MK - Marcelo Kieling
Make Up:
a única maquiagem do roteiro que não conseguiu disfarçar nada
Make Up: a única maquiagem do roteiro que não conseguiu disfarçar nada
Onde ele via corrupção, havia esquerda; onde há inquérito, há "perseguição".
Por Marcelo Kieling
A cena, na manhã de 10 de setembro, tinha uma ironia que só a vida sabe dirigir. Agentes da Polícia Federal bateram na porta do deputado que construiu a carreira apontando o dedo para a corrupção alheia — o ex-astro de novelas convertido em soldado da cruzada moral. Foram apreendidas sete armas na casa do paladino, entre elas um fuzil e uma espingarda: legais, sim, mas registradas num endereço que não era o dele. Ao mesmo tempo, 49 mandados de busca e apreensão voavam para quatro estados, contra 22 alvos, sem uma única prisão — mas com uma montanha de papel que nenhuma edição de vídeo consegue cortar. A operação, feita em parceria com o órgão de controle da União e autorizada por um ministro do Supremo, investiga peculato, falsificação de documento, lavagem de dinheiro, organização criminosa e fraude em licitação. Tinha até nome de produção cinematográfica: Make Up. Maquiagem? Nunca um codinome foi tão honesto.
1. O bumerangue da moralidade
O discurso de honestidade foi o combustível de uma década de palanque. O dedo em riste contra os "esquemas" — que, claro, só existiam do outro lado — era a bandeira que justificava tudo, até o silêncio diante dos próprios esqueletos. Pois é: o bumerangue voltou, e voltou com a precisão de quem nunca erra o alvo quando o alvo é a hipocrisia.
A campanha repete feito disco riscado que o problema é "narrativo", não jurídico. Traduzindo do politiquês: não dá para negar o que os autos mostram, então o jeito é negociar a versão. A cúpula do partido descartou qualquer hipótese de recuo na candidatura — não por estar convencida da inocência, ninguém é bobo, nem eles —, mas por puro cálculo eleitoral. O problema é que a oposição não precisa inventar absolutamente nada. Basta citar o inquérito e deixar o constrangimento trabalhar.
2. O delator não mente — e isso dói
Delação premiada é o mecanismo mais democrático do sistema penal: só não delata quem não tem o que contar. E a colaboração aqui foi aceita por um ministro do Supremo no dia 9 de setembro, véspera da operação — o calendário, convenhamos, tem desses caprichos. O colaborador é o operador financeiro do banqueiro preso, aquele a quem o senador e candidato, filho do ex-presidente, teria pedido dinheiro para bancar as filmagens da cinebiografia do pai.
O que ele contou não é "fato político" — é documentação. Ele disse que "gerava" dinheiro vivo para a equipe do banqueiro, entregue em malas, destinado, segundo ele, a pagamentos de propina. E detalhou sete repasses, como subscrição de cotas, para um fundo nos Estados Unidos administrado por um advogado ligado ao outro filho do ex-presidente: de janeiro a setembro de 2025, US$ 12,3 milhões — coisa de R$ 62,8 milhões. O pedido inicial, segundo ele, chegou perto de US$ 24 milhões. E o pagamento de setembro, de US$ 1,6 milhão, derruba a versão pública de que os repasses teriam parado em maio. Prepare o seu coração, ensinava Geraldo Vandré em Disparada, “pras coisas que se vai contar. Eu venho lá do sertão — o sertão”, aqui, é outro: é o abismo entre o discurso e a conta bancária.
Os investigadores rejeitam a palavra "patrocínio" e apuram suspeitas de corrupção e lavagem de dinheiro nessa engrenagem. O movimento que passou a última década cobrando "provas, provas, provas" dos adversários agora exige que as provas contra si sejam simplesmente ignoradas. O cinismo tem limite até para o gosto mais refinado — e esse limite estourou faz tempo.
