JJ
TRUMP FECHA O CERCO
O Brasil entra nesse cenário em posição particularmente delicada.
TRUMP FECHA O CERCO
Por JJ
O que aconteceu nesta terça feira, 22 de setembro de 2026, não pode ser tratado como mais uma reunião diplomática sobre segurança. Sob a liderança de Donald Trump, 14 países latino americanos aderiram ao chamado Escudo das Américas e anunciaram uma ação coordenada contra 24 organizações classificadas como “narcoterroristas”, entre elas o Primeiro Comando da Capital, PCC, e o Comando Vermelho. A declaração prevê congelamento de bens, restrições de vistos e medidas contra pessoas que ofereçam apoio material ou logístico aos grupos. O combate ao crime organizado é uma necessidade concreta e não pode ser relativizado. O que precisa ser discutido é a arquitetura política que está sendo construída para esse combate. Afinal, trata se de uma iniciativa liderada pelos Estados Unidos, da qual Brasil e México não participam, e que pretende estabelecer uma resposta continental para um problema que envolve diretamente a soberania e a legislação de cada país.
A dimensão política da iniciativa ficou ainda mais evidente no discurso de Trump na Assembleia Geral da ONU. O presidente norte americano classificou os cartéis como uma espécie de “Estado Islâmico do Hemisfério Ocidental” e afirmou que os Estados Unidos estão dispostos a utilizar seu poder militar para defender seus interesses no hemisfério. Não estamos, portanto, diante apenas de uma operação policial internacional. Estamos diante de uma política que combina segurança, inteligência, sanções, cooperação militar e pressão diplomática. A história latino americana recomenda atenção quando Washington apresenta uma nova justificativa para ampliar sua presença política e militar na região. O nome da ameaça pode mudar com o tempo. Já tivemos o comunismo, a guerra às drogas e diferentes formas de “ameaça à segurança nacional”. Agora temos o narcoterrorismo. O problema do crime existe, mas a transformação desse problema em uma questão de segurança hemisférica comandada por uma potência externa precisa ser examinada com extremo cuidado.
O Brasil entra nesse cenário em posição particularmente delicada. Primeiro porque PCC e Comando Vermelho são organizações brasileiras e foram incluídas na lista sem que o governo brasileiro tivesse participado da reunião que tomou essa decisão. Segundo porque Washington vem aumentando a pressão sobre Brasília, acusando o governo brasileiro de não enfrentar adequadamente essas organizações. A resposta brasileira precisa ser firme em duas direções. O Estado brasileiro deve combater o crime organizado com inteligência, investigação, repressão financeira, controle das fronteiras e cooperação internacional. Mas essa cooperação não pode significar transferência de autoridade sobre a política de segurança nacional. A legislação brasileira, inclusive, não adota simplesmente a categoria de “narcoterrorismo” utilizada pelos Estados Unidos e pela nova coalizão. Se o Brasil decidir alterar sua legislação, essa deve ser uma decisão soberana do Congresso Nacional e das instituições brasileiras, não uma consequência automática de uma classificação produzida em Washington.
Existe ainda uma dimensão geopolítica que seria ingenuidade ignorar: a China. O fortalecimento de uma estrutura de segurança regional sob liderança norte americana ocorre em meio à disputa cada vez mais aberta entre Estados Unidos e China por influência econômica, tecnológica, comercial e estratégica na América Latina. O Brasil é particularmente importante nesse confronto porque mantém relações econômicas relevantes com Pequim e, ao mesmo tempo, possui dimensão territorial, econômica e política que lhe permite desempenhar papel próprio na América do Sul. Assim, a pressão sobre o Brasil não precisa ser interpretada apenas como uma questão relacionada ao PCC e ao Comando Vermelho. Ela também deve ser observada dentro da disputa mais ampla pela influência sobre o continente. Quando Washington procura reunir governos latino americanos em torno de uma arquitetura comum de segurança, enquanto reafirma sua disposição de usar força militar no hemisfério, não está apenas combatendo organizações criminosas. Está também reafirmando sua pretensão de liderança estratégica sobre a região.
O alerta aos democratas e aos patriotas brasileiros precisa ser claro: combater o crime organizado não significa aceitar tutela estrangeira. Defender a soberania brasileira não significa proteger criminosos. São coisas absolutamente diferentes. O PCC e o Comando Vermelho precisam ser enfrentados com toda a força da lei, assim como qualquer organização criminosa que ameace a sociedade brasileira. Mas o Brasil precisa decidir seus próprios caminhos e estabelecer, democraticamente, os limites de sua cooperação internacional. Este não é um assunto de esquerda ou de direita. É uma questão de soberania nacional. Democratas brasileiros devem compreender que democracia também significa defender as instituições diante de pressões externas. E patriotas brasileiros, independentemente de suas posições políticas, precisam perceber que uma potência estrangeira não pode transformar unilateralmente seus interesses estratégicos em política continental. Trump fecha o cerco. E o Brasil precisa saber que o alvo dessa nova disputa não é apenas o crime organizado. É também a definição de quem terá voz sobre os destinos da América Latina.
JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira




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