Moisés Laureano de Santana
PROMETER NÃO BASTA. PROVE.
O novo eleitor brasileiro e a política dos resultados
PROMETER NÃO BASTA. PROVE.
O novo eleitor brasileiro e a política dos resultados
Por Moisés Laureano de Santana
Há uma pergunta que deveria atravessar todas as campanhas eleitorais de 2026: o que, concretamente, vai mudar na vida das pessoas?
Durante muito tempo, a política brasileira foi alimentada por promessas grandiosas, discursos emocionais e soluções apresentadas como simples para problemas que, na realidade, são complexos. Agora, porém, cresce a necessidade de uma política diferente: menos baseada no “acredite em mim” e mais comprometida com o “confira o resultado”.
O eleitor não precisa abandonar a esperança. Precisa, isso sim, aprender a exigir evidências.
1. O Brasil que chega às urnas
As Eleições de 2026 colocam diante das urnas um eleitorado de 158.745.463 pessoas, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Em 4 de outubro, estarão em disputa os cargos de presidente da República, governador, senador, deputado federal e deputado estadual ou distrital.
É um eleitorado numeroso, diverso e submetido diariamente a uma avalanche de informações.
Nesse ambiente, a política deixou de acontecer apenas nos palanques, nos debates e no horário eleitoral. Ela está no celular, nas redes sociais, nos vídeos curtos, nos grupos de mensagens e, cada vez mais, em conteúdos produzidos ou modificados por inteligência artificial.
A propaganda eleitoral de 2026 começou oficialmente em 16 de agosto. O TSE também estabeleceu regras para o uso de inteligência artificial e para combater conteúdos manipulados, inclusive deepfakes capazes de favorecer ou prejudicar candidaturas.
Isso cria um desafio novo: quanto mais sofisticada a propaganda, mais sofisticado precisa ser o olhar do eleitor.
2. Promessa não é resultado
Prometer é fácil.
Difícil é transformar uma promessa em política pública.
Dizer “vamos melhorar a saúde” é uma intenção. Apresentar quantas unidades serão construídas, quanto será investido, qual será o prazo, quantas pessoas serão atendidas e quais indicadores permitirão verificar a melhoria é outra coisa.
Dizer “vamos gerar empregos” é uma promessa. Explicar quais setores receberão investimentos, qual será o custo, quantos postos de trabalho poderão ser criados e como os resultados serão medidos é planejamento.
Dizer “vamos combater a violência” é discurso. Apresentar diagnóstico, estratégia, integração institucional, metas e indicadores é política pública.
A diferença entre promessa e compromisso está na possibilidade de cobrança.
Uma promessa sem prazo pode ser adiada indefinidamente. Uma promessa sem indicador pode ser declarada “cumprida” sem que ninguém consiga provar. Uma promessa sem fonte de financiamento pode simplesmente não sair do papel.
Por isso, o eleitor de 2026 precisa perguntar: qual é a meta, quanto custa, quando será entregue e como vou saber se funcionou?
3. O dinheiro público exige resultados
Todo governo administra recursos que pertencem à sociedade.
Por isso, a discussão não deveria se limitar a “quanto o governo vai gastar”, mas também a “qual benefício público será produzido com esse gasto?”
Uma política pública pode consumir bilhões e ser necessária. Outra pode consumir milhões e produzir pouco. O tamanho do orçamento, isoladamente, não determina a qualidade da gestão.
O que importa é a relação entre recursos, execução, eficiência, alcance e impacto.
O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) destaca a importância da avaliação de políticas públicas para qualificar decisões governamentais. Seu guia de avaliação ex ante apresenta instrumentos para analisar problemas, alternativas, implementação e impactos antes da execução de uma política.
Em outras palavras, governos responsáveis não deveriam perguntar apenas “podemos fazer?”, mas também:
“Isso funciona?”
“Para quem funciona?”
“Quanto custa?”
“Como saberemos?”
“O que faremos se não funcionar?”
Essa mentalidade muda completamente a administração pública.
