JJ
Bezerra, Um Conterrâneo de Peso
Da enxada à militância política, da condição de trabalhador pobre à organização revolucionária,
Bezerra, Um Conterrâneo de Peso
Por JJ
Gregório Bezerra não foi apenas um comunista, um militante ou um deputado. Foi uma dessas figuras que parecem ter sido produzidas diretamente pela brutalidade da história brasileira para, em seguida, se voltarem contra ela. Pernambucano de Panelas, filho da pobreza absoluta, começou a trabalhar ainda criança na roça e conheceu muito cedo aquilo que milhões de brasileiros ainda conhecem: a fome, a exploração, o abandono e a ausência quase completa de direitos. Gregório não estudou a miséria nos livros. A miséria foi a sua primeira professora. E talvez seja justamente por isso que tenha se transformado em um dos mais autênticos representantes da luta do povo brasileiro.
Da enxada à militância política, da condição de trabalhador pobre à organização revolucionária, Gregório construiu uma trajetória que não admite simplificações. Alfabetizou-se já adulto, passou pelo Exército, aproximou-se das lutas operárias e ingressou no Partido Comunista, encontrando na organização política uma explicação para aquilo que sua própria vida já lhe havia ensinado: a desigualdade brasileira não era obra do destino, mas resultado de uma sociedade construída sobre a exploração de muitos em benefício de poucos.
Em 1935, Gregório esteve entre os dirigentes do movimento ligado à Aliança Nacional Libertadora em Pernambuco. A derrota da insurreição significou para ele aquilo que tantas vezes significou para os revolucionários brasileiros: prisão, tortura e anos de cárcere. Condenado a uma pena brutal, percorreu prisões e presídios durante uma década. Recebeu ainda atrás das grades a notícia do assassinato de seu irmão, José Lourenço Bezerra, morto depois de sofrer torturas por se recusar a denunciar seus companheiros. Para muitos homens, uma tragédia dessas poderia significar o fim. Para Gregório, significou o endurecimento definitivo de suas convicções.
Anistiado em 1945, voltou imediatamente à luta política e foi eleito deputado federal constituinte pelo PCB. Não era um intelectual de gabinete falando em nome do povo. Era o próprio povo chegando ao Parlamento com a voz, o sotaque, as marcas e a experiência daqueles que jamais haviam sido convidados a decidir os destinos do país. Sua passagem pela Constituinte foi interrompida pela cassação do registro do Partido Comunista e pela consequente perda de seu mandato, mais um capítulo da longa tradição brasileira de permitir a democracia apenas enquanto ela não ameaça demasiadamente os interesses das classes dominantes.
Mas seria em 1964 que Gregório Bezerra se transformaria definitivamente em símbolo nacional. Preso após o golpe militar, foi submetido a uma das mais infames sessões públicas de humilhação e tortura daquele período. Arrastado pelas ruas do Recife, espancado e exposto à violência dos seus algozes, Gregório foi transformado pelos militares em exemplo do que pretendiam fazer com todos aqueles que ousassem resistir. O efeito, porém, foi o contrário. Pretendiam destruir um homem e acabaram ajudando a construir uma lenda. A imagem daquele velho comunista torturado tornou-se uma das imagens mais poderosas da resistência brasileira contra a ditadura.
É por isso que dói reconhecer que, como tantos outros militantes de sua geração, Gregório também viveu as profundas rupturas ideológicas que atravessaram o movimento comunista internacional depois da morte de Stalin e do chamado Relatório Secreto apresentado por Nikita Khrushchev em 1956. O documento inaugurou uma ofensiva política contra o período anterior da experiência soviética e produziu consequências enormes para partidos comunistas de todo o mundo. Mais do que um simples debate histórico, abriu-se uma fratura ideológica que confundiu militantes, reorganizou alianças e alterou estratégias. Seu conteúdo e suas consequências permanecem objeto de intensa controvérsia histórica e política.
Não é preciso transformar Gregório Bezerra em santo para reconhecer sua grandeza. Heróis populares não são grandes porque nunca erram. São grandes porque, mesmo carregando contradições, deixam uma vida inteira comprometida com algo maior do que eles próprios. E Gregório deixou. Foram décadas de luta, prisões, perseguições, torturas e sacrifícios pessoais em nome de uma ideia simples e, ainda hoje, profundamente revolucionária: o povo brasileiro merece viver com dignidade e não deve aceitar eternamente a condição que lhe foi imposta pelas elites.
Talvez seja essa a grande lição de Gregório para os pernambucanos e para todos os brasileiros. Em uma época de tantos revolucionários de internet, tantos valentes de teclado e tantos homens que confundem opinião com coragem, é preciso recordar aqueles que pagaram com o próprio corpo pelas ideias que defendiam. Gregório não escreveu a sua história de uma cadeira confortável. Escreveu-a com as mãos calejadas da roça, nas celas das prisões, nas ruas onde foi torturado e na resistência obstinada de quem se recusou a abandonar o seu povo.
Gregório Bezerra é, para mim, um conterrâneo de peso. Peso histórico, peso moral e peso político. Um homem que saiu da pobreza mais profunda para se tornar personagem incontornável da história brasileira. Um guerreiro que conheceu a derrota sem se render, a prisão sem se ajoelhar e a tortura sem entregar sua dignidade. Podemos discutir escolhas, divergências e caminhos ideológicos. O que não podemos discutir é sua coragem. E, num país tão acostumado a produzir poderosos covardes, Gregório Bezerra continua sendo uma lembrança incômoda e necessária de que, às vezes, um homem do povo pode ser maior do que toda a violência organizada contra ele.
JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira




COMENTÁRIOS