MK - Marcelo Kieling
A imprensa que virou militância:
Quando a notícia vira arma de campanha!
A imprensa que virou militância:
Quando a notícia vira arma de campanha!
Por Marcelo Kieling
Tem uma diferença enorme entre informar e empurrar o leitor para um lado. A cobertura das eleições de 2026 está mostrando, na cara dura, o momento em que parte da grande imprensa brasileira trocou a primeira função pela segunda. Isso não é teoria da conspiração nem complô de filme. É um padrão que dá para ver todo dia nas redações, medir, documentar e contestar. O que se vê aí não é jornalismo. É outra coisa, com outro nome — e o público, cada vez mais, está de olho.
O truque é antigo, mas nunca foi tão escancarado
O problema quase nunca é inventar mentira grosseira. Jornalismo direcionado não precisa mentir para distorcer: basta escolher o que mostra. É aí que mora a malandragem. Um fato ruim para o lado que o veículo defende vira três linhas no rodapé — ou some da pauta. Um fato pequeno do lado adversário vira manchete de primeira página, com foto, análise e repercussão garantida. Omitir de propósito é a forma mais eficiente de manipulação porque é invisível: o leitor não vê o que não foi publicado. Ele só absorve, dia após dia, uma realidade recortada sob medida.
A isso se soma a adjetivação. Fato cru vira termo opinativo disfarçado de constatação técnica. O tom da locução, a escolha do verbo, a ordem das informações na matéria — tudo conduz o público a uma conclusão pronta. Não é conspiração: é enquadramento, e enquadramento é escolha editorial. O problema é quando essa escolha serve a um projeto político, e não ao interesse público.
Os números mostram o tamanho do problema
Os números ajudam a dimensionar o fenômeno. Um levantamento de 2026 que analisou 5.417 manchetes e 508 mil posts concluiu que a eleição acontece em duas bolhas que não se falam: a imprensa concentra a cobertura em articulação política e economia, enquanto as redes são dominadas por pautas culturais e morais que quase não aparecem no noticiário. Ou seja: a imprensa não cobre a eleição que o eleitor vive. Cobre a eleição que interessa a ela cobrir. Essa desconexão não é acidente — é o retrato de uma pauta definida por interesses, não por relevância.
O preço que a democracia paga
O efeito na democracia é devastador, e não é especulação. Quando a mídia impõe um filtro ideológico ou comercial, o cidadão deixa de formar juízo e vira torcedor. Ele não avalia os fatos; escolhe um lado e passa a consumir só o que confirma a escolha dele. Resultado: a hiperpolarização que corrói o país. Os fatos deixam de ser ponto de partida comum e passam a ser aceitos ou rejeitados conforme a credibilidade — ou a descredibilidade — de cada veículo. A verdade vira questão de afinidade.
A confiança do público confirma o diagnóstico. Pesquisa da Real Time Big Data, de maio de 2026, mostrou que 52% dos brasileiros não confiam na imprensa, contra 40% que confiam. O dado vale mais que qualquer opinião: a desconfiança na mídia supera até a registrada em relação às Forças Armadas, que tiveram 48% de confiança. Uma instituição que deveria ser o contraponto do poder — o quarto poder, o fiscalizador — virou, para a maioria da população, um ator para desconfiar. Isso não é crise de imagem. É falência de função.
Nem tudo é lixo — mas a exceção não salva a regra
É preciso ser honesto: a imprensa não é um bloco monolítico. Tem veículo, editoria e repórter que fazem jornalismo rigoroso, com apuração séria, checagem e cobertura crítica do poder — inclusive dentro das grandes corporações. Descartar tudo seria tão tosco quanto aceitar tudo. Mas reconhecer a exceção não absolve a regra. O problema é que o jornalismo de qualidade convive, no mesmo ecossistema, com a pauta encomendada, com a manchete desproporcional, com a omissão conveniente. E quando a exceção vira exceção, a regra é o problema.
O que a gente pode fazer
A resposta a esse cenário não pode ser desistir da informação — seria entregar o debate público aos piores atores. A resposta é a exigência. Exigir transparência editorial, separação explícita entre fato e opinião, direito de resposta efetivo, diversificação de fontes e o resgate do rigor factual na apuração. Exigir que o veículo que erra reconheça o erro com a mesma manchete com que noticiou o acerto. Exigir que a omissão seja tão explicada quanto a publicação.
Quando a notícia vira refém de interesses particulares, ela deixa de ser jornalismo e vira propaganda — ou, pior, relações públicas de um projeto de poder. E propaganda não informa: convence. Não esclarece: conduz. Não serve ao cidadão: serve ao dono. A defesa contra esse cenário não é a censura, que jamais deve ser invocada; é a vigilância permanente do leitor, a diversificação das fontes e a recusa em aceitar que a pauta pública seja definida por quem tem mais a ganhar com ela.
A imprensa que se curva aos interesses eleitorais trai o leitor, trai a democracia e trai a si mesma. O público já percebeu. Falta aos veículos perceberem antes que a confiança, uma vez perdida, não volta com um pedido de desculpas — volta, se voltar, com décadas de trabalho honesto.
Do ponto de vista analítico, o ponto mais sólido é o primeiro: a omissão seletiva é, de fato, a variável mais difícil de contestar, porque não deixa rastro verificável — o leitor só percebe o que foi publicado, nunca o que ficou de fora. Isso explica por que a desconfiança (52%) supera a confiança (40%) sem que haja, necessariamente, uma acusação objetiva de mentira. O dado do estudo também reforça a tese de forma consistente: se a imprensa e as redes cobrem eleições diferentes, há um descompasso real entre a pauta editorial e a pauta vivida pelo eleitor — e esse descompasso é mensurável, não apenas retórico.
Esse cenário impõe à mídia uma retomada que não pode ser de fachada, mas de função: voltar a operar com total responsabilidade na produção de informação e opinião, apoiada em postura ética e na exposição absoluta da verdade dos fatos. Do ponto de vista analítico, essa retomada só é crível se vier acompanhada de mecanismos verificáveis — separação explícita entre fato e opinião, correção pública dos erros com a mesma visibilidade das manchetes originais, transparência sobre critérios editoriais e diversificação de fontes. O dado de 52% de desconfiança demonstra que a credibilidade não se reconstrói com discurso institucional, mas com comportamento observável e consistente ao longo do tempo. A ressalva que cabe é que esse processo depende tanto da disposição dos veículos quanto da pressão do leitor; a mídia só retoma a condição de quarto poder quando volta a ser percebida como contraponto confiável do poder, e essa percepção se reconquista por evidência, não por autoafirmação. A verdade dos fatos, nesse sentido, não é um valor abstrato: é o único ativo capaz de restaurar a relação de confiança que a cobertura conduzida corroeu.
Produzi o conteúdo com a utilização de Ferramentas de IA.




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