MK - Marcelo Kieling
O Brasil não está em crise:
O Brasil É a crise — e ainda cobra ingresso
O Brasil não está em crise: o Brasil É a crise — e ainda cobra ingresso
Como o país trocou a maior recessão da história republicana por uma briga de condomínio interminável — e, claro, a culpa sempre é do porteiro
Por Marcelo Kieling
Tem coisa que só melhora quando piora. O Brasil, no entanto, resolveu contrariar até essa esperança barata: piorou, piorou de novo e ainda encontrou tempo e talento para piorar com estilo. Entre 2015 e 2016, o país despencou de um prédio de quarenta andares — o PIB caiu mais de 3% ao ano, dois anos seguidos, uma queda livre com direito a replay — e, no meio da descida, em vez de se agarrar a qualquer sacada, os ocupantes do poder travaram uma discussão acalorada sobre quem havia apertado o botão do elevador. A inflação devorava o salário em dois dígitos, o desemprego batia na porta de todo mundo e Brasília, num gesto de coragem e lucidez digno de elogio, escolheu o momento exato do incêndio para discutir a cor das cortinas.
Foi o auge do desespero, como dizem os economistas com o salário em dia — forma elegante de dizer que o país entrou em curto-circuito, com os três Poderes gritando ao mesmo tempo e ninguém ouvindo ninguém. Resultado: a presidente caiu; o sucessor, que prometeu consertar tudo, também afundou; e o brasileiro, no meio desse naufrágio duplo, foi obrigado a aprender na marra que, neste país, crise não é acidente de percurso: é o itinerário.
Passada uma década, os números melhoraram — e aqui mora a ironia: melhoraram, e ninguém percebeu. A economia estabilizou, a inflação saiu de moda, o desemprego recuou, e o brasileiro, em vez de comemorar, segue trancado no próprio quarto, de cara fechada, trocando ofensas com o vizinho pela janela. O país trocou o desespero — que ao menos tinha a virtude de ser claro — por uma irritação permanente e difusa, um tédio tóxico e ideológico, um mau humor de quem acorda brigado com o mundo sem saber exatamente com quem. Não é crise; é ressentimento industrializado. Não é recessão; é a exploração do ódio transformada em modelo de negócio, com as malditas redes digitais como sócia majoritária.
E é exatamente aí que mora a mentira preferida dos nossos dias: achar que o Brasil piorou porque a corrupção piorou. Mentira confortável. A corrupção brasileira é uma senhora de longa data, herança das Capitanias Hereditárias, sócia-fundadora da República, com escritório em todas as gestões e um currículo que atravessa séculos sem jamais prestar concurso. A novidade da última década não foi o malfeito — foi a exposição. A Lava Jato abriu o armário e revelou que o esqueleto não era um: era um cemitério inteiro, com bilhões desviados, organograma, hierarquia e até horário comercial. O que mudou não foi a doença, foi a consulta médica: a Justiça passou a usar a caneta como injeção, a política virou processo e a opinião pública descobriu que assistir à própria casa sendo roubada era um reality show fascinante.
Só que, junto com a faxina, entrou o lixo. A chamada poluição informacional — eufemismo elegante para despejar mentira industrializada, ódio em escala e meia-verdade com embalagem de verdade — corrói a democracia mais rápido do que qualquer propina. A Constituição de 1988, que previu tudo, até o futuro, não previu isso: um cidadão que não sabe mais distinguir um fato de um boato, um jornal de um panfleto, um juiz de um influencer. Nem as reformas dos anos 1990, nem os economistas do livro, nem o mais pessimista dos profetas imaginou que o Brasil trocaria o debate público por uma rinha digital onde o vencedor é sempre o que grita mais alto — e o mais alto, convenhamos, raramente é o mais certo.
E, no meio desse ringue, o Supremo Tribunal Federal virou o segurança da festa: apagou briga que não começou, segurou o rojão que ninguém queria segurar e saiu chamuscado dos dois lados. Quando age, é ativismo; quando se cala, é conivência; quando respira, é suspeito. A imprensa séria está no mesmo barco furado: num país em que cada bolha digital enxerga equilíbrio como traição, o jornalista que ousa ouvir os dois lados é execrado pelos dois. A imparcialidade virou artigo de luxo numa economia em que a fidelidade ao time é a única moeda que vale — e a verdade, essa virou questão de gosto, com o gosto a serviço dos interesses das tribos que financiam cada veículo.