4. Resultado precisa ser comprovável
O termo “resultado” pode parecer simples, mas exige cuidado.
Inaugurar uma escola é uma entrega. Garantir que crianças aprendam é um resultado.
Construir um hospital é uma entrega. Reduzir o tempo de espera e melhorar o atendimento é resultado.
Contratar policiais é uma medida. Reduzir determinados índices de criminalidade, melhorar a investigação e aumentar a sensação de segurança são resultados que precisam ser medidos por indicadores adequados.
Essa distinção é fundamental porque governos podem produzir muitas entregas sem necessariamente produzir transformação social.
Por isso, monitoramento e avaliação são tão importantes. O Ipea vem destacando a relevância desses mecanismos para transparência, eficácia governamental, planejamento e fortalecimento democrático.
Não basta inaugurar. É preciso funcionar.
Não basta gastar. É preciso produzir valor público.
Não basta anunciar. É preciso entregar.
5. O eleitor também precisa mudar
A responsabilidade, entretanto, não é apenas dos candidatos. O eleitor também precisa abandonar alguns hábitos.
Não deveria escolher alguém apenas porque fala bem, porque viraliza, porque aparece mais ou porque promete aquilo que gostaria de ouvir.
Da mesma forma, não deveria rejeitar uma proposta simplesmente porque foi apresentada por alguém de quem não gosta.
Uma democracia madura exige uma pergunta incômoda: “Eu estou escolhendo pela emoção ou pela evidência?”
Isso não significa transformar cada cidadão em especialista em orçamento público, economia, saúde ou segurança. Significa desenvolver uma atitude simples: perguntar antes de acreditar e conferir antes de compartilhar.
6. Cinco perguntas para qualquer candidato
Antes de aceitar uma promessa eleitoral, o eleitor pode fazer cinco perguntas:
1. Qual problema concreto essa proposta pretende resolver?
2. Existe evidência de que a solução funciona?
3. Quanto custará e de onde virão os recursos?
4. Qual é o prazo para execução?
5. Como a sociedade poderá fiscalizar e comprovar o resultado?
Se uma proposta não consegue responder minimamente a essas perguntas, talvez ainda não seja uma política pública. Pode ser apenas uma boa frase de campanha.
E frases de campanha não administram hospitais, não reduzem filas, não melhoram escolas, não criam infraestrutura e não aumentam a produtividade.
Governos precisam transformar ideias em capacidade de execução.
7. A inteligência artificial muda o jogo
Em 2026, essa tarefa ficou ainda mais difícil.
A inteligência artificial permite produzir imagens, vídeos e vozes cada vez mais realistas. Um conteúdo pode parecer verdadeiro e, ainda assim, ser completamente fabricado.
Por isso, o TSE adotou regras específicas para o uso de IA na propaganda eleitoral e vem ampliando iniciativas de cooperação para enfrentar a desinformação. Em agosto de 2026, TSE e Advocacia-Geral da União firmaram acordo de boas práticas sobre inteligência artificial nas eleições.
O eleitor, portanto, terá de desenvolver uma nova forma de alfabetização política e digital.
Vídeo emocionante não é prova.
Número sem fonte não é evidência.
Gráfico sem metodologia não é comprovação.
Milhões de visualizações não transformam uma afirmação falsa em verdade.
Na era da inteligência artificial, conferir tornou-se parte do exercício da cidadania.
8. O verdadeiro resultado aparece depois da eleição
Existe, ainda, uma mudança de mentalidade que pode ser decisiva: entender que o voto não encerra a participação política.
Ele começa uma nova etapa.
Depois da eleição, o cidadão precisa acompanhar orçamento, obras, contratos, programas, metas e indicadores. Precisa observar se aquilo que foi prometido está sendo executado.
Se funcionar, deve reconhecer.
Se não funcionar, deve questionar.
Se houver desvio, desperdício ou irregularidade, deve denunciar pelos canais apropriados.
Democracia não pode ser reduzida ao ato de votar a cada quatro anos.
Votar é escolher. Fiscalizar é participar. Cobrar é exercer cidadania.
