Fernanda Medeiros
Quando a criança deixa de ser filha e passa a ser instrumento
A diferença entre alienação parental e violência vicária
Quando a criança deixa de ser filha e passa a ser instrumento
A diferença entre alienação parental e violência vicária
Nos últimos anos, dois conceitos passaram a aparecer com frequência nas discussões sobre conflitos familiares: alienação parental e violência vicária.
Embora muitas vezes sejam tratados como sinônimos, eles representam fenômenos distintos. Confundi-los pode gerar interpretações equivocadas tanto do ponto de vista psicológico quanto jurídico.
Em ambos os casos, existe um elemento comum: a criança deixa de ocupar o lugar de sujeito de direitos e passa a ser utilizada na dinâmica do conflito entre adultos.
Mas é justamente aí que começam as diferenças.
A alienação parental ocorre quando um dos responsáveis interfere na formação psicológica da criança para prejudicar o vínculo dela com o outro genitor ou responsável. Isso pode acontecer por meio de desqualificações constantes, falsas acusações, manipulação emocional, impedimento de convivência ou qualquer comportamento que induza a criança a rejeitar injustificadamente o outro.
O foco principal da alienação parental é a relação entre a criança e o outro cuidador.
A criança passa a ser utilizada como instrumento para enfraquecer um vínculo afetivo.
Já a violência vicária possui outra lógica.
Ela acontece quando a violência dirigida ao parceiro ou à ex-parceira é praticada por meio dos filhos. Nesse caso, a criança deixa de ser apenas um instrumento de manipulação do vínculo e passa a ser utilizada para atingir emocionalmente o outro adulto.
O sofrimento da criança torna-se um meio de produzir dor em alguém.
A violência pode ocorrer por diferentes formas: ameaças, afastamento deliberado, negligência, agressões físicas, violência psicológica e, em situações extremas, até mesmo o homicídio dos próprios filhos como forma de atingir o outro genitor.
Por isso, a violência vicária é reconhecida como uma das expressões mais graves da violência doméstica e familiar.
Sob a perspectiva psicológica, ambas representam formas de instrumentalização da infância.
A criança deixa de ser percebida como alguém com necessidades emocionais próprias e passa a ocupar um lugar funcional dentro do conflito dos adultos.
Ela deixa de ser filha.
Passa a ser argumento.
Passa a ser prova.
Passa a ser ameaça.
Passa a ser moeda de troca.
Esse deslocamento produz consequências importantes para o desenvolvimento emocional.
Crianças submetidas a essas dinâmicas podem apresentar ansiedade, culpa, conflitos de lealdade, sintomas depressivos, dificuldades escolares, alterações comportamentais e prejuízos na construção de vínculos afetivos seguros.
Em muitos casos, vivem uma experiência emocional impossível: sentem que amar um dos pais significa trair o outro.
É importante compreender que nem toda separação conflituosa configura alienação parental.
Da mesma forma, nem toda disputa judicial envolvendo guarda ou convivência caracteriza violência vicária.
Conflitos familiares são comuns após o rompimento conjugal. O que exige atenção técnica é identificar quando esses conflitos deixam de envolver apenas os adultos e passam a utilizar a criança como instrumento de disputa.
A Psicologia tem um papel fundamental nesse contexto.
Mais do que procurar culpados, busca compreender a dinâmica relacional instalada, os impactos emocionais sobre a criança e as formas mais adequadas de preservar seu desenvolvimento psíquico.
Isso exige cautela.
Conceitos complexos não podem ser utilizados como rótulos automáticos.
Nem toda resistência da criança à convivência decorre de alienação parental.
Nem toda restrição de contato representa violência vicária.
Cada situação precisa ser analisada à luz da história familiar, das relações estabelecidas, das evidências disponíveis e, sobretudo, do melhor interesse da criança.
No centro dessas discussões existe uma pergunta que nunca deveria ser esquecida:
Quem está protegendo a infância?
Quando adultos transformam filhos em instrumentos de vingança, disputa ou controle, todos perdem.
Mas quem paga o preço mais alto é justamente quem menos participou da origem do conflito.
Talvez o maior desafio da Psicologia e do Direito seja exatamente este: garantir que, mesmo diante do rompimento entre um casal, a criança continue sendo reconhecida como aquilo que sempre deveria ser.
Não um instrumento.
Mas um sujeito de direitos, de afeto e de proteção.
Fernanda Medeiros
Psicóloga Clínica e Jurídica
CRP-SC 12/02536 | CRP-RJ 05/300859




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