Fernanda Medeiros
Quando o cuidado vira controle
Afeto pressupõe liberdade.
Quando o cuidado vira controle
A fronteira entre proteção, ciúme e violência psicológica
“Me avisa quando chegar.”
“Com quem você vai?”
“Prefiro que você não use essa roupa.”
“Não gosto daquela sua amiga.”
“Me mostra seu celular.”
Nem sempre uma relação abusiva começa com uma ameaça. Muitas vezes, começa com comportamentos que podem ser confundidos com cuidado, preocupação, proteção ou até mesmo com demonstrações intensas de amor.
É justamente aí que uma distinção se torna necessária: cuidar de alguém não é controlar alguém.
Nos relacionamentos afetivos, é natural que exista interesse pela vida do outro. Queremos saber se a pessoa chegou bem, podemos sentir ciúme, manifestar desconfortos e conversar sobre situações que nos afetam. Nenhum desses comportamentos, isoladamente, caracteriza violência psicológica.
O problema surge quando a preocupação deixa de respeitar a autonomia.
Aos poucos, perguntas podem se transformar em interrogatórios. Opiniões passam a funcionar como ordens. O ciúme começa a justificar vigilância. E aquilo que inicialmente parecia uma demonstração de afeto passa a determinar onde a pessoa pode ir, com quem pode conversar, como deve se vestir ou até o que pode publicar nas redes sociais.
O controle raramente se apresenta dizendo: “quero retirar sua liberdade”.
Ele pode aparecer disfarçado de frases como “faço isso porque te amo”, “estou apenas preocupado com você”, “se você me respeitasse, não faria isso” ou “quem ama não precisa esconder nada”.
É justamente essa mistura entre afeto e restrição que pode tornar determinadas dinâmicas difíceis de reconhecer.
Ciúme não é prova de amor
Durante muito tempo, nossa cultura romantizou o ciúme.
Filmes, músicas, novelas e até conversas cotidianas ajudaram a construir a ideia de que quanto maior o amor, maior seria o medo de perder — e, consequentemente, maior o direito de vigiar.
Mas sentir ciúme e transformar o ciúme em controle são coisas diferentes.
Uma emoção pertence a quem a sente. Ela pode ser comunicada, compreendida e elaborada dentro da relação. Entretanto, quando o outro passa a ser responsabilizado por eliminar qualquer situação que desperte insegurança, cria-se uma dinâmica na qual sua liberdade começa a ser progressivamente reduzida.
A senha do celular é exigida.
Determinadas amizades passam a ser questionadas.
As roupas se tornam motivo de conflito.
O horário de chegada precisa ser explicado.
Uma curtida nas redes sociais vira interrogatório.
A localização precisa permanecer ativada.
Separadamente, alguns desses episódios podem parecer pequenos. O que importa, entretanto, é observar o padrão da relação.
O controle costuma crescer aos poucos
Relações marcadas por violência psicológica nem sempre são facilmente identificadas por quem está dentro delas.
Isso acontece porque mudanças importantes podem ocorrer gradualmente.
Primeiro vem uma reclamação sobre determinada amizade. Depois, conflitos frequentes sempre que aquela pessoa é encontrada. Para evitar discussões, o contato diminui.
Em seguida, outra amizade incomoda.
Depois, uma roupa.
Depois, determinado ambiente.
Depois, o trabalho.
A pessoa pode começar a modificar o próprio comportamento não porque concorda com aquelas exigências, mas porque deseja evitar novos conflitos.
E essa é uma mudança psicológica importante.
A pergunta deixa de ser “o que eu quero fazer?” e passa a ser “o que acontecerá se eu fizer?”.
Quando alguém começa a organizar suas escolhas principalmente pelo medo da reação do parceiro, é preciso olhar com atenção para aquela dinâmica.
Nem todo conflito é violência
Também é necessário fazer uma distinção importante.
Relacionamentos têm conflitos.
Pessoas sentem ciúmes, discordam, discutem, cometem erros e eventualmente dizem coisas das quais se arrependem. Transformar qualquer desentendimento em diagnóstico de relacionamento abusivo seria tão inadequado quanto normalizar comportamentos efetivamente violentos.
Na Psicologia, comportamentos precisam ser compreendidos considerando frequência, intensidade, contexto, função e consequências.
Por isso, a análise não deve se limitar a uma frase ou episódio isolado.
É preciso observar se existe um padrão persistente de intimidação, humilhação, vigilância, isolamento, ameaça, desqualificação ou restrição da autonomia.
No Brasil, a própria legislação reconhece a violência psicológica contra a mulher como uma das formas de violência doméstica e familiar.
Mas, antes mesmo de qualquer classificação jurídica, existe uma questão humana fundamental: o que essa relação está fazendo com a liberdade e com a subjetividade de quem a vive?
Amor não exige desaparecimento
Talvez uma das consequências mais silenciosas do controle seja a redução progressiva da própria identidade.
A pessoa deixa de encontrar amigos.
Muda a forma de se vestir.
Evita determinados assuntos.
Passa a calcular palavras.
Abandona atividades que gostava.
Começa a duvidar das próprias percepções.
E, muitas vezes, tudo isso acontece sem que exista uma única agressão física.
Por isso, falar sobre violência contra a mulher também exige falar sobre aquilo que não deixa hematomas visíveis.
Neste Agosto Lilás, mês dedicado à conscientização e ao enfrentamento da violência contra a mulher, precisamos ampliar nossa capacidade de reconhecer as diferentes formas pelas quais relações podem se tornar violentas.
Cuidado pressupõe respeito.
Afeto pressupõe liberdade.
Relacionamentos exigem negociação, mas negociação só existe quando duas pessoas continuam tendo o direito de dizer sim e não.
Quando, para manter uma relação, alguém precisa diminuir progressivamente a própria liberdade, talvez já não estejamos falando apenas de cuidado ou ciúme.
Porque amar alguém pode significar desejar que essa pessoa fique.
Controlar é tentar retirar dela a possibilidade de escolher ir.
Fernanda Medeiros
Psicóloga Clínica e Jurídica | Perita Judicial e Assistente Técnica
CRP-SC 12/02536 | CRP-RJ 05/300859




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