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Barra Mansa,29/06/2026

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    Carlo Simi

    A Voz que Não se Cala

    Dublagem, legislação e o futuro de uma arte brasileira


    A Voz que Não se Cala
    A Voz que Não se Cala
    Dublagem, legislação e o futuro de uma arte brasileira

    Por Carlo Simi 

    Uma arte que fala por muitos
    Nesse 29 de junho, Dia do Dublador, uma data que merece muito mais do que uma
    menção protocolar — merece reconhecimento, reflexão e gratidão. São os
    dubladores que nos permitem viajar pelo mundo sem sair do sofá, que nos fazem
    chorar com personagens de línguas que não falamos, que transformam palavras
    estrangeiras em emoção brasileira.
    A dublagem brasileira é uma das mais respeitadas do mundo. Não é exagero, não é
    bairrismo — é um reconhecimento consagrado internacionalmente. Temos uma
    tradição de décadas que construiu um jeito próprio de dar voz aos personagens:
    com técnica, com alma, com a musicalidade singular do português falado no Brasil.
    Cada dublador é, ao mesmo tempo, ator completo e intérprete de emoções — e
    quando a obra exige, também canta, porque a voz que dubla não conhece fronteiras
    entre o texto e a música.
    E o Brasil sabe disso. Os números não mentem: cerca de 59% dos ingressos de
    cinema no país são para sessões dubladas — quase o dobro das legendadas. Na
    televisão por assinatura e no streaming, a preferência é ainda mais expressiva: entre
    o público jovem, chega a 84%. Na classe C, que representa a maioria dos
    brasileiros, a preferência pelo dublado alcança 76%. Não é teimosia, não é falta de
    sofisticação. É escolha. É direito. É a forma que milhões de brasileiros encontraram
    de se relacionar com a cultura do mundo inteiro.
    Por que tantos preferem o dublado? Porque há quem não leia com fluidez suficiente
    para acompanhar legendas sem perder a cena. Porque há quem tenha dificuldades
    visuais que tornam a leitura rápida impossível. Porque há quem simplesmente
    queira — com todo o direito — mergulhar nos detalhes do filme: o cenário
    deslumbrante, o figurino cuidadosamente escolhido, a expressão no rosto do ator
    num momento decisivo. Com a legenda, os olhos ficam presos na faixa de texto e o
    filme escapa pela lateral. Com a dublagem, o olhar fica livre. E a emoção, inteira.
    Às dubladoras e aos dubladores do Brasil — veteranos que construíram essa
    tradição e jovens que hoje a renovam —, a saudação mais sincera neste dia que é
    deles. Que as vozes que tanto nos emocionam continuem a soar, livres e protegidas.

    A ADDC e a luta por direitos
    Se hoje existe um debate legislativo sério sobre a proteção dos direitos dos
    dubladores no Brasil, grande parte do mérito pertence à Associação de Dubladores
    Dário de Castro — a ADDC. Com organização, persistência e competência, a
    entidade tem sido protagonista de um movimento que vai muito além das câmeras e
    dos estúdios.
    Foi a ADDC que apresentou ao Senado Federal a Sugestão Legislativa pedindo
    proteção específica para os dubladores diante dos avanços da inteligência artificial.
    Uma iniciativa corajosa e necessária, que acende uma luz sobre o que pode ser
    perdido se o mercado avançar sem marcos regulatórios adequados. A voz humana,
    com sua carga de emoção, experiência e interpretação, não pode ser simplesmente
    substituída por um algoritmo — e é isso que a ADDC defende com determinação.

    Rafael Aloisio Freitas: a câmara que acolhe os dubladores
    Na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, os dubladores encontraram um aliado de
    primeira hora: o vereador Rafael Aloisio Freitas. Não por acaso — Rafael sempre
    teve sensibilidade para as questões da cultura, do trabalho artístico e dos direitos
    das categorias que vivem na informalidade criativa.
    Rafael é o autor de duas conquistas legislativas de enorme significado para a
    categoria. A primeira: a lei que reconheceu a dublagem como patrimônio cultural de
    natureza imaterial da cidade do Rio de Janeiro, elevando a arte de dar voz ao
    mesmo patamar de outros bens culturais que definem a identidade carioca. A
    segunda: a lei que oficializou o dia 29 de junho como o Dia do Dublador no
    calendário oficial da Cidade do Rio de Janeiro. Duas marcas permanentes na
    história da categoria, lavradas no texto da lei por quem escolheu estar ao lado dos
    artistas de voz.
    Rafael também concedeu a Medalha Chiquinha Gonzaga a Selma Lopes, a mais
    longeva dubladora brasileira. A Medalha Chiquinha Gonzaga é uma das mais
    relevantes honrarias da Câmara Municipal, dedicada a homenagear mulheres que
    se destacam na defesa das causas artísticas e culturais — e não poderia haver
    homenageada mais merecida. Selma Lopes é história viva da dublagem no Brasil.
    E não ficou só nisso. Rafael coordenou uma homenagem no Salão Nobre da
    Câmara Municipal do Rio de Janeiro dedicada à comunidade da dublagem — um ato
    que uniu artistas, dirigentes da ADDC e representantes políticos numa celebração
    do reconhecimento merecido. O Salão Nobre, que já abrigou tantas páginas dahistória carioca, recebeu naquele dia as vozes que animam nossa imaginação.

