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Barra Mansa,13/07/2026

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    Fernanda Medeiros

    Quando a criança deixa de ser filha e passa a ser instrumento

    A diferença entre alienação parental e violência vicária


    Quando a criança deixa de ser filha e passa a ser instrumento

    Quando a criança deixa de ser filha e passa a ser instrumento

    A diferença entre alienação parental e violência vicária

    Nos últimos anos, dois conceitos passaram a aparecer com frequência nas discussões sobre conflitos familiares: alienação parental e violência vicária.

    Embora muitas vezes sejam tratados como sinônimos, eles representam fenômenos distintos. Confundi-los pode gerar interpretações equivocadas tanto do ponto de vista psicológico quanto jurídico.

    Em ambos os casos, existe um elemento comum: a criança deixa de ocupar o lugar de sujeito de direitos e passa a ser utilizada na dinâmica do conflito entre adultos.

    Mas é justamente aí que começam as diferenças.

    A alienação parental ocorre quando um dos responsáveis interfere na formação psicológica da criança para prejudicar o vínculo dela com o outro genitor ou responsável. Isso pode acontecer por meio de desqualificações constantes, falsas acusações, manipulação emocional, impedimento de convivência ou qualquer comportamento que induza a criança a rejeitar injustificadamente o outro.

    O foco principal da alienação parental é a relação entre a criança e o outro cuidador.

    A criança passa a ser utilizada como instrumento para enfraquecer um vínculo afetivo.

    Já a violência vicária possui outra lógica.

    Ela acontece quando a violência dirigida ao parceiro ou à ex-parceira é praticada por meio dos filhos. Nesse caso, a criança deixa de ser apenas um instrumento de manipulação do vínculo e passa a ser utilizada para atingir emocionalmente o outro adulto.

    O sofrimento da criança torna-se um meio de produzir dor em alguém.

    A violência pode ocorrer por diferentes formas: ameaças, afastamento deliberado, negligência, agressões físicas, violência psicológica e, em situações extremas, até mesmo o homicídio dos próprios filhos como forma de atingir o outro genitor.

    Por isso, a violência vicária é reconhecida como uma das expressões mais graves da violência doméstica e familiar.

    Sob a perspectiva psicológica, ambas representam formas de instrumentalização da infância.

    A criança deixa de ser percebida como alguém com necessidades emocionais próprias e passa a ocupar um lugar funcional dentro do conflito dos adultos.

    Ela deixa de ser filha.

    Passa a ser argumento.

    Passa a ser prova.

    Passa a ser ameaça.

    Passa a ser moeda de troca.

    Esse deslocamento produz consequências importantes para o desenvolvimento emocional.

    Crianças submetidas a essas dinâmicas podem apresentar ansiedade, culpa, conflitos de lealdade, sintomas depressivos, dificuldades escolares, alterações comportamentais e prejuízos na construção de vínculos afetivos seguros.

    Em muitos casos, vivem uma experiência emocional impossível: sentem que amar um dos pais significa trair o outro.

    É importante compreender que nem toda separação conflituosa configura alienação parental.

    Da mesma forma, nem toda disputa judicial envolvendo guarda ou convivência caracteriza violência vicária.

    Conflitos familiares são comuns após o rompimento conjugal. O que exige atenção técnica é identificar quando esses conflitos deixam de envolver apenas os adultos e passam a utilizar a criança como instrumento de disputa.

    A Psicologia tem um papel fundamental nesse contexto.

    Mais do que procurar culpados, busca compreender a dinâmica relacional instalada, os impactos emocionais sobre a criança e as formas mais adequadas de preservar seu desenvolvimento psíquico.

    Isso exige cautela.

    Conceitos complexos não podem ser utilizados como rótulos automáticos.

    Nem toda resistência da criança à convivência decorre de alienação parental.

    Nem toda restrição de contato representa violência vicária.

    Cada situação precisa ser analisada à luz da história familiar, das relações estabelecidas, das evidências disponíveis e, sobretudo, do melhor interesse da criança.

    No centro dessas discussões existe uma pergunta que nunca deveria ser esquecida:

    Quem está protegendo a infância?

    Quando adultos transformam filhos em instrumentos de vingança, disputa ou controle, todos perdem.

    Mas quem paga o preço mais alto é justamente quem menos participou da origem do conflito.

    Talvez o maior desafio da Psicologia e do Direito seja exatamente este: garantir que, mesmo diante do rompimento entre um casal, a criança continue sendo reconhecida como aquilo que sempre deveria ser.

    Não um instrumento.

    Mas um sujeito de direitos, de afeto e de proteção.

    Fernanda Medeiros
    Psicóloga Clínica e Jurídica
    CRP-SC 12/02536 | CRP-RJ 05/300859

     



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