Carlo Simi
Escola de tempo integral ou educação integral?
O Brasil precisa decidir.
Escola de tempo integral ou educação integral?
O Brasil precisa decidir.
Mais horas na escola são importantes. Mas, sem um projeto pedagógico, elas
não bastam para transformar o futuro de uma geração.
Por Carlo Simi
O Brasil voltou a discutir a ampliação das escolas de tempo integral. A notícia é boa.
Quanto mais tempo nossas crianças e nossos jovens permanecerem na escola,
maiores são as oportunidades de aprendizagem, de convivência e de proteção social.
Mas, antes de comemorarmos, precisamos responder a uma pergunta fundamental:
Estamos falando de escola de tempo integral ou de educação integral?
Parece um detalhe. Não é.
Uma escola de tempo integral é aquela em que o aluno permanece mais horas por dia.
Isso é importante. Permite reforço escolar, atividades esportivas, culturais e oferece
maior tranquilidade para milhares de famílias que trabalham o dia inteiro.
Mas aumentar a permanência do estudante na escola não significa, automaticamente,
oferecer uma educação integral.
Educação integral é muito mais do que ampliar a carga horária. É formar o ser humano
em todas as suas dimensões: intelectual, cultural, artística, esportiva, científica, ética e
cidadã. É preparar crianças e jovens para a vida, para o trabalho, para a convivência
democrática e para o exercício pleno da cidadania.
Essa visão não é nova.
Ela foi defendida por Anísio Teixeira e ganhou sua maior expressão no Rio de Janeiro
com Darcy Ribeiro e Leonel Brizola, por meio dos Centros Integrados de Educação
Pública, os CIEPs. Os CIEPs nunca foram apenas escolas funcionando o dia inteiro.
Eram um projeto de sociedade.
Ali, a criança estudava, praticava esportes, tinha acesso à cultura, alimentação
adequada, acompanhamento social e uma proposta pedagógica que reconhecia que
educar é muito mais do que transmitir conteúdos. Educar é desenvolver talentos,
despertar sonhos, construir valores e oferecer oportunidades.
Décadas depois, infelizmente, ainda insistimos em confundir quantidade de horas com
qualidade da educação.
É evidente que ampliar o tempo na escola representa um avanço. Mas, se esse tempo não vier acompanhado de um projeto pedagógico consistente, de professores valorizados, de atividades diversificadas, de infraestrutura adequada e de recursos suficientes, corremos o risco de apenas prolongar a permanência do aluno na sala de aula, sem transformar verdadeiramente sua formação.
Outro aspecto merece atenção.
O novo Plano Nacional de Educação estabelece metas ambiciosas para ampliar a oferta de escolas em tempo integral. É uma decisão que aponta para um caminho importante.
Entretanto, toda política pública precisa ser acompanhada do financiamento
necessário para que deixe de ser promessa e se torne realidade. O debate sobre o
Orçamento da União para 2026 mostrou justamente essa preocupação: especialistas,
gestores municipais e entidades da área da educação alertam para os desafios de
financiar essa expansão de forma sustentável.
Essa discussão não deve servir para alimentar disputas entre governo e oposição.
Deve servir para lembrar uma verdade simples: metas educacionais exigem planejamento, transparência e recursos compatíveis com sua dimensão.
Na educação, boas intenções não constroem escolas, não contratam professores, não
compram livros, não oferecem alimentação e não garantem oportunidades.
Quem faz isso é o orçamento.
Como professor durante três décadas, aprendi que nenhuma transformação educacional acontece por decreto. Ela acontece quando existe um projeto consistente, continuidade administrativa e compromisso permanente com nossas crianças e nossos jovens.
Foi exatamente isso que Darcy Ribeiro e Leonel Brizola compreenderam.
Eles não pensaram apenas em aumentar o tempo de permanência do aluno na escola.
Pensaram em oferecer uma educação capaz de romper o ciclo da pobreza, reduzir
desigualdades e formar cidadãos completos.
Esse continua sendo o grande desafio brasileiro.
O país precisa, sim, ampliar as escolas de tempo integral.
Mas precisa, sobretudo, recuperar o ideal da educação integral.
Porque existe uma diferença enorme entre ocupar o tempo de uma criança e
transformar a sua vida.
E é essa transformação que deve continuar sendo o verdadeiro objetivo da educação pública brasileira.
Carlo Simi é Matemático, Professor, Servidor Público, Sócio Proprietário e Torcedor do Fluminense, Frequentador dos jogos e do clube desde a década de 50, Ex-Conselheiro, Membro do Grupo Por Amor ao Tricolor e Membro da Embaixada Tricolores da Zona Sul.




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