questionado. É uma leitura dura. Mas é a leitura que Flávio Bolsonaro venderá a noite inteira, com a cadeira vazia servindo de cenografia pronta.

    O medo é a estratégia

    E, no entanto, a leitura oposta é igualmente verdadeira. Debates favorecem o desafiante, não o líder. Quem está atrás precisa de visibilidade gratuita em rede nacional; quem lidera precisa é de não errar. A aritmética petista é fria: com metade do eleitorado fechada — 53% rejeitam Lula e 55% rejeitam Flávio, segundo a Quaest —, a disputa real acontece numa fatia estreita do centro. É exatamente essa fatia que um confronto com quatro candidatos pode sacudir em qualquer direção, inclusive para pior.

    A história dá razão à cautela — mas não por inteiro. Collor faltou aos debates com Lula em 1989 e venceu. Bolsonaro ficou fora dos debates do primeiro turno em 2018, após o atentado, e venceu. O próprio Lula poupou-se do debate da Band em 2022 e venceu no segundo turno. Só que Lula também conhece o outro lado da moeda: em 2006, faltou ao debate da Globo contra Alckmin, e a própria campanha tratou a ausência como erro, segundo a coluna Painel da Folha. Venceu mesmo assim — mas pagou semanas de provocação adversária pela cadeira vazia.

    O que mudou desde 1989 é a tecnologia do desgaste. O risco de hoje não é o debate; é o corte de 30 segundos que vira piada, anúncio pago e manchete nas 72 horas finais. Contra isso, o núcleo da campanha apostou na rua: mais de 500 atos "Bora Lula" num único domingo, de Salvador a Copacabana — mobilização controlada em vez de confronto espontâneo. Não é covardia; é aversão a risco num jogo cujo prêmio final está empatado.

    Há ainda um detalhe que escapa à maioria: a ausência de Lula também nega a Flávio o duelo que ele quer. Sem o líder no estúdio, o senador ganha o palco, mas perde o alvo — atacar uma cadeira vazia rende menos do que trocar farpas com quem lidera. O sociólogo Marcos Coimbra resume a lógica: se Lula for, "dará palanque para figuras menores". A decisão, aliás, não é consenso nem dentro de casa: a ala de Sidônio Palmeira defendia a presença; o núcleo do presidente impôs a cautela. Se a aposta falhar, a conta será cobrada de quem a aconselhou.

    O debate morreu antes de começar

    Mas há uma terceira leitura, maior que as duas primeiras. Lula e Flávio também faltaram ao primeiro debate, na Band, em agosto. Os dois protagonistas da disputa pularam o primeiro encontro e, agora, um deles pula o último. Quando os candidatos tratam o debate como armadilha a ser evitada — e não como obrigação a ser cumprida —, o formato morre, esteja quem estiver na cadeira.

    As regras da Globo são a confissão do problema: cadeira vazia em cena, perguntas ao ausente. A emissora admite, na prática, que presença é opcional e ausência é administrável. O debate deixou de ser instrumento de esclarecimento e virou peça de um jogo tático em que todos calculam e ninguém conversa. O perdedor dessa partida tem nome: é o eleitor que ainda não decidiu e que terá de escolher um presidente entre cortes de 30 segundos, carreatas editadas e cadeiras vazias.

    A cadeira vazia é do eleitor

    O veredicto sai no domingo, nas urnas. Se Lula fechar no primeiro turno, a ausência entrará para os livros de campanha como genialidade tática — e o próximo líder fará o mesmo. Se o pleito for ao segundo turno, a pergunta será quanto custou a semana cedida. Mas, ganhe quem ganhar, uma coisa já está decidida: o debate presidencial deixou de ser instituição e virou opção tática. A cadeira que ficará vazia na quinta-feira, no fundo, não é a de Lula. É a do eleitor

    Produzi o conteúdo com a utilização de Ferramentas de IA.



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