Carlo Simi
A Voz que Não se Cala
Dublagem, legislação e o futuro de uma arte brasileira
A Voz que Não se Cala
Dublagem, legislação e o futuro de uma arte brasileira
Por Carlo Simi
Uma arte que fala por muitos
Nesse 29 de junho, Dia do Dublador, uma data que merece muito mais do que uma
menção protocolar — merece reconhecimento, reflexão e gratidão. São os
dubladores que nos permitem viajar pelo mundo sem sair do sofá, que nos fazem
chorar com personagens de línguas que não falamos, que transformam palavras
estrangeiras em emoção brasileira.
A dublagem brasileira é uma das mais respeitadas do mundo. Não é exagero, não é
bairrismo — é um reconhecimento consagrado internacionalmente. Temos uma
tradição de décadas que construiu um jeito próprio de dar voz aos personagens:
com técnica, com alma, com a musicalidade singular do português falado no Brasil.
Cada dublador é, ao mesmo tempo, ator completo e intérprete de emoções — e
quando a obra exige, também canta, porque a voz que dubla não conhece fronteiras
entre o texto e a música.
E o Brasil sabe disso. Os números não mentem: cerca de 59% dos ingressos de
cinema no país são para sessões dubladas — quase o dobro das legendadas. Na
televisão por assinatura e no streaming, a preferência é ainda mais expressiva: entre
o público jovem, chega a 84%. Na classe C, que representa a maioria dos
brasileiros, a preferência pelo dublado alcança 76%. Não é teimosia, não é falta de
sofisticação. É escolha. É direito. É a forma que milhões de brasileiros encontraram
de se relacionar com a cultura do mundo inteiro.
Por que tantos preferem o dublado? Porque há quem não leia com fluidez suficiente
para acompanhar legendas sem perder a cena. Porque há quem tenha dificuldades
visuais que tornam a leitura rápida impossível. Porque há quem simplesmente
queira — com todo o direito — mergulhar nos detalhes do filme: o cenário
deslumbrante, o figurino cuidadosamente escolhido, a expressão no rosto do ator
num momento decisivo. Com a legenda, os olhos ficam presos na faixa de texto e o
filme escapa pela lateral. Com a dublagem, o olhar fica livre. E a emoção, inteira.
Às dubladoras e aos dubladores do Brasil — veteranos que construíram essa
tradição e jovens que hoje a renovam —, a saudação mais sincera neste dia que é
deles. Que as vozes que tanto nos emocionam continuem a soar, livres e protegidas.
A ADDC e a luta por direitos
Se hoje existe um debate legislativo sério sobre a proteção dos direitos dos
dubladores no Brasil, grande parte do mérito pertence à Associação de Dubladores
Dário de Castro — a ADDC. Com organização, persistência e competência, a
entidade tem sido protagonista de um movimento que vai muito além das câmeras e
dos estúdios.
Foi a ADDC que apresentou ao Senado Federal a Sugestão Legislativa pedindo
proteção específica para os dubladores diante dos avanços da inteligência artificial.
Uma iniciativa corajosa e necessária, que acende uma luz sobre o que pode ser
perdido se o mercado avançar sem marcos regulatórios adequados. A voz humana,
com sua carga de emoção, experiência e interpretação, não pode ser simplesmente
substituída por um algoritmo — e é isso que a ADDC defende com determinação.
Rafael Aloisio Freitas: a câmara que acolhe os dubladores
Na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, os dubladores encontraram um aliado de
primeira hora: o vereador Rafael Aloisio Freitas. Não por acaso — Rafael sempre
teve sensibilidade para as questões da cultura, do trabalho artístico e dos direitos
das categorias que vivem na informalidade criativa.
Rafael é o autor de duas conquistas legislativas de enorme significado para a
categoria. A primeira: a lei que reconheceu a dublagem como patrimônio cultural de
natureza imaterial da cidade do Rio de Janeiro, elevando a arte de dar voz ao
mesmo patamar de outros bens culturais que definem a identidade carioca. A
segunda: a lei que oficializou o dia 29 de junho como o Dia do Dublador no
calendário oficial da Cidade do Rio de Janeiro. Duas marcas permanentes na
história da categoria, lavradas no texto da lei por quem escolheu estar ao lado dos
artistas de voz.
Rafael também concedeu a Medalha Chiquinha Gonzaga a Selma Lopes, a mais
longeva dubladora brasileira. A Medalha Chiquinha Gonzaga é uma das mais
relevantes honrarias da Câmara Municipal, dedicada a homenagear mulheres que
se destacam na defesa das causas artísticas e culturais — e não poderia haver
homenageada mais merecida. Selma Lopes é história viva da dublagem no Brasil.
E não ficou só nisso. Rafael coordenou uma homenagem no Salão Nobre da
Câmara Municipal do Rio de Janeiro dedicada à comunidade da dublagem — um ato
que uniu artistas, dirigentes da ADDC e representantes políticos numa celebração
do reconhecimento merecido. O Salão Nobre, que já abrigou tantas páginas dahistória carioca, recebeu naquele dia as vozes que animam nossa imaginação.