    Leo Lupi: do estúdio ao Congresso
    Na esfera federal, o papel de Leo Lupi foi igualmente decisivo. Foi ele quem
    intermediou o primeiro encontro entre a ADDC e o deputado federal Leo Prates
    (PDT-BA), autor do Projeto de Lei 4041/2025 — o projeto de proteção dos
    dubladores contra o uso não autorizado de suas vozes por inteligências artificiais.
    Essa articulação, discreta e eficaz, é o tipo de trabalho político que raramente
    aparece nos holofotes, mas que define os destinos de causas importantes.
    O PL 4041/2025 já conta com relator designado — um passo concreto no processo
    legislativo que demonstra que o projeto avança. E avança porque houve quem se
    dedicasse a construir as pontes necessárias.
    Leo Lupi também esteve presente na Conferência Nacional de Direitos Autorais e
    Propriedade Intelectual, realizada em abril deste ano no Congresso Nacional,
    participando da abertura ao lado do Dr. Lucas Sérvio, presidente da Comissão de
    Direitos Autorais e Propriedade Intelectual da OAB/DF. Uma presença que não foi
    protocolar — foi política, no sentido mais nobre da palavra: estar no coração do
    poder legislativo brasileiro onde o futuro da criação artística está sendo discutido e
    disputado. A Conferência contou ainda com a participação, em painéis temáticos,
    das dubladoras Adriana Torres e Marisa Leal, integrantes da Diretoria Colegiada da
    ADDC, que levaram ao centro do debate acadêmico e jurídico a voz — literal e
    simbólica — de quem vive essa realidade todos os dias nos estúdios brasileiros.
    Rafael e Leo, cada um no seu âmbito — municipal e estadual/federal —, constroem
    juntos um compromisso concreto com a categoria: não apenas de palavras e
    homenagens, mas de leis aprovadas, projetos em tramitação e articulações que
    abrem portas onde antes havia silêncio. É esse o tipo de compromisso que a
    dublagem brasileira merece de seus representantes.

    Brasil x Japão: dois países, uma mesma urgência
    Nesse dia dedicado aos dubladores, o Brasil enfrenta o Japão pela Copa do Mundo.
    Um encontro que vai muito além do futebol — porque é também um encontro entre
    duas culturas que, curiosamente, compartilham o mesmo desafio: proteger a voz
    humana diante da inteligência artificial.
    O Japão é dono de uma das indústrias de dublagem mais respeitadas e
    economicamente poderosas do mundo. Os seiyuus — os dubladores japoneses —têm status de celebridades, fãs dedicados e contratos milionários. E, justamente por
    isso, o debate sobre IA e proteção de voz tem sido conduzido lá com uma seriedade
    que impressiona.
    Em junho de 2026, o Japão formalizou seu Programa Estratégico de Propriedade
    Intelectual, colocando na pauta legislativa a alteração da Lei de Prevenção da
    Concorrência Desleal para combater explicitamente a imitação não autorizada de
    vozes por IA. O programa também prevê estruturas de compensação financeira por
    direitos autorais — uma resposta concreta a uma ameaça concreta.
    Os sindicatos de seiyuus japoneses têm exigido cláusulas contratuais específicas
    que impedem estúdios de treinar inteligências artificiais com as vozes de seus
    membros sem consentimento e sem compensação. Não é um debate teórico — é
    uma batalha pelo sustento e pela dignidade de trabalhadores criativos.
    A tendência que emerge do mercado japonês é reveladora: a IA pode ser aceita em
    tarefas repetitivas ou secundárias, mas o consumidor japonês é muito exigente
    quanto ao que chama de kokoro — a alma da atuação. E alma, por enquanto, a IA
    não tem. Por isso, a dublagem humana permanece central em animes e grandes
    produções — não por sentimentalismo, mas porque o público percebe a diferença.
    O Brasil precisa aprender com esse exemplo. Não copiar — porque nossa realidade
    é outra — mas se inspirar. O PL 4041/2025 é o nosso começo. A Sugestão
    Legislativa da ADDC no Senado é outro passo. Mas é preciso ir além: regulação,
    compensação, formação e reconhecimento precisam caminhar juntos.

    Parabéns, dubladores do Brasil
    Neste 29 de junho, enquanto a bola rola e o Brasil busca mais uma vitória em
    campo, é bom lembrar que existem outras batalhas sendo disputadas — nos
    corredores do Congresso, nas salas de audiência do Senado, nos estúdios que
    precisam de proteção legal para sobreviver.
    A dublagem brasileira é patrimônio. As vozes que fazem rir, chorar e sonhar
    merecem estar protegidas por lei — com a mesma firmeza com que protegemos
    qualquer outra expressão cultural que define quem somos.
    Parabéns a todos os atores e atrizes em dublagem do Brasil. Que a arte de dar voz
    continue sendo reconhecida, valorizada e protegida. E que neste Dia do Dublador, a
    voz que não se cala seja também a voz da justiça.

    Carlo Simi é Matemático, Professor, Servidor Público, Sócio Proprietário e Torcedor do Fluminense, Frequentador dos jogos e do clube desde a década de 50, Ex-Conselheiro, Membro do Grupo Por Amor ao Tricolor e Membro da Embaixada Tricolores da Zona Sul.


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