Arthur Vinciprova
O QUE JUSTIFICA ESTAR NO PALCO?
Quando as luzes se apagam, acontece uma espécie de acordo silencioso.
O QUE JUSTIFICA ESTAR NO PALCO?
Por Arthur Vinciprova
Nos últimos dias, comecei a trabalhar em novos espetáculos e me vi diante de uma missão aparentemente simples: escolher um texto. Simples coisa nenhuma.
Quanto mais eu procurava, mais pensava: por que contar essa história? Por que subir num palco com ela? Por que convencer alguém a sair de casa, enfrentar trânsito, procurar estacionamento, pagar ingresso e ainda passar duas horas olhando para a nossa cara?
Talvez a gente, como artista, nem sempre tenha dimensão da responsabilidade que existe nisso.
Quando as luzes se apagam, acontece uma espécie de acordo silencioso. O espectador está confiando que aquelas pessoas no palco vão pular de cabeça naquela história. E não fazemos ideia de quem está sentado ali. Alguém pode se reconhecer numa personagem, lembrar de uma pessoa, repensar alguma coisa da própria vida ou simplesmente estar precisando desesperadamente rir.
E isso também é fundamental.
Nem todo espetáculo precisa ser grave, intenso ou querer explicar os grandes dilemas da humanidade. Uma boa comédia que faça uma plateia gargalhar e esquecer os problemas por algumas horas pode ser tão necessária quanto qualquer drama.
Existe ainda algo que me pega: para alguém naquela plateia, aquela pode ser a primeira peça de teatro da vida.
Que responsabilidade! Podemos estar diante da oportunidade de fazer uma pessoa se apaixonar pelo teatro. Ou, convenhamos, traumatizá-la e fazê-la nunca mais voltar.
Por isso, um trabalho precisa ter alguma urgência. Não no assunto, mas em nós. Alguma razão para estarmos fazendo aquilo agora.
Porque o tempo passa. O nosso e o de quem está assistindo.
E se alguém nos entrega algumas horas da própria vida, confiando que vamos pular de cabeça naquela história, o mínimo que podemos fazer é pular de verdade.
E, de preferência, fazer essa pessoa querer voltar ao teatro.




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