Leo Lupi: do estúdio ao Congresso
Na esfera federal, o papel de Leo Lupi foi igualmente decisivo. Foi ele quem
intermediou o primeiro encontro entre a ADDC e o deputado federal Leo Prates
(PDT-BA), autor do Projeto de Lei 4041/2025 — o projeto de proteção dos
dubladores contra o uso não autorizado de suas vozes por inteligências artificiais.
Essa articulação, discreta e eficaz, é o tipo de trabalho político que raramente
aparece nos holofotes, mas que define os destinos de causas importantes.
O PL 4041/2025 já conta com relator designado — um passo concreto no processo
legislativo que demonstra que o projeto avança. E avança porque houve quem se
dedicasse a construir as pontes necessárias.
Leo Lupi também esteve presente na Conferência Nacional de Direitos Autorais e
Propriedade Intelectual, realizada em abril deste ano no Congresso Nacional,
participando da abertura ao lado do Dr. Lucas Sérvio, presidente da Comissão de
Direitos Autorais e Propriedade Intelectual da OAB/DF. Uma presença que não foi
protocolar — foi política, no sentido mais nobre da palavra: estar no coração do
poder legislativo brasileiro onde o futuro da criação artística está sendo discutido e
disputado. A Conferência contou ainda com a participação, em painéis temáticos,
das dubladoras Adriana Torres e Marisa Leal, integrantes da Diretoria Colegiada da
ADDC, que levaram ao centro do debate acadêmico e jurídico a voz — literal e
simbólica — de quem vive essa realidade todos os dias nos estúdios brasileiros.
Rafael e Leo, cada um no seu âmbito — municipal e estadual/federal —, constroem
juntos um compromisso concreto com a categoria: não apenas de palavras e
homenagens, mas de leis aprovadas, projetos em tramitação e articulações que
abrem portas onde antes havia silêncio. É esse o tipo de compromisso que a
dublagem brasileira merece de seus representantes.
Brasil x Japão: dois países, uma mesma urgência
Nesse dia dedicado aos dubladores, o Brasil enfrenta o Japão pela Copa do Mundo.
Um encontro que vai muito além do futebol — porque é também um encontro entre
duas culturas que, curiosamente, compartilham o mesmo desafio: proteger a voz
humana diante da inteligência artificial.
O Japão é dono de uma das indústrias de dublagem mais respeitadas e
economicamente poderosas do mundo. Os seiyuus — os dubladores japoneses —têm status de celebridades, fãs dedicados e contratos milionários. E, justamente por
isso, o debate sobre IA e proteção de voz tem sido conduzido lá com uma seriedade
que impressiona.
Em junho de 2026, o Japão formalizou seu Programa Estratégico de Propriedade
Intelectual, colocando na pauta legislativa a alteração da Lei de Prevenção da
Concorrência Desleal para combater explicitamente a imitação não autorizada de
vozes por IA. O programa também prevê estruturas de compensação financeira por
direitos autorais — uma resposta concreta a uma ameaça concreta.
Os sindicatos de seiyuus japoneses têm exigido cláusulas contratuais específicas
que impedem estúdios de treinar inteligências artificiais com as vozes de seus
membros sem consentimento e sem compensação. Não é um debate teórico — é
uma batalha pelo sustento e pela dignidade de trabalhadores criativos.
A tendência que emerge do mercado japonês é reveladora: a IA pode ser aceita em
tarefas repetitivas ou secundárias, mas o consumidor japonês é muito exigente
quanto ao que chama de kokoro — a alma da atuação. E alma, por enquanto, a IA
não tem. Por isso, a dublagem humana permanece central em animes e grandes
produções — não por sentimentalismo, mas porque o público percebe a diferença.
O Brasil precisa aprender com esse exemplo. Não copiar — porque nossa realidade
é outra — mas se inspirar. O PL 4041/2025 é o nosso começo. A Sugestão
Legislativa da ADDC no Senado é outro passo. Mas é preciso ir além: regulação,
compensação, formação e reconhecimento precisam caminhar juntos.
Parabéns, dubladores do Brasil
Neste 29 de junho, enquanto a bola rola e o Brasil busca mais uma vitória em
campo, é bom lembrar que existem outras batalhas sendo disputadas — nos
corredores do Congresso, nas salas de audiência do Senado, nos estúdios que
precisam de proteção legal para sobreviver.
A dublagem brasileira é patrimônio. As vozes que fazem rir, chorar e sonhar
merecem estar protegidas por lei — com a mesma firmeza com que protegemos
qualquer outra expressão cultural que define quem somos.
Parabéns a todos os atores e atrizes em dublagem do Brasil. Que a arte de dar voz
continue sendo reconhecida, valorizada e protegida. E que neste Dia do Dublador, a
voz que não se cala seja também a voz da justiça.
Carlo Simi é Matemático, Professor, Servidor Público, Sócio Proprietário e Torcedor do Fluminense, Frequentador dos jogos e do clube desde a década de 50, Ex-Conselheiro, Membro do Grupo Por Amor ao Tricolor e Membro da Embaixada Tricolores da Zona Sul.




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