JJ
DARCY RIBEIRO
O BRASIL QUE AINDA PRECISAMOS COMPREENDER
DARCY RIBEIRO E O BRASIL QUE AINDA PRECISAMOS COMPREENDER
Por JJ
Há livros que explicam uma época. Há outros que atravessam a época em que foram escritos e continuam nos interrogando décadas depois. O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro, pertence à segunda categoria. Publicado em 1995, depois de aproximadamente trinta anos de elaboração, o livro é uma das mais extraordinárias tentativas de compreender a formação histórica, cultural, social e étnica do Brasil. Darcy não queria simplesmente contar a história do país. Queria responder a uma pergunta muito mais profunda: afinal, que povo é esse que nasceu da violência colonial, da escravidão, do encontro forçado entre povos distintos e, apesar de tudo, conseguiu construir uma cultura própria? Sua resposta é grandiosa: o brasileiro seria um povo novo, resultado de um processo civilizatório particular, simultaneamente marcado pela violência de sua origem e pela extraordinária capacidade de criação daqueles que aqui foram obrigados a viver.
A primeira grande virtude de Darcy é ter recusado a ideia de que o Brasil poderia ser compreendido simplesmente como uma cópia imperfeita da Europa. Ele desloca o olhar. Em vez de perguntar por que o Brasil não conseguiu ser europeu, pergunta como o Brasil se constituiu enquanto experiência histórica própria. Essa mudança parece simples, mas é intelectualmente revolucionária. Darcy percebe que indígenas, africanos e portugueses não foram apenas três grupos que se encontraram e produziram uma sociedade mestiça. Houve guerra, escravização, estupro, epidemias, expropriação territorial, destruição cultural, resistência e reinvenção. A mestiçagem, portanto, não aparece em sua obra como um idílio tropical. Ela é também consequência de relações profundamente assimétricas de poder. Estudos posteriores ressaltam justamente essa dimensão contraditória da mestiçagem em Darcy: ela é constitutiva do povo brasileiro, mas nasce dentro de processos de violência e dominação.
É nesse ponto que Darcy se distancia decisivamente de uma leitura ingênua de Gilberto Freyre. A existência da mestiçagem não significa, para ele, a existência de democracia racial. O Brasil pode ser profundamente mestiço e, simultaneamente, profundamente racista. Essa talvez seja uma das contribuições mais importantes de O Povo Brasileiro: compreender que mistura não significa igualdade. O país pode ter produzido uma identidade cultural extraordinariamente sincrética sem eliminar as hierarquias sociais construídas durante séculos. Darcy identifica uma sociedade em que a proximidade cultural convive com a distância social, em que o negro participa decisivamente da construção da cultura brasileira, mas permanece submetido a mecanismos de exclusão e inferiorização. A unidade cultural brasileira, portanto, não deve ser confundida com igualdade social.
Outro mérito extraordinário do livro está na maneira como Darcy procura enxergar os diversos Brasis. O Brasil crioulo, o Brasil caboclo, o Brasil sertanejo, o Brasil caipira e o Brasil sulino não são apenas regiões geográficas. São experiências históricas produzidas por diferentes formas de ocupação do território, relações econômicas, processos de trabalho, culturas e relações com o poder. Essa percepção é fundamental porque impede que o Brasil seja reduzido ao eixo Rio-São Paulo, à experiência nordestina, ao mundo amazônico ou ao Sul. Darcy entende que nossa unidade nacional não eliminou nossas diferenças. Ao contrário: o Brasil é uma unidade construída sobre uma extraordinária diversidade de experiências humanas. A própria descrição da obra destaca essa tensão entre unidade e ausência de uniformidade.
Mas é justamente quando chegamos às virtudes que começam a aparecer algumas das limitações de Darcy. Sua interpretação é tão abrangente que, muitas vezes, transforma processos históricos extremamente complexos em uma grande narrativa explicativa. Essa é a força e, simultaneamente, a fragilidade do livro. Darcy quer explicar o Brasil inteiro. Para isso, constrói categorias amplas, interpreta séculos de história e articula antropologia, economia, cultura, política e formação étnica. O resultado é intelectualmente fascinante, mas algumas generalizações precisam ser confrontadas com pesquisas posteriores. Críticas acadêmicas à obra já apontaram, entre outras questões, o peso excessivo atribuído à mestiçagem e o fato de o livro dialogar pouco com parte da produção mais contemporânea sobre escravidão, raça e mestiçagem disponível quando foi publicado.
Uma segunda lacuna está justamente na maneira como a mestiçagem pode, em determinados momentos da narrativa, adquirir um significado excessivamente integrador. Darcy é muito cuidadoso ao denunciar a exploração e a desigualdade, mas sua ideia de um "povo novo" pode produzir uma espécie de unidade histórica que precisa ser problematizada. O Brasil não é somente aquilo que os diferentes grupos fizeram juntos. É também aquilo que determinados grupos foram impedidos de continuar sendo. A formação brasileira envolveu processos de desindianização, desafricanização e apagamento de identidades, ao mesmo tempo em que produziu novas identidades. O mestiço não nasceu simplesmente da soma de três matrizes culturais. Muitas vezes nasceu da destruição das possibilidades de permanência dessas próprias matrizes. É uma diferença decisiva.
