JJ
O CERCO E AS TREVAS
Esse método não é novo.
O CERCO E AS TREVAS
Por JJ
Há um movimento em curso no Brasil que precisa ser compreendido com lucidez política. A transformação do ministro Alexandre de Moraes em alvo permanente de uma ofensiva midiática e política não significa que ele seja inocente de erros ou esteja acima de críticas. Não está. Moraes cometeu equívocos, tomou decisões discutíveis e, em alguns momentos, adotou medidas que merecem questionamento. Mas uma coisa é criticar atos concretos de um ministro. Outra, muito diferente, é construir diariamente uma atmosfera de suspeição, escândalo e demonização em torno de uma pessoa, até transformá-la no grande inimigo da República.
Esse método não é novo. O Brasil assistiu a ele ser aplicado contra Dilma Rousseff e, de maneira ainda mais brutal, contra Lula. Primeiro, escolhe-se o alvo. Depois, cada episódio é transformado em escândalo. Multiplicam-se manchetes, insinuações, comentaristas indignados e análises aparentemente neutras que, somadas diariamente, produzem uma narrativa devastadora. Não é necessário provar uma grande acusação. Basta manter permanentemente no ar a sensação de que há algo errado. A repetição substitui a prova. A suspeita substitui o fato. E o tribunal da opinião pública faz o resto.
É exatamente por isso que precisamos observar com atenção o que está acontecendo agora. A extrema direita tem razões evidentes para odiar Alexandre de Moraes. Foi ele um dos principais obstáculos institucionais ao avanço da ofensiva golpista e autoritária que ameaçou a democracia brasileira. Mas o problema se agrava quando setores poderosos da imprensa passam a alimentar, amplificar ou normalizar esse cerco. A imprensa não precisa se declarar bolsonarista para cumprir um papel funcional aos interesses da extrema direita. Basta ajudar a construir o inimigo.
E é impossível ignorar o papel da Rede Globo nesse processo. A emissora parece ter reencontrado o prazer de transformar determinadas crises em grandes espetáculos nacionais. Há uma diferença entre jornalismo investigativo e uma cobertura que, pela repetição, pelo enquadramento e pela escolha permanente dos personagens, constrói uma campanha política. Alguns de seus comentaristas sequer conseguem esconder o entusiasmo diante da possibilidade de enfraquecimento de Moraes. Malu Gaspar tornou-se uma das vozes mais visíveis dessa ofensiva, contribuindo para a construção cotidiana de um ambiente de desgaste que vai muito além da crítica legítima.
O resultado político desse cerco é ainda mais grave porque ele ocorre num momento eleitoral delicado. A campanha de Lula, pressionada e com dificuldades de reagir à velocidade da ofensiva adversária, acaba sendo empurrada para as cordas. Uma quantidade enorme de ataques, notícias e crises encurrala o campo progressista, coloca a esquerda na defensiva e impede que a disputa seja travada em torno daquilo que realmente interessa à maioria do povo brasileiro. Enquanto a direita produz escândalos e a imprensa amplifica a indignação, quem deveria estar discutindo emprego, salário, redução da jornada e direitos dos trabalhadores passa o tempo inteiro respondendo à pauta dos adversários.
Não nos iludamos: essa sanha moralista não é neutra. O moralismo seletivo sempre foi uma das armas preferidas da reação brasileira. Ele precisa de vilões e de heróis. Precisa destruir reputações para construir salvadores. Foi assim com Sérgio Moro, transformado durante a Lava Jato em uma espécie de herói nacional acima da política e da ideologia. Hoje, começa a surgir novamente a tentativa de construir um antagonista virtuoso para Alexandre de Moraes. André Mendonça, o ministro que se apresentou ao país como “terrivelmente evangélico”, passa a ocupar esse lugar.
Sua recente decisão monocrática envolvendo o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal ganha, portanto, uma dimensão que ultrapassa o simples debate jurídico. É uma decisão que deverá encontrar terreno favorável entre os ministros mais alinhados ao bolsonarismo na Segunda Turma e que foi comemorada com entusiasmo por setores da mídia. Mais uma vez, constrói-se uma narrativa conveniente: Moraes representa o excesso; Mendonça, a moderação. Moraes é o problema; Mendonça, a solução. É o velho mecanismo de fabricação política de personagens, agora reapresentado com novos atores.
Enquanto isso, pautas fundamentais para os trabalhadores vão sendo empurradas para o segundo plano. A não votação de propostas como o fim da jornada 6x1 é uma consequência concreta de um ambiente político permanentemente sequestrado por crises, disputas institucionais e escândalos. A reação sabe muito bem o que faz. Para impedir avanços sociais, não precisa necessariamente vencer o debate sobre a exploração dos trabalhadores. Muitas vezes basta impedir que esse debate aconteça.
A esquerda precisa compreender que não está diante de episódios isolados. Há uma disputa pela narrativa, pelo controle da opinião pública e pelo futuro político do país. Alexandre de Moraes pode e deve ser criticado por seus erros. Defender a democracia não significa transformar autoridades em figuras intocáveis. Mas permitir que uma campanha sistemática de destruição seja tratada como simples exercício de jornalismo crítico é repetir os mesmos erros que levaram o Brasil a alguns dos períodos mais sombrios de sua história recente.
O período é de trevas. A extrema direita continua viva, organizada e poderosa. Setores da imprensa continuam capazes de fabricar consensos, destruir reputações e escolher seus heróis conforme as conveniências do momento. E o que está sendo construído agora pode ter consequências muito maiores do que o destino político de Alexandre de Moraes. O cerco é contra um homem, mas seus efeitos podem atingir a democracia, a esquerda e, sobretudo, a possibilidade de o Brasil voltar a discutir um projeto de avanço social em favor dos trabalhadores.
JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira




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