MK - Marcelo Kieling
Um sonho?
A Pátria anêmica: o Brasil que esqueceu o próprio nome
Um sonho?
A Pátria anêmica: o Brasil que esqueceu o próprio nome
Por Marcelo Kieling
Acordei com um pensamento que não me larga: a política está vazia, a educação pede socorro e as crianças brasileiras não fazem ideia do que é país, pátria e nação. Não é exagero. É diagnóstico. E diagnóstico, quando é verdadeiro, dói.
Talvez eu pense assim porque carrego a memória no sangue. Sou filho de um pracinha — herói da Segunda Guerra — e oficial da reserva do Exército. Aprendi cedo que a leitura da pátria passa pela disciplina, pelo sacrifício e pela herança de uma geração que viu o Brasil sob a ótica da defesa e da unidade. Não é nostalgia. É herança. E herança, quando é ignorada, vira dívida.
O que vejo hoje? Um ponto nevrálgico do debate contemporâneo: o papel da escola na formação do senso de pertença e do dever cívico. Analistas e educadores concordam — por motivos distintos — que as novas gerações perderam a conexão com conceitos como pátria e nação. A globalização, a hipermobilidade da informação e o individualismo contemporâneo fizeram o serviço: enfraqueceram os laços comunitários tradicionais. E a Educação Moral e Cívica, que durante o século XX ocupava esse espaço, virou memória. Ficou um vácuo no currículo — e no coração.
Mas atenção: vácuo não é neutralidade. Vazio também educa. Quando a escola se cala sobre o que nos une, o silêncio ensina que não há nada que nos una. E o coração, que não pode ficar vazio, acaba preenchido por qualquer coisa — pelo consumo, pelo algoritmo, pela tribo da vez. A ausência de civismo não produz cidadãos livres; produz órfãos de pertencimento, prontos para adotar qualquer bandeira que lhes prometa alguma identidade.
O resgate desses valores, porém, esbarra em disputas profundas. Para uma vertente, o civismo é reverência aos símbolos, à ordem, à hierarquia, ao passado militar. Para outra, é justiça social, redução das desigualdades, diversidade cultural, pensamento crítico. O desafio pedagógico não é apenas ensinar a amar a terra onde se nasce — é definir que tipo de amor e de compromisso uma democracia plural e desigual exige de nós.
E aqui mora a armadilha que precisamos encarar sem hipocrisia: o patriotismo virou moeda de troca. Há quem o use como escudo para não discutir desigualdade; há quem o trate como vergonha, como se amar o próprio país fosse atraso. Os dois lados erram — e os dois lados cobram caro. Porque a pátria não é propriedade de um campo político. A pátria é o chão comum onde os adversários se encontram para disputar o futuro sem destruir a casa.
O Hino do Exército ainda me arrepia: "Como é sublime / Saber amar / Com a alma adorar / A terra onde se nasce! / Amor febril / Pelo Brasil / No coração / Nosso que passe." Sublime. Amor febril. Palavras que transcendem a burocracia do Estado e se instalam no plano afetivo, quase espiritual. Para quem vê a educação como formação de caráter, esse lirismo é o verdadeiro antídoto contra a atual apatia e o cinismo que dominam o debate público.
Mas é preciso cuidado, pois quando o patriotismo vira símbolo abstrato ou ufanismo de ocasião, abre-se uma porteira para a partidarização — à direita e à esquerda. Quando, porém, o "amor pela terra onde se nasce" se traduz em responsabilidade cívica concreta, o terreno fica neutro e universal. E é aí que a escola entra em cena, com caminhos muito práticos.
Primeiro: civismo de verdade, não de discurso. Projetos em que os estudantes cuidam do espaço público da escola, investigam e propõem soluções para os problemas do bairro — gestão da água, limpeza de praças, apoio a creches locais. A nação deixa de ser bandeira distante e vira o lugar onde a ação do cidadão faz diferença. Não se ama o que não se conhece; ama-se o que se cuida.
Segundo: estudo rigoroso e plural das instituições. O amor maduro à pátria exige saber como o país funciona: os Três Poderes, as leis, os mecanismos de controle social, os direitos e deveres constitucionais. Uma escola que forma cidadãos ensina a engrenagem do Estado para que se saiba cobrá-lo, fiscalizá-lo e respeitá-lo — sem culto à personalidade, sem salvadores da pátria. Cidadania madura não é obediência cega; é vigilância amorosa.
Terceiro: o resgate da história em sua totalidade. O civismo construtivo não esconde as fraturas do passado; enfrenta-as com seriedade. O heroísmo dos pracinhas na Segunda Guerra é um marco extraordinário de coragem e sacrifício coletivo em defesa da liberdade — uma narrativa que une os brasileiros. Conectar os jovens a esses exemplos de brio e dever, sem maniqueísmos, ancora o pertencimento em fatos reais e dignos de orgulho. Mas a mesma seriedade exige que se conte também o que doeu: a escravidão, a exclusão, as violências. Uma pátria que só se mostra apenas bonita não ensina amor; ensina propaganda.
Quarto: o civismo como ética do cotidiano. Disciplina, respeito ao próximo, honestidade, responsabilidade com o bem comum — valores transversais, que independem de partido ou de ideologia. Quando a sala de aula cultiva o respeito às regras de convivência e o apreço pela verdade, já pratica a essência da moral e cívica. E prepara o terreno para que o afeto pela nação se manifeste não em palavras exaltadas, mas na construção diária de um país melhor.
Acordei com esse pensamento. Vou dormir com a certeza de que ele precisa ser dito — e, principalmente, ensinado. Antes que o amor febril vire febre sem amor. Antes que a pátria anêmica esqueça de vez o próprio nome — e nós, com ela, esqueçamos quem fomos, quem somos e o que ainda podemos ser.
Ferramentas de IA foram utilizadas na elaboração deste conteúdo. Todo o conteúdo foi revisado por humanos.




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