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Barra Mansa,27/06/2026

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    JJ

    Quando o indivíduo devora o coletivo

    A política socialista nunca prometeu protagonismo individual.


    Quando o indivíduo devora o coletivo

    Quando o indivíduo devora o coletivo

    Por JJ

    As recentes declarações da deputada federal Erika Hilton contra a direção nacional do PSOL, acusando o partido de racismo e transfobia em razão da distribuição do fundo eleitoral, revelam muito mais do que uma divergência interna sobre recursos de campanha. Segundo a direção da legenda, a parlamentar receberá R$ 2,3 milhões para sua candidatura, o maior valor destinado a uma campanha proporcional do partido. Ainda assim, optou por levar a disputa para a arena pública, convertendo uma divergência política em uma denúncia moral. Independentemente de quem tenha razão na divisão dos recursos, esse episódio merece reflexão por aquilo que simboliza.

    O problema não está apenas na crítica à direção partidária. Está na forma como uma divergência administrativa é imediatamente reinterpretada como expressão de racismo e transfobia, deslocando o debate da política para a identidade. Em vez da discussão sobre critérios, estratégia eleitoral ou prioridades coletivas, instala-se uma lógica em que toda discordância precisa ser explicada por preconceitos estruturais. A política perde densidade e transforma-se em espetáculo, enquanto as redes sociais substituem os organismos internos de deliberação.

    Esse episódio sintetiza uma das maiores deformações da esquerda contemporânea. A política deixa de ser o espaço da elaboração coletiva de um projeto histórico e passa a ser o palco da afirmação permanente das identidades. A luta de classes cede lugar à disputa entre grupos identitários. O coletivo perde relevância diante da trajetória individual. A organização passa a gravitar em torno de figuras públicas, e não de um programa capaz de mobilizar a classe trabalhadora.

    É justamente por isso que considero o identitarismo incompatível com a tradição socialista. O socialismo nasceu afirmando que a emancipação dos trabalhadores seria obra coletiva. Nenhuma liderança, por mais popular que seja, pode estar acima da organização. Nenhuma identidade pode substituir o papel unificador da classe. Quando a política deixa de organizar os explorados como sujeitos históricos e passa a fragmentá-los em múltiplas categorias concorrentes, ela abandona sua vocação transformadora para administrar diferenças dentro da própria ordem existente.

    O caso envolvendo Erika Hilton e o PSOL apenas torna visível esse processo. Não é um episódio isolado, mas o sintoma de uma esquerda que, há muito tempo, deslocou seu eixo da transformação econômica para as disputas simbólicas. Enquanto trabalhadores enfrentam desemprego, precarização, baixos salários e concentração de renda, boa parte da energia política é consumida em conflitos internos por reconhecimento, protagonismo e recursos eleitorais.

    Não escondo minhas profundas reservas em relação ao PSOL. Nunca o compreendi como um partido socialista nos termos clássicos, mas como uma legenda identificada com o liberalismo progressista, fortemente influenciada pelo identitarismo e distante da centralidade da luta de classes. Ainda assim, justamente por isso, surpreende que até mesmo uma organização marcada por essa orientação seja acusada por uma de suas principais lideranças de reproduzir discriminações estruturais em razão de uma disputa sobre verbas de campanha. Quando a lógica identitária se volta contra seus próprios formuladores, ela demonstra que seu horizonte não é a construção do coletivo, mas a permanente disputa por legitimidade.

    A política socialista nunca prometeu protagonismo individual. Prometeu emancipação coletiva. Partidos existem para organizar um projeto histórico, não para servir de palco às ambições de suas lideranças. Quando o indivíduo passa a valer mais do que o coletivo, quando o pertencimento identitário substitui a consciência de classe e quando a exposição pública se sobrepõe ao debate político, resta apenas uma esquerda que fala incessantemente sobre representação, mas cada vez menos sobre transformação social.

    JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira 




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