Carmem Teresa Elias
A política do “nós contra eles”
A política sempre produziu conflitos, diferenças e disputas de interesses.
A política do “nós contra eles”
A política sempre produziu conflitos, diferenças e disputas de interesses. O problema surge quando a diferença deixa de ser compreendida como parte constitutiva da democracia e passa a ser interpretada como ameaça existencial.
O adversário político deixa de ser alguém que pensa diferente e transforma-se em alguém que supostamente não deveria existir.
Essa transformação é fundamental.
A democracia depende da possibilidade de convivência entre diferenças. O autoritarismo, por sua vez, tende a desejar a eliminação da diferença.
Por isso, discursos políticos baseados no ódio encontram terreno fértil quando prometem ao indivíduo algo que a realidade social raramente oferece: certeza absoluta.
Em vez de uma sociedade complexa, oferecem dois campos.
Nós.
Eles.
Nós somos os cidadãos legítimos.
Eles são os inimigos.
Nós defendemos a verdade.
Eles representam a mentira.
Nós somos vítimas.
Eles são culpados.
Essa simplificação pode ser profundamente sedutora porque reduz a angústia provocada pela complexidade.
O ódio como anestesia da frustração
Uma sociedade marcada por desigualdades, insegurança econômica, precarização do trabalho, perda de perspectivas e desconfiança nas instituições produz grandes quantidades de frustração.
Mas a frustração é psicologicamente difícil de suportar.
Ela exige elaboração.
Exige compreender causas históricas, econômicas, sociais e políticas. Exige reconhecer que determinados problemas não possuem soluções rápidas. Exige suportar a incerteza.
O ódio oferece um caminho mais curto.
Ele transforma a frustração em acusação.
A angústia transforma-se em raiva.
A raiva encontra um alvo.
E o alvo oferece uma sensação imediata de explicação.
É por isso que determinadas formas de discurso político não precisam necessariamente apresentar soluções para serem eficazes. Basta oferecer um objeto para o ressentimento.
Quando a política consegue dar um rosto à frustração, ela pode transformar sofrimento em mobilização.
O gozo da superioridade moral
Existe ainda outra dimensão.
O ódio pode produzir a sensação de superioridade moral.
O sujeito não apenas considera o outro errado. Ele passa a considerar-se moralmente superior por combatê-lo.
Esse mecanismo é particularmente poderoso nas disputas políticas contemporâneas.
A pessoa pode experimentar uma espécie de satisfação ao denunciar, humilhar ou desqualificar o adversário. A agressão passa a ser reinterpretada como virtude.
Não se trata mais de “eu estou atacando alguém”.
Trata-se de: “Eu estou combatendo o mal.”
Essa transformação é decisiva porque retira da agressividade sua aparência de agressividade. A violência verbal pode ser percebida como coragem. A humilhação pode ser chamada de justiça. A intolerância pode ser apresentada como defesa de valores.
O prazer não está apenas em destruir o outro.
Está também em sentir-se autorizado a destruí-lo.
Carmem Teresa Elias




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