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Barra Mansa,03/09/2026

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    MK - Marcelo Kieling

    A nova Lava-Jato já tem dono:

    O banqueiro joga a teia e o povo paga a conta


    A nova Lava-Jato já tem dono:

    A nova Lava-Jato já tem dono: o banqueiro joga a teia e o povo paga a conta

    O circo reabre com vidro fumê e camarote VIP; o banqueiro repassa a grana para a teia e o brasileiro, obediente, assina o cheque da conta.

    Por Marcelo Kieling

    O banqueiro tece a teia, o político jura de pés juntos, o jornalista aplaude na estreia — e o povo, como sempre, entra no final da fila para pagar o ingresso.

    Tem cheiro de tempestade no ar. E não é chuva, não. É escândalo. Quando a notícia começa a cruzar os ministérios com os prédios de vidro da Faria Lima, quando o nome de um banqueiro aparece na boca de um ministro e a palavra "delação" vira remédio no plantão das redações, o brasileiro já sabe: o chão vai tremer. "Lava-Jato 2!", gritam os profetas de estúdio. Calma. Todo mundo já viu esse filme — e sabe que o herói nem sempre chega a tempo.

    A verdade que ninguém quer encarar é que isso não é novidade. Não é um surto passageiro da política, um viral do fim de ano. O sociólogo Raymundo Faoro avisou há décadas, em Os Donos do Poder: neste país, o Estado nunca foi um árbitro. Foi sempre um quintal onde uma casta privilegiada se serve à vontade, misturando o que é público com o que é dela. Cargo vira imóvel. Gabinete vira resort. Título vira instituto. Interesse coletivo vira nota de rodapé. Quando um banqueiro costura alianças entre a política e os jornais, ele não está inovando — sempre está repetindo a cartilha, só que com um terno melhor, mais caro e com uma planilha mais bonita.

    E não adianta fingir espanto. Roberto DaMatta, o antropólogo que dissecou o "você sabe com quem está falando?", mostrou que a regra de ouro deste país nunca foi a lei — foi o jeitinho. É o favorecimento institucionalizado, o puxa-saco que atravessa a Constituição como quem atravessa a rua fora da faixa. E sabe quem decorou essa lição? A Faria Lima. O que o mercado chama de "relacionamento institucional" é o mesmo compadrio de sempre, só que com fundo de investimento, operação de fachada e conta no paraíso fiscal. Pierre Bourdieu, se estivesse vivo, diria que é um campo de poder: dinheiro vira influência, influência vira manchete, manchete vira mais dinheiro. Um ciclo fechado, que se alimenta e se protege.

    Por isso chamar tudo isso de "desvio de conduta" é piada de mau gosto. Corrupção no Brasil não é erro de percurso: é infraestrutura. É a estrada por onde o poder anda. Ela lubrifica interesse, compra silêncio, escreve narrativa. Tanto que, quando a investigação resolve mexer nesse asfalto, o país inteiro sente o chão rachar.

    A esperança de que as delações explodam tudo, estilhacem Brasília e os arranha-céus da capital financeira esbarra numa parede nova. Quem viveu a Lava-Jato original lembra: o Ministério Público e a toga viraram estrelas de cinema, atropelaram garantia, fizeram da lei um detalhe e da plateia um palco. Max Weber — o velho pensador que entendia que política é o atrito lento de tábuas duras — já avisava: quem confunde convicção com responsabilidade vira herói de um dia e cidadão de outro. O salvador de toga raramente salva o país. Ele salva, no máximo, a própria carreira — e deixa o resto em ruínas. Foi exatamente o que se viu: instabilidade, polarização, uma nação rachada ao meio e as contas chegando depois.

    Mas o aprendizado não foi só do povo. Os poderosos também estudaram. O Congresso virou fortaleza: acumulou o dinheiro do Orçamento, segurou o veto, blindou-se. O Executivo aprendeu a navegar entre os tubarões sem molhar o paletó. Hoje, ninguém em Brasília dorme de porta aberta — não por honestidade, por prudência. A delação que ontem era um martelo hoje encontra um prédio construído para resistir à martelada. E o herói justiceiro agora olha por cima do ombro antes de agir, porque sabe que cada movimento será devolvido em forma de processo contra si mesmo.

    E a Faria Lima? Ah, a Faria Lima... Essa já não consegue mais fingir que é só coadjuvante ou detalhe técnico. Quando o dinheiro sujo transita por fundo, por empresa de fachada, por estrutura corporativa elegante, o risco deixa de ser marola e vira tsunami. O mercado adora repetir o mantra da "segurança jurídica", mas é o primeiro a lucrar com a bagunça que ajuda a fabricar. Zygmunt Bauman falava em modernidade líquida; no Brasil, a coisa é mais grave: a corrupção é líquida. Escorre, muda de forma, troca de endereço, some entre os dedos do investigador. Fluida como dinheiro, paciente como o sistema corrupto.

    Esse novo terremoto não terá a cara de antigamente — sem pirotecnia de coletiva, sem vazamento seletivo, sem herói de capa. Ele deve se materializar a partir desses esquemas de conluio e vai exigir um equilíbrio ainda mais fino entre investigar com rigor e preservar o Estado de Direito. O maior perigo não é a crise em si, mas a tentação de respondê-la com atalhos: a pressa por resultados espetaculares, por nomes e por manchetes, que no fim enfraquece exatamente as instituições que deveria proteger. Democracia madura raramente é espetacular; ela é paciente, processual e, muitas vezes, sem qualquer brilho.

    O esgoto existe e é bem fundo. A pergunta não é se vamos dragá-lo. A pergunta é: vamos dragar com método e lei, ou vamos de novo espirrar lama em todo mundo, achar que limpamos e deixar o resto apodrecer?

    O Brasil já viu a tragédia virar comédia. Agora, cuidado: a farsa é sempre muito mais cara. E somos nós que vamos pagar essa conta.

    O Brasil não precisa de novos heróis de toga nem de salvadores da pátria com canetas poderosas. Precisa de instituições republicanas que funcionem em silêncio, sem recuar, e sempre dentro da lei. O lamaçal existe e é muito fundo. Mas a forma como a sociedade e o Estado decidirem limpá-lo vai mostrar se o país caminha para uma democracia mais madura ou se apenas repete, como farsa, o ciclo da nossa própria desilusão.

    Não precisamos de bomba atômica, de drones, nem de mais bolsas sociais. Precisamos ter vergonha na cara.

    Ferramentas de IA foram utilizadas na elaboração deste conteúdo. Todo o conteúdo foi revisado por humanos.

     



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