Fernanda Medeiros
Independência também é assunto da Psicologia
O que significa, emocionalmente, tornar-se independente?
Independência também é assunto da Psicologia
O que significa, emocionalmente, tornar-se independente?
Às margens do Ipiranga, em 7 de setembro de 1822, o Brasil ganhou sua mais conhecida declaração de independência. Mais de dois séculos depois, a data continua simbolizando ruptura, autonomia e a possibilidade de seguir um caminho próprio.
Para a Psicologia, porém, a palavra independência também provoca uma pergunta bastante interessante:
O que significa, emocionalmente, tornar-se independente?
À primeira vista, a resposta parece simples.
Crescer. Trabalhar. Ganhar o próprio dinheiro. Sair da casa dos pais. Tomar decisões. Construir a própria vida.
Tudo isso pode fazer parte da independência adulta. Mas existe outra forma de autonomia, menos visível e muitas vezes muito mais difícil de conquistar: a independência emocional.
Porque é possível ser financeiramente independente e continuar precisando da aprovação de outras pessoas para fazer escolhas.
É possível morar sozinho e ainda organizar a própria vida de acordo com as expectativas da família.
É possível ter uma carreira consolidada e sentir-se profundamente abalado diante da desaprovação de alguém.
É possível, inclusive, acreditar que estamos escolhendo livremente quando, na verdade, ainda estamos tentando corresponder ao que esperam de nós.
Crescer não significa apenas sair de casa
Nos primeiros anos de vida, dependemos profundamente de outras pessoas.
Precisamos de cuidado, proteção e referências para compreender o mundo e também para construir nossa própria identidade.
Durante o desenvolvimento, porém, ocorre um movimento importante: pouco a pouco, começamos a perceber que podemos pensar, desejar e escolher coisas diferentes daqueles que amamos.
Parece simples.
Nem sempre é.
Para algumas pessoas, discordar produz culpa.
Dizer “não” provoca medo.
Escolher um caminho diferente daquele imaginado pela família pode ser vivido quase como uma traição.
E há adultos que passam boa parte da vida tentando conciliar duas necessidades legítimas: pertencer e, ao mesmo tempo, ser quem são.
É justamente aí que a autonomia emocional começa a ser construída.
Quantas independências precisamos declarar durante a vida?
Talvez o 7 de setembro também possa nos emprestar essa pergunta.
Porque não declaramos independência apenas uma vez.
Ao longo da vida, podemos precisar conquistar independência da necessidade permanente de aprovação.
Da expectativa dos pais.
Do medo de decepcionar.
Da obrigação de agradar.
De relações que já não fazem sentido.
De papéis que desempenhamos durante tantos anos que começamos a confundi-los com nossa própria identidade.
E, algumas vezes, precisamos nos tornar independentes até mesmo de versões antigas de nós mesmos.
A pessoa que fomos aos vinte anos não precisa decidir quem seremos aos cinquenta.
Os sonhos que um dia fizeram sentido podem mudar.
As prioridades podem mudar.
Os vínculos podem mudar.
Nós também podemos.
Reconhecer isso não significa negar nossa história.
Significa compreender que amadurecer também envolve permitir que nossa identidade continue se transformando.
Independência não é não precisar de ninguém
Existe, entretanto, uma confusão importante.
Autonomia emocional não significa autossuficiência.
Não significa deixar de precisar de afeto, companhia, acolhimento ou ajuda.
Seres humanos constroem-se através dos vínculos.
Precisamos uns dos outros.
O problema não está em precisar.
A questão é o que acontece quando o medo de perder o outro passa a determinar nossas escolhas.
Existe diferença entre considerar a opinião de alguém e precisar de sua autorização.
Entre desejar permanecer em uma relação e acreditar que não conseguiríamos existir sem ela.
Entre fazer concessões e abandonar permanentemente aquilo que é importante para nós.
Entre amar alguém e entregar a essa pessoa a direção da própria vida.
Independência emocional não elimina vínculos.
Ela modifica a maneira como permanecemos neles.
A difícil liberdade de decepcionar
Talvez uma das conquistas mais difíceis da vida adulta seja perceber que não conseguiremos corresponder às expectativas de todos.
Em algum momento, nossas escolhas poderão decepcionar alguém.
Um pai pode desejar determinado futuro para um filho.
Um parceiro pode esperar determinada decisão.
Amigos podem não compreender uma mudança.
A sociedade pode estabelecer prazos sobre quando casar, ter filhos, construir uma carreira, adquirir patrimônio ou alcançar determinada posição.
Se cada decisão precisar ser validada por todos ao redor, nossa liberdade será sempre limitada pelo medo da desaprovação.
Isso não significa ignorar sentimentos ou agir sem considerar consequências.
Significa compreender que frustrar uma expectativa não é necessariamente ferir alguém.
Às vezes, é apenas escolher uma vida diferente daquela que outra pessoa imaginou para nós.
Quando o vínculo exige que você desapareça
Relações saudáveis comportam diferenças.
Duas pessoas podem se amar e discordar.
Podem ter necessidades diferentes.
Podem estabelecer limites.
Podem preservar interesses, amizades, projetos e espaços individuais.
Quando a manutenção de um vínculo exige que uma pessoa silencie permanentemente seus desejos, abandone aspectos importantes de sua identidade ou viva orientada pelo medo de perder o outro, já não estamos falando simplesmente de proximidade.
Existe um preço psíquico sendo pago para que aquela relação continue existindo.
Por isso, autonomia também significa conseguir permanecer em uma relação sem desaparecer dentro dela.
Pertencer sem deixar de pertencer a si mesmo
Talvez esse seja um dos maiores desafios da maturidade emocional.
Não precisamos escolher entre independência e vínculo.
Podemos amar e continuar tendo limites.
Podemos ouvir opiniões e tomar nossas próprias decisões.
Podemos pedir ajuda sem entregar ao outro o controle da nossa vida.
Podemos mudar sem negar nossa história.
Podemos pertencer a uma família, a uma relação, a um grupo e ainda preservar aquilo que nos torna singulares.
A independência emocional não acontece em um único momento.
Ela é construída ao longo da vida, cada vez que conseguimos distinguir aquilo que realmente desejamos daquilo que fazemos apenas por medo, culpa ou necessidade de aprovação.
Em 7 de setembro, lembramos uma declaração histórica de independência.
Na vida psíquica, porém, algumas independências não acontecem com um grito.
Elas acontecem silenciosamente.
Quando conseguimos dizer não sem deixar de amar.
Quando fazemos uma escolha mesmo sabendo que nem todos irão compreendê-la.
Quando percebemos que podemos precisar de alguém sem entregar a essa pessoa a direção da nossa existência.
Quando deixamos de viver exclusivamente para corresponder às expectativas externas.
Algumas independências cabem em uma data histórica.
Outras levam uma vida inteira para serem conquistadas.
Fernanda Medeiros
Psicóloga Clínica e Jurídica | Perita Judicial e Assistente Técnica
CRP-SC 12/02536 | CRP-RJ 05/300859




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