Seja bem-vindo
Barra Mansa,30/09/2026

    • A +
    • A -
    Publicidade

    JJ

    Até Tu, Estadão!

    O ponto central do editorial não é uma especulação abstrata.


    Até Tu, Estadão!

    Até Tu, Estadão!

    Por JJ

    Há algo de politicamente revelador no editorial do Estadão intitulado “Flávio e a sombra dos milicianos”. Não estamos falando de um jornal identificado com a esquerda, tampouco de uma publicação que possa ser facilmente acusada de hostilidade ideológica ao conservadorismo. O Estado de S. Paulo tem uma longa tradição liberal e conservadora e mantém forte interlocução com setores empresariais, inclusive do agronegócio. Justamente por isso, merece atenção o alerta publicado pelo jornal: a candidatura de Flávio Bolsonaro traz, segundo o próprio editorial, o risco de aproximação das milícias com o topo do poder da República. 

    O ponto central do editorial não é uma especulação abstrata. É a sucessão de relações e episódios que o jornal considera graves. Em 2023, uma assessora de Flávio tratou com Robson Calixto, o “Peixe”, da destinação de quase R$ 200 mil em emenda parlamentar para um projeto no Rio. Calixto foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal, em fevereiro de 2026, a nove anos de prisão por participação no assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes. O Estadão também recupera a antiga proximidade de Flávio com integrantes da milícia, inclusive suas relações políticas com Adriano da Nóbrega e familiares do ex-PM. 

    E há ainda a história de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Flávio confirmou que pediu dinheiro ao banqueiro para financiar o filme sobre Jair Bolsonaro. Reportagens registraram um contrato de US$ 24 milhões, equivalente a cerca de R$ 134 milhões na época, e pagamentos que chegaram a aproximadamente R$ 61 milhões. Isso não autoriza, por si só, concluir que Flávio tenha cometido um crime ou que tenha se apropriado pessoalmente desses recursos: ele nega ter recebido vantagens indevidas. Mas a circunstância merece escrutínio, sobretudo porque Vorcaro e o Banco Master passaram a ser investigados em diferentes frentes, inclusive em apurações envolvendo operações de crédito consignado de aposentados e pensionistas do INSS. Em outubro de 2025, o próprio INSS suspendeu a autorização do Master para novos consignados depois de reclamações e identificação de indícios de irregularidades. 

    É nesse contexto que o editorial ganha uma dimensão que ultrapassa a disputa entre direita e esquerda. Quando até um jornal historicamente conservador decide colocar no centro do debate presidencial as relações de um candidato com personagens ligados às milícias e registra que sua candidatura “embute o risco da ascensão das milícias ao topo do poder da República”, não se trata de uma questão que possa ser descartada como mera narrativa de adversários políticos. Trata-se de fatos, relações documentadas, investigações e perguntas que precisam receber respostas públicas. O eleitor tem o direito de exigir explicações de qualquer candidato, especialmente daquele que pretende ocupar a Presidência da República. 

    Até tu, Estadão? A pergunta é quase irônica, porque o próprio jornal, ao olhar para a trajetória de Flávio Bolsonaro, parece ter chegado a uma preocupação que há muito deveria estar no centro do debate nacional. O problema não é simplesmente ser filho de Jair Bolsonaro, nem pertencer à direita. O problema é o conjunto de relações, episódios e suspeitas que cercam sua trajetória política e que agora chegam à eleição presidencial. Cabe aos brasileiros avaliar essas informações e cobrar respostas. Afinal, colocar alguém na Presidência significa também decidir que tipo de relações, práticas e interesses terão acesso ao centro do poder da República.

    JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira



    COMENTÁRIOS

    LEIA TAMBÉM

    Buscar

    Alterar Local

    Anuncie Aqui

    Escolha abaixo onde deseja anunciar.

    Efetue o Login

    Baixe o Nosso Aplicativo!

    Tenha todas as novidades na palma da sua mão.