Diante disso, a tese de que o Brasil regrediu à estaca zero é tão preguiçosa quanto reconfortante. O país tem uma capacidade de absorção de porrada que impressiona até a porrada: leva golpe, sangra, xinga e segue em frente, porque — digamos a verdade — parar não é opção que esteja no cardápio. O que realmente dói é outra coisa: a agenda de reformas estruturais — fiscal, tributária, educacional, de segurança jurídica — anda a passo de tartaruga com reumatismo, refém de interesses corporativos, de calendário eleitoral e da mais absoluta covardia. Não falta diagnóstico: os acadêmicos, os economistas, os livros — todos apontaram o caminho há anos, com mapas, placas e setas. O que falta é a classe política ter vergonha na cara para pensar nos netos em vez de pensar na reeleição e nas emendas que garantem as vantagens do presente. Falta, no fundo, deixar de confundir mandato com malandragem.
E aí está o paradoxo mais sórdido da vida pública brasileira, aquele que ninguém quer admitir em voz alta: a polarização que paralisa o país é exatamente o que alimenta as eleições. Briga dá voto. Conflito permanente compensa eleitoralmente. O candidato que propõe acordo é tratado como traidor; o que atiça a fogueira é coroado. Enquanto existir incentivo eleitoral para a guerra, o pacto acima dos partidos será artigo de contrabando — e quem ousar propor, tratado como contrabandista.
Se me permitem a intromissão de quem ganha a vida com palavras: a saída não vai nascer de Brasília, mas da reconquista da qualidade da informação. Enquanto o brasileiro médio tratar notícia como produto de entretenimento e opinião como artigo de fé, nenhuma reforma estrutural vai se sustentar — porque reforma exige consenso, e consenso exige que as pessoas conversem sobre os mesmos fatos. A boa notícia é que isso não depende de herói nenhum: depende de cada um de nós voltar a exigir — e a praticar — o básico, que é ouvir antes de responder, ler antes de compartilhar e desconfiar de quem promete salvação em 280 caracteres. No fundo, o Brasil não precisa de um pacto entre os Poderes; precisa de um pacto entre os cidadãos e a verdade. O resto é consequência.
Os pactos brasileiros, no entanto, têm biografia conhecida: não nascem do amor, nascem do cansaço — e, aqui, do cansaço da covardia. A história da redemocratização é a prova. Neste país, o diálogo só floresce quando a alternativa é afundar de vez — quando a crise aperta o bolso, quando a instituição grita, quando o caos ameaça derrubar, junto com o governo, a mesa de todos. Foi assim com a reforma tributária, essa demanda de museu que sobreviveu a sucessivos governos como peça de antiquário e, de repente, saiu do papel: não por conversão religiosa — conversão, em Brasília, é palavra que só existe no dicionário —, mas porque o custo da inércia ficou maior que o medo da mudança. O bolso falou mais alto que a ideologia — o que, convenhamos, é o único idioma que a capital domina fluentemente.
Do mesmo modo, as crises recentes entre os Três Poderes produziram aprendizado caro, mas real: escalar a hostilidade sem freio é dinamitar o próprio andar. As cúpulas entenderam, no tapa e na marra, que é preciso manter canais mínimos de conversa — não por afeto, que seria pedir demais, mas por sobrevivência, o sentimento mais confiável que existe. E, na ausência de estadistas com visão de longo prazo, quem sobra para empurrar a mesa de negociação é a sociedade organizada: indústria, agro, academia, entidades civis — a turma que sofre na pele com a insegurança jurídica e que, no fim das contas, é a única que ainda acredita que o Brasil tem um futuro que valha a pena planejar.
Então, para fechar sem ilusão e sem exaltação exagerada: o Brasil não vai caminhar para um pacto de união nacional daqueles de cartão-postal, com abraço, bandeira e lágrima no olho. Isso aqui nunca foi terra de santos — e quem espera por isso pode esperar sentado. O que se desenha, com muito atrito e pouquíssima elegância, é um consórcio de sobrevivência pragmática: um acordo de cavalheiros (e de muitos não-cavalheiros) em que cada grupo aceita regras mínimas do jogo não por bondade, mas porque percebeu, na contabilidade fria, que destruir o adversário por completo significa dinamitar o chão onde pisa. A reconstrução do país não virá de um pacto de heroísmo — o heroísmo, aqui, foi aposentado por falta de uso. Virá da constatação fria, dura e um pouco triste de que o caos permanente é um péssimo negócio: para a economia, para o poder e, principalmente, para quem acorda cedo, pega dois ônibus, atravessa a cidade e só quer uma coisa — que o Brasil pare de atirar no próprio pé para ter algum assunto sério no jantar.
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