Há ainda uma questão que merece ser mais explorada: o lugar das mulheres nessa formação. A narrativa da mestiçagem brasileira não pode ser compreendida somente como encontro cultural entre homens e povos. Ela também foi construída sobre o corpo das mulheres indígenas e negras. A sexualidade colonial, a violência sexual, a exploração do trabalho feminino, a reprodução forçada e as relações assimétricas entre homens brancos e mulheres não brancas foram elementos constitutivos da formação social brasileira. Pesquisas recentes voltadas especificamente à obra de Darcy chamam atenção para essa dimensão e questionam a maneira como determinadas narrativas da mestiçagem podem transformar relações marcadas pela violência em imagens excessivamente conciliatórias de intimidade e encontro. Essa é uma lacuna importante porque não basta perguntar de onde veio o brasileiro; é preciso perguntar também sobre quais corpos foi produzido esse brasileiro.
Outra questão é a relação entre raça e classe. Darcy compreende perfeitamente que a desigualdade brasileira não é apenas racial e tampouco apenas econômica. Ele procura construir uma tipologia própria das classes sociais brasileiras, distinguindo classes dominantes, setores intermediários, classes subalternas e classes oprimidas. Isso é extremamente importante porque demonstra que ele não reduz o problema brasileiro à questão da identidade. Mas, à luz do desenvolvimento posterior dos estudos sobre racismo estrutural, podemos perceber que seria necessário aprofundar ainda mais a maneira como raça e classe se reproduzem mutuamente. A pobreza brasileira não é racialmente neutra. A concentração de riqueza também não. A herança escravocrata não desaparece porque o país se industrializa, urbaniza ou se torna formalmente republicano. Ela se transforma, muda de linguagem e encontra novas instituições para reproduzir privilégios.
Também é preciso considerar o tempo histórico de Darcy. O Povo Brasileiro foi publicado em 1995. Portanto, não poderia incorporar plenamente transformações que se aprofundariam nas décadas seguintes: a expansão das políticas de reconhecimento racial, o fortalecimento do movimento indígena, novas pesquisas sobre escravidão e diáspora africana, a consolidação de estudos sobre racismo estrutural, as transformações do feminismo negro, as disputas contemporâneas sobre identidade e representação e as mudanças profundas provocadas pela globalização, pela financeirização e pela revolução tecnológica. Não devemos cobrar de Darcy aquilo que pertence a outra geração intelectual. Mas podemos fazer algo melhor: continuar Darcy. Uma obra verdadeiramente clássica não é aquela que encerra uma discussão. É aquela que cria condições para que outras gerações continuem discutindo.
Talvez seja essa a maneira mais justa de ler Darcy Ribeiro hoje. Não como um autor infalível, mas como um pensador monumental. Ele nos ensinou que o Brasil não pode ser explicado pela ideia simplista de três raças que se misturaram harmonicamente. Mostrou que nosso povo foi produzido por encontros e confrontos, por violência e resistência, por exploração e criatividade. Mostrou também que a cultura brasileira não é um subproduto menor da civilização europeia, mas uma criação histórica original, construída principalmente por aqueles que, durante séculos, tiveram sua humanidade negada. Sua interpretação é particularmente poderosa quando revela a capacidade dos povos submetidos à dominação de transformar aquilo que receberam em algo novo.
Por isso, as lacunas de O Povo Brasileiro não justificam seu abandono. Justificam sua releitura. Darcy precisa ser confrontado por Florestan Fernandes na questão racial, pelas novas historiografias da escravidão, pelos estudos indígenas contemporâneos, pelo pensamento feminista e negro, pela sociologia das desigualdades e pelas pesquisas que revelam novas dimensões da formação econômica e política brasileira. Mas confrontar Darcy não é diminuir Darcy. É levar a sério sua própria ambição intelectual. Ele queria compreender o Brasil para transformá-lo. Seu livro é, nesse sentido, menos um ponto de chegada do que um convite à investigação.
E talvez esteja aí a sua maior atualidade. O Brasil continua sendo uma sociedade capaz de produzir extraordinária riqueza cultural ao mesmo tempo em que preserva desigualdades brutais. Continua sendo um país mestiço, mas não racialmente igualitário; plural, mas profundamente desigual; democrático em suas instituições, mas ainda marcado por estruturas sociais herdadas de séculos de escravidão, patriarcalismo e concentração de poder. A grande pergunta de Darcy permanece viva: que povo somos nós e que país queremos construir? A resposta, entretanto, já não pode ser exatamente a mesma de 1995. Precisamos acrescentar às perguntas de Darcy outras tantas: quem ficou invisível nessa narrativa? Quem teve sua voz silenciada? Quem continua pagando o preço da formação brasileira? Quem se beneficia da desigualdade que herdamos? E, sobretudo, como transformar a extraordinária capacidade brasileira de criar cultura em capacidade igualmente extraordinária de produzir justiça?
O Povo Brasileiro continua sendo um livro espetacular porque não nos oferece apenas informações sobre o Brasil. Ele nos oferece uma maneira de olhar para o Brasil. E olhar para um país de verdade significa enxergar simultaneamente sua grandeza e sua brutalidade, sua criatividade e suas injustiças, sua unidade e seus conflitos. Darcy nos ensinou a admirar o povo brasileiro sem idealizá-lo e a criticar o Brasil sem desprezar aquilo que somos capazes de construir. Talvez seja exatamente por isso que, três décadas depois de sua publicação, ainda seja indispensável lê-lo. Não para concordar com tudo o que Darcy disse, mas para aprender com ele a fazer aquilo que ele mais desejava: pensar o Brasil a partir de nós mesmos, com coragem suficiente para reconhecer aquilo que temos de extraordinário e lucidez suficiente para não transformar nossas contradições em virtudes.
JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira




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