9. O candidato também precisa mudar
A exigência por resultados não deveria ser vista como ameaça pelos bons gestores. Ao contrário.
Quem possui planejamento, equipe qualificada, conhecimento técnico e capacidade de execução deveria ter interesse em apresentar metas claras.
O candidato preparado pode dizer: “Esta é a situação encontrada. Esta é a meta. Este é o custo. Este é o prazo. Estes são os indicadores. E estes serão os mecanismos de transparência.”
Isso é muito mais poderoso do que um discurso perfeito. Porque o eleitor não precisa de candidatos que prometam resolver tudo. Precisa de pessoas capazes de definir prioridades, tomar decisões difíceis, administrar recursos escassos, corrigir erros e entregar aquilo que for possível entregar.
10. Uma nova cultura política
Talvez a maior transformação das Eleições de 2026 não esteja em descobrir quem fará o discurso mais bonito. Talvez esteja em construir uma cultura política na qual promessas sejam tratadas como hipóteses que precisam ser demonstradas.
O Brasil não precisa de menos esperança. Precisa de esperança acompanhada de método.
Não precisa de menos sonhos. Precisa de sonhos transformados em planejamento.
Não precisa de menos política. Precisa de uma política mais responsável diante da realidade.
O novo eleitor não precisa acreditar menos. Precisa acreditar melhor.
E acreditar melhor significa comparar propostas, verificar fontes, conhecer históricos, analisar resultados, questionar custos, acompanhar metas e cobrar explicações.
Conclusão: a escolha é nossa
Em 2026, o eleitor terá diante de si milhares de mensagens disputando sua atenção.
Algumas serão verdadeiras. Outras serão exageradas. Algumas apresentarão propostas viáveis. Outras serão apenas slogans. Haverá dados, opiniões, emoções, ataques, promessas, vídeos e conteúdos produzidos por inteligência artificial.
No meio desse ruído, uma pergunta pode funcionar como bússola: “Onde está a evidência?”
Essa pergunta é simples, mas pode mudar a qualidade da democracia. Porque quando o eleitor pergunta, o candidato precisa explicar.
Quando o cidadão compara, a propaganda perde espaço para a realidade.
Quando a sociedade acompanha, o governo sabe que será cobrado.
E quando resultados passam a valer mais do que promessas, a política começa a recuperar uma de suas funções mais nobres: transformar decisões públicas em melhoria concreta da vida das pessoas.
As Eleições de 2026 não deveriam ser apenas uma disputa para saber quem vencerá. Deveriam ser uma oportunidade para decidir que tipo de política queremos premiar.
A política do espetáculo?
A política da promessa impossível?
A política da emoção permanente?
Ou uma política capaz de dizer, com transparência:
“Esta é a promessa. Este é o plano. Este é o recurso. Este é o prazo. Esta é a meta. E aqui está o resultado para você conferir.”
Talvez essa seja a pergunta mais importante que cada eleitor possa levar consigo até a urna.
Não escolha apenas quem promete o futuro que você deseja. Escolha quem consegue demonstrar capacidade, coerência e responsabilidade para construí-lo.
Porque o futuro do Brasil não será medido pelo tamanho das promessas feitas durante a campanha. Será medido pela qualidade dos resultados entregues depois dela.
Moisés Laureano de Santana é advogado, pós-graduado em Direito Público, Tributário e Eleitoral, com ampla e sólida experiência na Administração Pública do Estado do Rio de Janeiro, atuando em diversos cargos de direção e chefia em instituições governamentais
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988.
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TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL (TSE). Por Dentro das Eleições: conheça as regras sobre uso de IA na campanha eleitoral de 2026. Brasília, DF, 10 abr. 2026. Disponível em: TSE. Acesso em: 17 ago. 2026.
TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL (TSE). TSE e AGU firmam acordo de boas práticas sobre IA nas Eleições 2026. Brasília, DF, 3 ago. 2026. Disponível em: TSE. Acesso em: 17 ago. 2026.




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