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Barra Mansa,30/08/2026

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    Carlo Simi

    O Professor que Acredita

    Eu tinha 23 anos.


    O Professor que Acredita

    O Professor que Acredita

    Por Carlo Simi

    Eu tinha 23 anos. E foi ali, numa sala de aula do Curso Wakigawa, que entendi o que dava sentido a essa profissão. Era a década de 70. Ditadura, anos de chumbo. Quem dava aula precisava pesar cada palavra, cada exemplo. Dar aula, naquele momento, já era um risco pequeno e diário.

    Não era uma turma qualquer. Ali não tinha criança. Eram adultos que a vida tinha tirado da escola e que voltavam agora, matéria por matéria, prova por prova, atrás de um diploma que já tinham perdido no caminho. Trabalhadores. Pais e mães de família. Gente que estudava depois de um dia inteiro de trabalho, muitas vezes sem forças, mas voltava. Eu era jovem demais para entender o tamanho daquele sacrifício. Fui aprender isso com o tempo.

    Quem me ensinou a mexer com aquilo foi o Professor Antônio Wakigawa, fundador e dono do curso. Um dos homens mais inteligentes que já conheci. Foi ele quem me mostrou como motivar alguém para a Matemática, e não tem curso de pedagogia que ensine isso. Ensina-se olhando o aluno, prestando atenção de verdade. Devo a ele boa parte de tudo que consegui depois.

    E não fui só eu. Éramos dezenas de professores ali dentro, cada um com seu jeito, cada um segurando a barra à sua maneira. Foi um trabalho de muita gente, não de um homem só.

    Uma coisa me marcava todos os dias: sentados naquelas carteiras, lado a lado, tinha gente que o Brasil viria a conhecer depois nos palcos, na TV, na música, no esporte, e tinha gente comum, que só queria o primeiro emprego ou uma vaga melhor no trabalho. Ninguém ali se sentia mais ou menos que o outro. Todos queriam a mesma coisa: aprender.

    Só que tinha um problema que nos incomodava. Por mais bem preparados que estivessem, os alunos do supletivo chegavam ao vestibular em desvantagem. Vinham de outro caminho, e os cursinhos tradicionais não foram feitos para eles. Aí resolvemos fazer o que ninguém fazia: um pré-vestibular só para eles, com outro ritmo, outro foco. Cortamos o que sobrava e fomos direto ao osso, conceito, fato, raciocínio. Nada de enrolação.

    Deu certo. Mais que certo. Nossos alunos começaram a passar, e passar bem, em cursos concorridos. E teve um caso que eu conto até hoje como um dos momentos mais bonitos da minha vida: Ligia Felizardo, 64 anos, ficou em 3º lugar geral no vestibular unificado do Rio. E foi 1ª colocada em Cândido Mendes.

    Uma senhora de 64 anos. Terceiro lugar geral no Rio de Janeiro. Primeiro lugar em Cândido Mendes. Isso, competindo com milhares de jovens que nunca tinham saído da escola regular.

    Não foi sorte. Foi a prova, na carne, de uma coisa em que passei a acreditar para o resto da vida: gente motivada, tratada com respeito e dignidade, supera barreira que parecia impossível. Idade não trava ninguém quando alguém acredita de verdade. Origem não é destino quando o método respeita quem está aprendendo.

    Aquele tempo mudou pra sempre a forma como entendo o magistério. Não é passar conteúdo. É um ato de fé entre quem ensina e quem aprende. Foi lá, ao lado do Wakigawa e de tantos alunos corajosos, que aprendi que dar aula é um gesto de amor. E amor de verdade produz resultado que ninguém achava possível.

    Carrego essa crença comigo até hoje. Em tudo que faço pela educação.

    Carlo Simi é Matemático, Professor, Servidor Público, Sócio Proprietário e Torcedor do Fluminense, Frequentador dos jogos e do clube desde a década de 50, Ex-Conselheiro, Membro do Grupo Por Amor ao Tricolor e Membro da Embaixada Tricolores da Zona Sul.




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