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Barra Mansa,30/08/2026

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    Carlo Simi

    Light apaga o Méier

    Mas a conta não para de acender


    Light apaga o Méier

    Light apaga o Méier, mas a conta não para de acender

    O Professor em Campo

    Energia elétrica não é mercadoria de vitrine. É serviço público, prestado sob concessão, que existe para atender gente, não para engordar dividendo de acionista. É bom repetir isso porque a Light, distribuidora que cobre cerca de dois terços da população fluminense, parece ter esquecido a diferença.

    No fim de julho, um vendaval derrubou linhas de transmissão e deixou cerca de 1,9 milhão de unidades consumidoras sem luz no estado, entre clientes da Light e da Enel. Duas pessoas morreram. Idosos ficaram ilhados em andares altos de prédios sem elevador, alguns dependendo de remédio que precisa de geladeira. Linhas inteiras do metrô pararam. A Aneel abriu fiscalização na sede da empresa, no Centro do Rio, para cobrar explicações sobre o plano de recuperação. Isso não é fatalidade da natureza. É o retrato de uma rede sucateada, que não aguenta o primeiro vento mais forte porque não recebeu manutenção suficiente.

    E não foi a primeira vez este ano. Em janeiro, no auge do calor recorde que bateu 41,4 graus na cidade, bairros inteiros da Zona Norte amanheceram sem energia: Cachambi, Todos os Santos, Méier, Del Castilho, Maria da Graça, Engenho de Dentro, Jacarezinho e Benfica. Comerciantes do Méier já perderam sete horas seguidas de luz em outra ocasião, com prejuízo de mercadoria estragada e vendas que não aconteceram. Moradores de Ramos, Cachambi, Pavuna e Anchieta fecharam rua em protesto. E a resposta da concessionária é sempre a mesma cantilena: falha externa, condição climática adversa, força maior. Discurso pronto para nunca assumir a própria responsabilidade.

    Chuva forte e vento em cidade litorânea não são surpresa, são rotina. Uma distribuidora que recebe concessão pública para prestar serviço essencial tem obrigação de estar preparada para isso: rede reforçada, equipe de plantão em número suficiente, estoque de material para reparo rápido, geradores móveis prontos para hospital e posto de saúde. O que se vê na Grande Méier e em tantos outros pontos da Zona Norte é o oposto: recuperação lenta, ruas que ficam dias sem solução, morador que liga, reclama, protocola, e continua no escuro enquanto a empresa apura, apura, apura.

    E o descaso não é só com o morador comum, que já sofre sozinho para ser ouvido. O vereador Rafael Aloisio Freitas, parlamentar respeitado e reconhecido pela atuaçãoforte junto às comunidades da Grande Méier e da Zona Norte, tem encaminhado à Light inúmeras solicitações em nome dos moradores, pedindo agilidade no restabelecimento de energia e explicações sobre pontos que seguem no escuro. E, na maior parte das vezes, sequer há resposta. Se um mandato atuante, com histórico de cobrança séria e presença constante nos bairros, não consegue arrancar da concessionária um retorno minimamente satisfatório, fica ainda mais claro o tamanho do descaso com que a Light trata quem depende dela todos os dias.

    E o pior é que, enquanto o serviço piora, a conta só sobe. A Aneel havia aprovado reajuste médio de 8,59% para 2026. Uma decisão judicial, a pedido da própria Light, elevou esse índice para 16,69%, quase o dobro, com impacto de até 21,35% para grandes consumidores e de 14,58% para o consumidor residencial. A própria empresa já projeta reajuste de até 37,6% para 2027. Ou seja: a rede cai, o atendimento demora, e a fatura sobe quatro vezes acima da inflação prevista para o período. Não existe equação mais injusta do que essa: pagar cada vez mais caro por um serviço cada vez pior.

    É preciso dizer com todas as letras: energia elétrica é bem público. Concessão não é doação de território, é contrato com obrigação de resultado. Se a Light não tem estrutura, equipamento e quadro de pessoal para responder com rapidez às demandas da população, que devolva a concessão para quem possa cumprir o que promete. Aneel, Ministério Público, Defensoria Pública e o poder legislativo estadual e municipal têm o dever de cobrar, fiscalizar e, quando for o caso, penalizar com multa revertida em benefício direto de quem sofreu com a falta de luz, e não em mais um número perdido em processo administrativo que nunca chega a lugar nenhum.

    A Zona Norte, o Méier, Cachambi, Engenho de Dentro, Del Castilho, Maria da Graça e tantos outros bairros não podem seguir sendo tratados como área de segunda categoria, lembrada só quando falta luz e esquecida no dia seguinte. População não é cliente cativo que aceita calado. É titular de um direito. E esse direito começa com uma pergunta simples, que a Light precisa responder em praça pública: energia é serviço para o povo ou é negócio para o acionista? Pelo que se vê nas ruas escuras da Grande Méier, a resposta, até aqui, tem sido a errada.

    Carlo Simi é Matemático, Professor, Servidor Público, Sócio Proprietário e Torcedor do Fluminense, Frequentador dos jogos e do clube desde a década de 50, Ex-Conselheiro, Membro do Grupo Por Amor ao Tricolor e Membro da Embaixada Tricolores da Zona Sul.



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