Carlo Simi
O BRASIL NÃO ESTÁ À VENDA
A soberania não se terceiriza.
O BRASIL NÃO ESTÁ À VENDA
Por Carlo Simi
Há decisões que cabem em uma assinatura, mas cujas consequências atravessam oceanos. Uma caneta em Washington pode significar uma fábrica produzindo menos em São Paulo, um produtor rural vendendo menos em Minas Gerais, um porto mais vazio no Rio de Janeiro, um trabalhador brasileiro voltando pra casa com medo do desemprego.
Foi exatamente isso que aconteceu.
Não é uma guerra. Não houve invasão. Não houve rompimento de relações diplomáticas. Mesmo assim, milhões de trabalhadores brasileiros amanheceram sob ataque. Bastou uma assinatura de Donald Trump para transformar o comércio internacional em instrumento de pressão política.
E isso não pode ser tratado como uma simples decisão econômica — porque não é. A origem de tudo, lá em julho do ano passado, foi declarada pelo próprio Trump: a tarifa nasceu como resposta ao julgamento de Jair Bolsonaro no Supremo, que ele chamou de "caça às bruxas". Não houve disfarce técnico naquele momento.
Foi represália explícita a um processo da Justiça brasileira — ingerência direta na soberania de uma nação.
Agora, quase um ano depois, o instrumento mudou de nome — fala-se em Seção 301, em comércio digital, em desmatamento — mas o efeito é o mesmo: 25% sobre milhares de produtos brasileiros, atingindo algo perto de 4.200 itens e US$ 15 bilhões em exportações, segundo a própria Confederação Nacional da Indústria. E o mais revoltante: os Estados Unidos têm superávit no comércio com o Brasil. Não é o Brasil que tira vantagem de ninguém. Os números desmentem, com a frieza que só os números têm, a narrativa que tentam nos vender.
Quando uma potência decide dificultar a entrada de produtos brasileiros em seu mercado por motivos que nasceram na política interna de outro país, ela não atinge apenas uma balança comercial. Ela ameaça empregos, enfraquece empresas, tenta impor força sobre uma nação soberana.
O alvo não é apenas a economia.
O alvo é o Brasil.
É por isso que esta discussão ultrapassa governos, partidos e ideologias. Ela se refere ao respeito entre as nações — e à honestidade de reconhecer que isso não foi um raio em céu azul. Houve quem fosse a Washington negociar sua própria defesa pessoal às custas do prejuízo nacional, trocando o interesse do trabalhador e do exportador brasileiro por conveniência de família. Disso não se pode fugir por educação ou cautela — quem trocou o país pela própria causa precisa ser lembrado, sempre que a conta chegar para quem produz, exporta e trabalha.
O comércio internacional deveria ser construído sobre cooperação, reciprocidade e diálogo. Quando a tarifa deixa de ter função econômica e vira instrumento de intimidação política, perde-se algo maior que mercado: perde-se a confiança que sustenta relações entre povos.
O Brasil nunca foi uma nação destinada a se curvar diante de pressão externa.
Não por bravata — por história. Foi construída por gente que resistiu, que organizou que entendeu que soberania não é discurso de data cívica: é fábrica funcionando é trabalhador com salário, é produtor vendendo sua safra. Essa é a soberania popular que aprendi a defender desde jovem, na tradição trabalhista — não a Pátria de desfile, mas a Nação que se mede pelo pão na mesa de quem trabalha.
Por isso este não é o momento para divisões estéreis. Divergir de um governo é legítimo — é da essência da democracia. Fiscalizar governantes é dever de todo cidadão. Mas existe uma linha que não deveria ser ultrapassada: nenhum brasileiro que ame de verdade este país pode receber com naturalidade uma medida que ameaça emprego, enfraquece empresa nacional e constrange nossa economia — não importa de qual lado do espectro político venha o aplauso a essa medida.
Não aceito que empregos brasileiros sejam usados como instrumento de pressão política.
Não aceito que a soberania nacional seja tratada como moeda de negociação.
Porque acima das disputas político-partidárias existe um povo que trabalha, produz e exporta — e é esse povo que paga a conta de qualquer tarifaço, venha ele embrulhado em que justificativa vier.
O Brasil não está à venda.
A soberania não se terceiriza.
E quem defende o Brasil de verdade não é quem grita mais alto em dia de jogo — é quem tem coragem de dizer, sem meias palavras, quando um compatriota trocou o interesse nacional por conveniência pessoal.
Carlo Simi é Matemático, Professor, Servidor Público, Sócio Proprietário e Torcedor do Fluminense, Frequentador dos jogos e do clube desde a década de 50, Ex-Conselheiro, Membro do Grupo Por Amor ao Tricolor e Membro da Embaixada Tricolores da Zona Sul.




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