JJ
O Brasil que Precisa se Fazer Respeitar
A paz não é um estado natural das relações internacionais
O Brasil que Precisa se Fazer Respeitar
Por JJ
O recente discurso do presidente Lula em Itajaí, por ocasião da entrega de uma fragata à Marinha do Brasil, merece ser lido para além da ocasião cerimonial. Ali se expressa uma compreensão que, embora tardia em sua formulação sistemática, aponta para um elemento essencial da vida das nações, a soberania não se declara, se constrói.
Quando o presidente afirma que o Brasil precisa se fazer respeitar no mundo, ele toca num ponto que ultrapassa a retórica diplomática. Trata se de reconhecer que a paz não é um estado natural das relações internacionais, mas uma construção histórica sustentada por capacidade de dissuasão, autonomia tecnológica e presença estratégica. Nenhuma nação é respeitada apenas por sua boa vontade, mas pela sua capacidade concreta de preservar sua integridade, seus recursos e seu destino.
Nesse sentido, o discurso abre uma janela importante para uma agenda que há décadas permanece incompleta no Brasil, a de um projeto nacional de defesa articulado ao desenvolvimento industrial e científico. Não se trata de militarismo, tampouco de isolacionismo, mas de uma visão madura de Estado, na qual as Forças Armadas não são um corpo apartado da sociedade, mas parte estruturante de um projeto de desenvolvimento soberano.
A experiência histórica internacional é clara nesse ponto. Países que alcançaram níveis elevados de autonomia estratégica investiram simultaneamente em defesa, tecnologia e indústria de ponta. A soberania contemporânea depende de capacidades que vão muito além do território físico, envolvendo sistemas complexos de comunicação, cibernética, energia, engenharia naval, aeroespacial e inteligência estratégica.
Por isso, a simples aquisição de equipamentos, ainda que importante, não é suficiente. O que se coloca como necessidade é a construção de uma base produtiva e tecnológica nacional capaz de sustentar, desenvolver e inovar continuamente os meios de defesa. Uma Marinha equipada, um Exército moderno e uma Aeronáutica tecnologicamente avançada só cumprem plenamente sua função quando integrados a um ecossistema industrial robusto, nacional e autônomo.
É precisamente aqui que o discurso ganha relevância política. Ao sinalizar a necessidade de fortalecimento das capacidades de defesa, o governo, ainda que tardiamente, parece reconhecer que a soberania brasileira exige mais do que inserção internacional, exige estrutura interna compatível com a dimensão do país.
Recebo essa sinalização com satisfação e responsabilidade. Satisfação porque finalmente se reconhece uma pauta historicamente negligenciada no debate público nacional. Responsabilidade porque esse reconhecimento precisa se transformar em política de Estado, e não em gesto episódico ou retórico.
Fortalecer as Forças Armadas brasileiras, portanto, não pode significar apenas aumento de efetivo ou modernização pontual de equipamentos. Deve significar a estruturação de um projeto nacional que integre defesa, ciência, tecnologia, educação e indústria. Um projeto que faça do Brasil não apenas um consumidor de tecnologias externas, mas um produtor de soluções estratégicas próprias.
A paz, nesse contexto, deixa de ser ingenuidade e passa a ser resultado de equilíbrio. Um país desarmado de capacidades estratégicas não é um país pacífico, mas vulnerável. E vulnerabilidade, na política internacional, raramente é respeitada.
O que está em jogo, portanto, não é apenas a modernização da Marinha ou das demais forças, mas a afirmação de um Brasil que compreende sua própria dimensão geopolítica. Um Brasil que não busca confronto, mas que também não aceita dependência estrutural.
Se há algo a ser celebrado no discurso de Itajaí, é justamente essa inflexão, ainda que inicial, em direção a uma visão mais realista do mundo. O desafio agora é transformar esse reconhecimento em continuidade histórica, planejamento de longo prazo e compromisso nacional permanente.
O Brasil precisa se fazer respeitar. E para isso, precisa antes de tudo se preparar.
JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira




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