MK - Marcelo Kieling
QUINTAL DE VIDRO
Enquanto Lula dizia ao império que o Brasil não cabe em quintal nenhum, Brasília revelava o elo documentado entre o candidato da direita e o homem condenado por mandar matar Marielle.
QUINTAL DE VIDRO
Enquanto Lula dizia ao império que o Brasil não cabe em quintal nenhum, Brasília revelava o elo documentado entre o candidato da direita e o homem condenado por mandar matar Marielle.
Por Marcelo Kieling
Na mesma terça-feira, 22 de setembro, o Brasil assistiu a duas coisas que se completam. Em Nova York, o choque entre dois projetos de mundo: o discurso de quem quer sentar à mesa e o discurso de quem quer mandar. Em Brasília, o papel que liga um candidato a presidente ao miliciano condenado no caso Marielle. Coincidência de agenda? Pode até ser. Sorte do eleitor? Nenhuma. São duas faces da mesma disputa.
O palanque disfarçado de diplomacia
Lula não atravessou o oceano para fazer média com estrangeiro. Desembarcou na ONU de olho no eleitor que está aqui. O Estadão anotou o óbvio: o presidente foi a Nova York "com a intenção de falar para o público doméstico". E falou. "O Brasil não cabe no quintal de ninguém" é a senha de uma campanha que se sustenta na soberania: contra o tarifaço, contra a cobrança para o Brasil engolir "dissidentes" na eleição como moeda de troca comercial, contra a pressão em cima do PIX. Cada frase foi desenhada para ecoar no bolso e no orgulho de quem vota.
Trump fez o número de sempre: o "líder" que age enquanto os outros falam, que promete aniquilar o Irã, derrubar Cuba e ainda trata a América Latina como se fosse quintal dos Estados Unidos. No meio do festival de ameaça, o Brasil nem foi citado. E não citar também é falar: para Washington, este Brasil é problema comercial, não parceiro. O curioso é que o bolsonarismo transforma essa distância em abraço — para o eleitor evangélico, que dá a Flávio Bolsonaro quase metade dos votos, andar de mãos dadas com o trumpismo é cartão de entrada num clube global de "valores". Ou seja: cobertor curto, mas ainda serve de bandeira.
A ONU não vira voto, mas vira versão
Em empate técnico, voto não se conquista com palanque internacional — se conquista com narrativa. Lula sai de Nova York com a moldura de estadista que enfrenta o império sem romper com ele, e isso o mantém vivo na briga pelo centro. Trump sai com o retrato que os críticos já pintavam: o unilateralista. Já Flávio Bolsonaro está num beco: abraçar Trump em público agrada a base, mas afasta o moderado que teme bagunça — e abre a pergunta que ele não quer ouvir: se o Brasil "não cabe no quintal de ninguém", onde cabe um candidato alinhado a quem ameaça usar força militar na nossa vizinhança?
A sombra que veio para ficar
E aí entra o segundo evento da semana, o que incomoda mais. O gabinete de Flávio Bolsonaro negociou uma emenda de R$ 199 mil com Robson Calixto — o Peixe, condenado pelo STF no caso Marielle — para destinar o dinheiro a uma ONG dos irmãos Brazão. Não é fato isolado, é padrão. O Nexo lembra que o senador já empregou parente de miliciano. O caso Queiroz, a rachadinha, a teia da família com as milícias do Rio: tudo isso compõe o que os estudiosos chamam de capital político sustentado em cima de poder paralelo.
Seja justo, dirão os advogados de plantão. Emenda é legal. A destinação foi fiscalizada. A condenação do Peixe é de fevereiro de 2026, posterior à negociação de 2023. E não há prova pública de que Flávio Bolsonaro soubesse do vínculo da ONG com os Brazão. Tudo certo. Mas a pergunta que fica não é sobre o papel — é sobre a companhia. Que candidato a presidente deixa o próprio gabinete tratar repasse com condenado do caso Marielle? Que candidato a presidente negocia verba com ONG dos mandantes? E por que tudo isso só vem a público onze dias antes do primeiro turno?
Minha visão
Vou ser direto, pois sempre assino o que escrevo: o que mais me assusta nessa história não é Flávio Bolsonaro — é sobre este país que pode elegê-lo.
Numa democracia que é séria e presta, a instituição existe para filtrar o poder paralelo. Um gabinete negociar com miliciano condenado deveria ser uma exceção que deveria envergonhar a todos, e não ser uma rotina que não espanta ninguém. Mas o que essa semana escancara é exatamente a normalização da prática criminal pois a mídia tradicional traz a notícia da emenda com miliciano como uma disputa comercial com promoção de um celular, pois o fato vira episódio do dia e passa batido. A pergunta é se a gente, como sociedade, ainda acha que gabinete de candidato negociar dinheiro público com condenado por mandar matar é um simples detalhe — ou se isso virou o padrão aceitável. Porque se virou, o problema não é só do Rio de Janeiro e não é só da direita: é nosso, de todos aqueles que ainda acreditam que o crime pode ter um assento no poder.
O veredito das urnas
A eleição de 4 de outubro, como toda disputa de empate técnico, será decidida por poucos pontos e pela história que cada lado consegue contar. A ONU deu a Lula o palco; a PF deu à oposição a sombra. Quem deve desempatar serão os indecisos do centro e possívelmente os evangélicos. E a pergunta que fica na cabeça de quem vota é simples: qual imagem pesa mais — o estadista que enfrenta o império ou o candidato cujo gabinete negocia com condenado do caso Marielle? A democracia brasileira, mais uma vez, está na prova de fogo. E desta vez não é só sobre quem ganha. É sobre o que a gente aceita normalizar para continuar existindo como um país ainda decente.
Produzi o conteúdo com a utilização de Ferramentas de IA.




COMENTÁRIOS