JJ
A Corda Que Não Estava Lá
Ela não caiu apenas de uma ponte.
A Corda Que Não Estava Lá
Porr JJ
Ela não caiu apenas de uma ponte.
Caiu da confiança.
Quando alguém paga para saltar, não desafia a morte. Compra exatamente o contrário: a certeza de que haverá uma equipe preparada para impedir que a morte aconteça. Compra a tranquilidade de acreditar que todos os procedimentos foram seguidos, que cada equipamento foi conferido, que cada detalhe foi verificado mais de uma vez.
Em Limeira, uma jovem de apenas 21 anos descobriu da forma mais brutal que a negligência pode ser mais fatal que qualquer abismo.
Não foi o risco do esporte que a matou.
Foi a ausência do cuidado mais básico.
Enquanto ela acreditava estar presa à vida por uma corda, a corda não estava presa a ela.
Há tragédias provocadas pela força da natureza. Há tragédias causadas pelo acaso. E há aquelas que nascem da falha humana, da distração imperdoável, do procedimento que deixou de ser seguido, da responsabilidade que foi abandonada por alguns segundos.
São as mais difíceis de aceitar.
Porque poderiam não ter acontecido.
Maria Eduarda não acordou naquela manhã para morrer. Como milhões de jovens, ela saiu de casa carregando planos, sonhos, mensagens para responder, pessoas para reencontrar. Talvez estivesse ansiosa. Talvez sorrisse para as fotos. Talvez imaginasse contar a experiência aos amigos quando tudo terminasse.
Mas nada terminou como deveria.
O salto que prometia adrenalina transformou-se em silêncio.
Um silêncio que agora ocupa o lugar onde antes existiam projetos, afeto e futuro.
Sua família jamais voltará a ouvir sua voz entrando pela porta de casa. Seus amigos jamais receberão novas mensagens. O tempo continuará correndo para todos, mas para ela parou naquele instante em que alguém deveria ter feito a última conferência e não fez.
É por isso que esta história não pode ser tratada como mera fatalidade.
Fatalidade é aquilo que ninguém consegue evitar.
Negligência é aquilo que alguém tinha o dever de evitar.
E existe uma diferença enorme entre as duas coisas.
A dor de uma família já é irreparável. Nenhuma investigação, nenhum processo e nenhuma condenação serão capazes de devolver a vida interrompida aos 21 anos. Mas a verdade precisa ser dita, apurada e reconhecida.
Porque toda vez que uma tragédia causada por descuido é chamada apenas de acidente, a responsabilidade começa a desaparecer.
E Maria Eduarda merece mais do que isso.
Merece que seu nome seja lembrado.
Merece que sua história não seja reduzida a um vídeo nas redes sociais.
Merece que a justiça faça o que a corda que não estava lá não conseguiu fazer: impedir que outras vidas caiam no mesmo abismo.
JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira




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