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Barra Mansa,30/08/2026

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    Fernanda Medeiros

    Por que precisamos encontrar um culpado?

    A resposta não está apenas na busca legítima por responsabilidade.


    Por que precisamos encontrar um culpado?

    Por que precisamos encontrar um culpado?

    O que a Psicologia explica sobre nossa dificuldade em conviver com a incerteza

    Quando algo grave acontece, uma das primeiras perguntas costuma surgir quase automaticamente:

    De quem foi a culpa?

    Isso acontece diante de crimes, acidentes, separações, conflitos familiares, fracassos profissionais e acontecimentos que ganham repercussão pública. Antes mesmo de conhecermos todas as circunstâncias, buscamos responsáveis, explicações e motivos.

    Nas redes sociais, esse processo pode levar poucos minutos. Uma notícia é publicada, fragmentos de informação começam a circular e rapidamente surgem julgamentos, condenações e certezas.

    Mas por que temos tanta necessidade de encontrar um culpado?

    A resposta não está apenas na busca legítima por responsabilidade.

    Está também na nossa dificuldade em conviver com a incerteza.

    O imprevisível nos angustia

    O ser humano busca compreender e organizar aquilo que acontece ao seu redor. Precisamos estabelecer relações entre causa e consequência porque isso torna o mundo mais previsível.

    Quando sabemos por que alguma coisa aconteceu, temos a sensação de que poderemos evitar que aconteça novamente.

    O problema surge diante de acontecimentos complexos, para os quais não existe uma explicação simples ou imediata.

    Uma tragédia nos confronta com uma realidade desconfortável: nem sempre temos controle sobre tudo.

    Encontrar rapidamente alguém para responsabilizar pode diminuir essa angústia.

    Se alguém cometeu um erro, se alguém tomou uma decisão equivocada ou se alguém “permitiu” que determinada situação acontecesse, recuperamos simbolicamente uma sensação de ordem.

    Existe uma explicação.

    Existe um responsável.

    E, aparentemente, o mundo volta a fazer sentido.

    Mas aliviar nossa angústia não é o mesmo que compreender a realidade.

    Depois que acontece, tudo parece óbvio

    Existe um fenômeno psicológico conhecido como viés retrospectivo.

    Depois que conhecemos o resultado de uma situação, tendemos a acreditar que os sinais anteriores eram muito mais evidentes do que realmente eram.

    É o conhecido:

    “Estava na cara.”

    “Todo mundo sabia.”

    “Era óbvio que isso aconteceria.”

    Entretanto, aquilo que parece evidente depois do desfecho nem sempre era previsível antes dele.

    Quando observamos o passado conhecendo o final da história, reorganizamos mentalmente os acontecimentos e passamos a enxergar uma sequência lógica que talvez não fosse tão clara para quem estava vivendo aquela situação naquele momento.

    Esse mecanismo pode produzir julgamentos particularmente cruéis.

    Quando a vítima também precisa explicar o que sofreu

    Uma das consequências mais graves dessa necessidade de encontrar explicações aparece na culpabilização das próprias vítimas.

    “Por que ela não saiu antes?”

    “Por que continuou naquele relacionamento?”

    “Por que confiou naquela pessoa?”

    “Por que estava naquele lugar?”

    “Por que não denunciou?”

    Perguntas como essas parecem buscar compreensão, mas frequentemente deslocam a atenção de quem praticou a violência para quem a sofreu.

    Existe também uma função psicológica por trás disso.

    A ideia de que determinadas escolhas poderiam ter evitado uma tragédia pode produzir uma sensação ilusória de segurança.

    Se acreditarmos que aquela pessoa sofreu porque tomou uma decisão específica, podemos imaginar que, fazendo diferente, estaremos protegidos.

    É mais confortável pensar assim do que admitir que pessoas cuidadosas, inteligentes e prudentes também podem ser vítimas de violência, manipulação, acidentes ou acontecimentos imprevisíveis.

    Culpar a vítima, portanto, pode funcionar como uma maneira inconsciente de nos distanciarmos da possibilidade de que algo semelhante também pudesse acontecer conosco.

    Responsabilidade e culpabilização não são a mesma coisa

    Isso não significa que responsabilidades não devam ser investigadas.

    Muito pelo contrário.

    No campo jurídico, estabelecer responsabilidades é fundamental. Crimes precisam ser investigados, provas analisadas e condutas avaliadas.

    Mas existe uma diferença importante entre investigar responsabilidade e precisar emocionalmente encontrar um culpado.

    A investigação parte de elementos, evidências e análise.

    A culpabilização precipitada parte muitas vezes da necessidade de encontrar rapidamente uma resposta.

    E essa diferença é especialmente importante quando Psicologia e Direito se encontram.

    Uma hipótese não é uma conclusão.

    Um comportamento isolado não explica necessariamente uma personalidade.

    Uma reação emocional inesperada não comprova culpa.

    Uma narrativa convincente não substitui evidências.

    E uma convicção coletiva não transforma uma interpretação em fato.

    O tribunal das redes sociais

    As redes sociais intensificaram ainda mais esse fenômeno.

    Hoje, acontecimentos complexos são apresentados em vídeos de poucos segundos, manchetes, recortes de conversas e fragmentos de informações.

    E somos convidados imediatamente a tomar posição.

    Gostamos.

    Compartilhamos.

    Condenamos.

    Defendemos.

    Escolhemos lados.

    Em pouco tempo, pessoas que nunca tiveram acesso ao conjunto dos fatos passam a apresentar certezas sobre intenções, personalidades, diagnósticos e responsabilidades.

    O problema é que a velocidade da indignação raramente acompanha a velocidade necessária para compreender uma situação complexa.

    A Justiça precisa de tempo.

    A investigação precisa de método.

    A Psicologia precisa de contexto.

    As redes sociais, entretanto, frequentemente exigem uma sentença antes mesmo de conhecermos a história inteira.

    Suportar não saber também é maturidade

    Talvez uma das experiências psicológicas mais difíceis seja admitir:

    “Eu ainda não sei.”

    Não saber produz desconforto.

    Significa tolerar a ausência temporária de respostas, resistir à necessidade de preencher lacunas e aceitar que algumas situações exigem tempo para serem compreendidas.

    Isso vale para acontecimentos públicos, mas também para nossa vida cotidiana.

    Nem todo relacionamento termina porque existe um vilão.

    Nem todo conflito possui apenas um responsável.

    Nem toda tragédia poderia ter sido evitada.

    Nem toda pergunta terá uma resposta simples.

    E reconhecer a complexidade não significa relativizar responsabilidades.

    Significa apenas não substituir investigação por necessidade emocional.

    A Justiça precisa encontrar responsabilidades quando elas existem.

    A Psicologia, porém, nos lembra que nossa necessidade de encontrar um culpado pode surgir muito antes de existirem elementos suficientes para apontá-lo.

    Entre a necessidade de uma resposta e a verdade dos fatos existe um espaço desconfortável chamado incerteza.

    E talvez aprender a suportá-lo seja uma das formas mais importantes de impedir que a necessidade de julgar se transforme em injustiça.

    Fernanda Medeiros
    Psicóloga Clínica e Jurídica | Perita Judicial e Assistente Técnica

    CRP-SC 12/02536 | CRP-RJ 05/300859



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