3. A toga que virou palanque
No roteiro, tem o personagem que o palco reservou ao Judiciário: o juiz que autoriza a investigação, tira o sigilo da ação, proíbe um investigado de deixar o país e de falar com os demais — e o movimento que enquadra tudo no manual de sempre: "perseguição", "interferência", "conspiração". É o vitimismo aplicado com a precisão de quem já ensaiou o papel mil vezes. O próprio candidato tratou de entregar o roteiro: "Qual o fundamento dessa operação? Político." E repetiu, com a sinceridade de quem ensaiou a negativa, que não há "um centavo de dinheiro público" no filme.
O problema é que a plateia mudou. O eleitor mais ideológico aplaude de pé, porque precisa desesperadamente de um vilão para não encarar os fatos. Mas o eleitor moderado — aquele que decide eleição no voto útil e no "menos pior" — só enxerga instabilidade. E instabilidade, para quem busca previsibilidade, é motivo suficiente para deixar o botão da urna intacto. O juiz não é protagonista de coisa nenhuma: é o sintoma de um Judiciário transformado em campo de batalha, onde cada lado recruta seus generais e chama o adversário de golpista.
4. A agenda propositiva virou figurante
Segurar a estreia do filme para depois do primeiro turno é uma confissão constrangedora: a obra deixou de ser arte para virar bomba-relógio, cronometrada como granada de campanha. Só que o roteiro não obedece ao marketing. Os números, esses, são impiedosos: a Polícia Federal suspeita que R$ 750 mil repassados à produtora saíram de dinheiro público de emendas parlamentares; o deputado mandou R$ 645,4 mil para a empresa em menos de 60 dias — valor que não bate com um salário mensal de cerca de R$ 44 mil; e a produtora, durante as filmagens, entre outubro e dezembro, gastou R$ 906,7 mil num hotel de alto padrão e mais R$ 653 mil em refeições. As movimentações somaram algo em torno de R$ 19 milhões em dois meses. Soma-se a isso a triangulação de R$ 6,1 milhões apontada num contrato de internet de uma grande cidade, com indícios de lavagem em entidades ligadas à produção, e o documento encontrado na casa da produtora no qual ela relata ter sofrido pressão para delatar. Coincidência de datas, coincidência de montantes, coincidência de destino. Coincidência demais.
A eleição deixou de ser sobre economia, saúde ou segurança. Virou um reality show judicial com data marcada, e o eleitor que queria debater o país é obrigado a assistir, em horário nobre, à defesa de um candidato contra as próprias escolhas. Ninguém vota em quem passa o programa inteiro explicando o inexplicável. Acabou nosso carnaval, cantou Vandré na Marcha da Quarta-Feira de Cinzas; “ninguém ouve cantar canção, ninguém chora, nem se fala mais em ilusão”. O carnaval da probidade seletiva acabou — e o país, esse, já não canta junto.
5. O teto que não se arranha com militância
Não, a candidatura não implodiu. A base segue fiel, os números seguem de pé. Mas o cenário impôs algo mais cruel que a derrota anunciada: um teto de rejeição rígido, daqueles que não se arranham com discurso nem com narrativa de perseguição. Teto, em eleição, é teto — não se atravessa no empurrão.
O teste agora é medir até onde a mobilização contra o adversário histórico e a vitimização jurídica conseguem blindar um candidato diante de provas materiais detalhadas por investigações federais. É um teste de resiliência, sim. Mas é, antes de tudo, um teste de honestidade intelectual — e nesse quesito, convenhamos, o movimento vem reprovando com nota baixa há muito tempo. Nos quartéis lhes ensinam antigas lições, escreveu Vandré em Pra não dizer que não falei das flores: “de morrer pela pátria e viver sem razão”. As lições foram ensinadas. Viveram anos de razão nenhuma, com o cenário dos bastidores exposto, e agora pedem ao país que esqueça o que viu. O país, esse, não esquece fácil o que os áudios gravam.
O moralismo tem dessas coisas: quando o espelho aparece, ou o candidato encara o reflexo, ou passa o resto da campanha fingindo que ele não existe.
“Vem, vamos embora, que esperar não é saber. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. A hora chegou — e veio sem maquiagem, sem edição, sem cortes. A plateia, essa, já viu o filme.
Produzi o conteúdo com a utilização de Ferramentas de IA.




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