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Barra Mansa,30/09/2026

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    MK - Marcelo Kieling

    O herdeiro da rachadinha

    O herdeiro sem obra: rachadinha no currículo, banqueiro preso na agenda e mentira como método de campanha


    O herdeiro da rachadinha

    O herdeiro da rachadinha

    O herdeiro sem obra: rachadinha no currículo, banqueiro preso na agenda e mentira como método de campanha

    Por Marcelo Kieling

    Há uma cena que resume o Brasil eleitoral de 2026 melhor do que qualquer pesquisa: um senador da República, candidato à Presidência, sentado no couro de um jatinho executivo cujo dono — um banqueiro preso sob a acusação de comandar uma das maiores fraudes financeiras da história do país — pagava a conta. O passageiro se chamava Flávio Bolsonaro. O anfitrião, Daniel Vorcaro. Entre o embarque e o pouso, segundo os registros agora nas mãos da Polícia Federal, o assunto era um filme. Não um filme qualquer: uma hagiografia sobre o pai do candidato, "Dark Horse", orçada em dezenas de milhões de reais, bancada supostamente com dinheiro de um banco que, meses depois, desabaria sobre os poupadores brasileiros como uma laje podre. O cavalheiro que quer governar o Brasil não tinha dinheiro próprio para o projeto do pai. Foi buscar no cofre alheio.

    Esta não é uma história isolada. É a segunda vida pública de Flávio Bolsonaro, e a segunda vez que ela termina em inquérito. A primeira deu-se na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, onde o então deputado estadual transformou o gabinete público numa fila do desemprego invertida: pessoas reais contratadas em papel, salários públicos desviados na prática, o dinheiro voltando em espécie pelas mãos de Fabrício Queiroz, ex-motorista e operador financeiro da família. O Ministério Público denominou o esquema com precisão técnica — organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro — e o apelido popular, "rachadinha", fez o resto. Dezenas de boletos, despesas pessoais, notas frias. O filho mais velho do então presidente da República aprendeu cedo que a máquina pública tem uma engrenagem que gira para dentro de casa.

    Poderia dizer-se que, no Brasil, denúncia não é condenação — e é verdade, e a presunção de inocência é uma conquista civilizatória que ninguém sensato deseja ver revogada. Mas o que se exige de um candidato à mais alta magistratura não é a absolvição antecipada: é a decência mínima de não mentir. E aqui o registro é inapelável, porque não vem de adversários, vem de checadores de fatos com régua e calendário na mão: Flávio Bolsonaro mentiu sobre sua relação com Vorcaro pelo menos quarenta e três vezes. Quarenta e três. Primeiro disse que não conhecia o banqueiro. Depois, quando os áudios o desmentiram, disse que o conhecimento era superficial. Depois, quando as mensagens apareceram, disse que o assunto era outro. Depois, quando os pagamentos do Banco Master para o filme foram documentados pela Polícia Federal, disse que não houve repasse. A cada prova, uma versão nova; a cada versão nova, uma mentira antiga enterrada com a pá da indignação fingida. O homem que pede ao eleitorado o voto de confiança não consegue manter a própria biografia em pé por duas semanas.

    Há algo de patético — e de profundamente revelador — no desenrolar. Investigado no Supremo Tribunal Federal, com parecer favorável da Procuradoria-Geral para a abertura do inquérito, o candidato não respondeu com transparência. Respondeu com a velha coreografia da família: a notícia-crime contra o adversário, o uísque supostamente presenteado a Lula, a tentativa de arrastar o nome do presidente da República para dentro do próprio buraco. É o método do espelho sujo: quando a lama sobe até o pescoço, joga-se um pouco no outro para poder apontar e dizer "olhe lá". O eleitor brasileiro já viu esse truque tantas vezes que deveria reconhecê-lo de olhos fechados. Que não reconheça é a medida do perigo.

    E o que resta, afinal, de obra pública? Esta é talvez a pergunta mais cruel de todas, porque não exige inquérito, áudio ou jatinho para ser respondida. Exige apenas um balanço. Flávio Bolsonaro foi vereador, deputado estadual e senador. Em quase duas décadas de mandatos pagos pelo povo, não há um projeto de lei emblemático, uma política pública assinada com seu nome, uma reforma, um programa, uma ideia que sobreviva fora do noticiário policial. Sua biografia legislativa é a biografia de um herdeiro: presente nos cargos, ausente nas obras. O senado foi para ele o que o gabinete fluminense foi na década anterior — um endereço, não um ofício. O Brasil que trabalha, que paga imposto, que cria os filhos no trânsito e na fila, tem o direito de perguntar: o que este homem construiu, algum dia, para alguém que não fosse ele próprio ou o clã? A resposta é um silêncio que ecoa.

    Resta o último capítulo, o mais humilhante para a ideia de soberania: a subserviência. Diante das condenações que se abatem sobre o pai, a estratégia da família não foi a defesa jurídica nos tribunais brasileiros — foi a súplica ao governo de Donald Trump, a busca por sanções e tarifas contra o próprio país, a transformação da nação em moeda de troca numa negociação estrangeira. Flávio Bolsonaro, silencioso cúmplice dessa operação, representa a vertente mais degradada do projeto: a de brasileiros que, quando perdem dentro das regras, pedem a um potentado estrangeiro que quebre as regras por eles. Um candidato que aceita essa lógica não é nacionalista; é gerente de filial. E a matriz fica em Washington.

    Há países que sobrevivem a invasões, a hiperinflação, a ditaduras. Raramente sobrevivem à entrega voluntária do próprio futuro nas mãos de quem só soube saqueá-lo. O Brasil não pode ser o país que, diante do espelho, escolhe o rosto da rachadinha, do jatinho alheio, do filme pago com dinheiro suspeito e das quarenta e três mentiras contadas em sequência, como se fossem capítulos de uma autobiografia. Não se trata de direita ou esquerda — trata-se de algo anterior e mais elementar: a distinção entre um país e um butim. Um candidato sem projeto para a sociedade, com o currículo manchado por denúncias de organização criminosa e lavagem de dinheiro, investigado no Supremo, financiado nas sombras de um banqueiro preso e curvado diante de um governo estrangeiro, não oferece ao eleitor uma escolha política. Oferece um teste de caráter coletivo. É preciso que o Brasil passe nesse teste — não por Flávio Bolsonaro, que nunca demonstrou merecer o voto de ninguém, mas pelo país inteiro, que merece continuar existindo depois de outubro. A defesa da República começa exatamente aí: na urna, com o dedo que recusa o estelionato eleitoral.

    Produzi o conteúdo com a utilização de Ferramentas de IA.

     



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