Carlo Simi
O Mesmo Chão, O Mesmo Partido
Mais de quatro décadas de trabalhismo do Clube Municipal ao Clube Municipal
O Mesmo Chão, O Mesmo Partido
Mais de quatro décadas de trabalhismo do Clube Municipal ao Clube Municipal
Por Carlo Simi
Há noites que o tempo dobra sobre si mesmo. Você está num lugar, num momento preciso do presente, e de repente o passado invade — não como lembrança distante, mas como presença física, quase tátil. Foi o que aconteceu comigo ontem à noite, no Clube Municipal, na Tijuca.
Eu já havia estado ali antes. Em 1984, como professor do Estado do Rio de Janeiro e militante do PDT, num plenário incandescente onde um governador chamado Leonel Brizola subiu ao palco para negociar pessoalmente com a categoria que ameaçava uma paralisação. Ele foi lá, defendeu sua posição, disse que o caixa não permitia o reajuste exigido — e saiu debaixo de uma vaia histórica. Uma vaia que eu não dei. Não pude. O carinho e o respeito pelo meu líder não me permitiam aquilo, mesmo com os meus colegas de profissão reagindo com toda a legitimidade da sua indignação. Era uma das experiências mais dilacerantes que já vivi: ser professor do Estado e ser pedetista ao mesmo tempo, naquele exato instante.
Quinze dias depois, Brizola voltou ao mesmo Clube Municipal. Com os números ajustados, com o orçamento remanejado, com a palavra cumprida. O mesmo plenário que o havia vaiado o ovacionou de pé. Aprendi naquele episódio algo que carrego até hoje: que o diálogo verdadeiro — áspero, tumultuado, direto — é sempre superior ao silêncio conveniente.
O Clube Municipal, quarenta anos depois
Ontem, o Clube Municipal voltou a lotar. Mil e seiscentas pessoas assinaram presença. Estavam lá o Prefeito Eduardo Cavalieri, o pré-candidato ao governo do Estado Eduardo Paes, os pré-candidatos ao Senado Pedro Paulo e Miro Teixeira, e uma constelação de pré-candidatos a deputado federal. Era o evento Amigos do Lupi — e o que estava sendo lançado era a pré-candidatura de Léo Lupi a deputado estadual pela ALERJ.
Estava lá. E tudo se misturou na minha mente emocionada.
Porque há 46 anos, Carlos Lupi é meu amigo. Porque em 1980, na ABI, nós dois assistimos juntos ao momento em que Brizola chorou — e não se entregou. Vi aquele homem rasgar o papel com as três letras do PTB, que o regime militar havia roubado, e transformar aquilo não numa derrota, mas no nascimento de algo novo. O PDT. O Partido Democrático Trabalhista. Fundado poucos dias depois, com outra sigla, com a mesma alma.
E quem estava lá também era um jovem chamado Carlos Lupi — que havia chegado até Brizola de uma forma que só a história consegue inventar: como jornaleiro, entregando jornais todas as manhãs a um hóspede de um hotel em Ipanema, num tempo em que o grande líder voltava do exílio. De entrega em entrega, de conversa em conversa, aquele jornaleiro foi se tornando uma das pessoas de mais confiança de Brizola. Ajudou a construir o partido. Ganhou a confiança do líder. E quando Brizola morreu, em 2004, e todos diziam que o PDT ia se dissolver — foi Lupi quem ficou. Foi ele quem percorreu o Brasil inteiro, estado por estado, diretório por diretório, mantendo viva a chama.
Carlos Lupi não preside apenas um partido. Preside uma história.
O filho que veio dessa história
Mas ontem não era só sobre o Lupi. Era sobre o Léo.
Léo Lupi cresceu dentro dessa história — não como quem a leu num livro, mas como quem a respirou. Filho de Carlos Lupi e de Ângela Rocha — jornalista e escritora que ajudou a organizar a Assessoria de Comunicação do PDT ainda antes de Brizola ser governador, e que tem o dom raro de expressar, com palavras simples, as ideias mais profundas —, o Léo traz no DNA a mistura de militância e competência que o trabalhismo sempre precisou.
Não chegou até aqui pelo sobrenome. Chegou pelo trabalho. À frente da Subsecretaria de Assistência Social da Prefeitura do Rio, enfrentou demanda real, gente real, responsabilidade real — e deu conta. Coordenou o CadMóvel Carioca e o Cartão Primeira Infância Carioca, programas que chegaram onde o Estado normalmente não chega. Se dedicou à Fundação Leonel Brizola, onde se desenvolve formação política. Dirige a revista Embaúba. É presidente municipal do PDT no Rio de Janeiro.
É uma trajetória já muito rica para um jovem. E é uma pré-candidatura que o trabalhismo precisa sustentar com tudo que tem.
O que o Clube Municipal me ensinou
Quando entrei no Clube Municipal ontem à noite e vi aquele plenário cheio, ouvi a festa trabalhista com sua mistura característica de compromisso e emoção, senti algo que não saberia nomear com precisão senão como continuidade.
Em 1982, fui candidato a Vereador pelo PDT — o Lupi também — na mesma eleição em que Brizola se tornou governador, aquela eleição mítica que derrotou o sistema do Proconsult. Em 1984, fiquei de pé, em silêncio, num plenário que vaiava o meu líder — porque sabia que o diálogo não havia se rompido, que a palavra ainda estava no ar. Em 1980, fui testemunha do nascimento de um partido.
Ontem, fui testemunha do anúncio de uma geração.
O trabalhismo não é uma nostalgia. É um projeto. É uma forma de entender que o Estado existe para quem mais precisa, que a educação é o instrumento da emancipação, que o trabalho dignifica e deve ser protegido, que a identidade nacional não é ornamento — é fundamento. Getúlio construiu. Jango aprofundou. Brizola resistiu e reconstruiu. Lupi manteve vivo quando tudo conspirava para enterrar.
E agora, Léo Lupi entra em campo.
Caminhei com o Lupi por 46 anos. Vou caminhar com o Léo enquanto tiver forças para contribuir com a causa do trabalhismo. Porque não se trata apenas de uma pré-candidatura. Trata-se de decidir se o Rio de Janeiro vai ter, na Assembleia Legislativa, uma voz formada pela história mais rica e mais honesta da política brasileira.
O Clube Municipal ontem me devolveu algo que às vezes o tempo vai amenizando: a energia, a garra, a vibração, a certeza de que vale a pena.
Carlo Simi é Matemático, Professor, Servidor Público e filiado ao PDT desde a sua fundação.




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