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Barra Mansa,10/06/2026

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    JJ

    PERU

    O LABORATÓRIO DA INSTABILIDADE LATINO AMERICANA


    PERU

    PERU, O LABORATÓRIO DA INSTABILIDADE LATINO AMERICANA

    Por JJ

    O Peru chega a 2026 depois de viver uma das décadas mais caóticas da história política contemporânea da América Latina. Em apenas dez anos, o país teve nada menos que nove presidentes. Nenhuma democracia minimamente estável suporta tamanho colapso institucional sem consequências profundas.

    A crise peruana não pode ser analisada pela lógica simplista da “polarização”. O que existe no Peru não é polarização clássica. O que existe é fragmentação social, política e institucional.

    Os números desta eleição revelam isso de maneira brutal.

    Keiko Fujimori chegou ao segundo turno em primeiro lugar com apenas 17% dos votos válidos no primeiro turno. Roberto Sánchez, o candidato da esquerda nacional popular, avançou com cerca de 12%. Somados, os dois principais candidatos não alcançaram sequer 30% do eleitorado. Isso significa que aproximadamente 73% dos peruanos não votaram em nenhum dos dois no primeiro turno.

    Esse dado desmonta a narrativa de um país dividido em dois grandes blocos ideológicos. O Peru não está dividido ao meio. Está pulverizado.

    A fragmentação peruana nasce da decomposição do sistema político tradicional, da falência da representação partidária e da erosão da confiança popular nas instituições. O resultado é um país onde ninguém governa com legitimidade sólida e onde qualquer presidente assume cercado por um ambiente de sabotagem permanente.

    O Congresso peruano se transformou, nos últimos anos, em um dos principais fatores de desestabilização institucional. Dominado majoritariamente por forças conservadoras, liberais radicais e setores profundamente alinhados aos interesses econômicos tradicionais, o Legislativo passou a operar como um mecanismo constante de desgaste dos governos eleitos.

    Presidentes passaram a cair não necessariamente por crimes comprovados ou rupturas constitucionais claras, mas por guerras políticas contínuas entre Executivo, Congresso e Judiciário.

    Foi assim com Pedro Pablo Kuczynski, Martín Vizcarra, Manuel Merino, Francisco Sagasti, Pedro Castillo e vários presidentes interinos que passaram rapidamente pelo poder. O Peru vive praticamente um parlamentarismo informal, sem assumir oficialmente esse modelo.

    A possível eleição de Roberto Sánchez ocorre exatamente nesse cenário.

    Sua vitória não representa uma hegemonia popular organizada. Representa muito mais o esgotamento de um sistema político incapaz de oferecer estabilidade mínima à sociedade peruana.

    A campanha também foi profundamente atravessada pela geopolítica.

    A pauta da segurança pública dominou o debate eleitoral. O crescimento da criminalidade, das extorsões, do narcotráfico e das economias ilegais transformou o medo em elemento central da disputa. Keiko Fujimori tentou capitalizar esse ambiente com um discurso de endurecimento repressivo, associado ao legado autoritário de seu pai, Alberto Fujimori.

    Mas a eleição acabou premiando o candidato que conseguiu construir maior proximidade simbólica com os setores populares, rurais e historicamente excluídos do Peru profundo. Roberto Sánchez avançou justamente nas regiões andinas, camponesas e periféricas, repetindo parcialmente o fenômeno eleitoral que levou Pedro Castillo ao poder em 2021.

    O Peru continua dividido entre dois mundos.

    De um lado, Lima, o litoral, o sistema financeiro, os grupos empresariais e as elites tradicionais profundamente conectadas aos interesses dos Estados Unidos e do mercado internacional.

    Do outro, o Peru indígena, rural, andino e periférico, historicamente excluído do centro do poder político e econômico.

    Essa divisão não é apenas ideológica. É territorial, econômica, racial e histórica.

    O novo governo enfrentará imediatamente três centros permanentes de pressão.

    O primeiro será o Congresso, provavelmente novamente dominado por forças conservadoras e hostis ao Executivo.

    O segundo será o sistema judicial peruano, amplamente desacreditado pela população, frequentemente acusado de seletividade política e historicamente alinhado às elites tradicionais e aos interesses geopolíticos norte americanos.

    O terceiro será o mercado internacional, especialmente os interesses ligados à mineração, ao cobre, ao lítio e às disputas estratégicas entre Estados Unidos e China na América do Sul.

    O Peru ocupa posição central na geopolítica mineral contemporânea. Nenhuma grande potência olha para o país apenas pela ótica democrática. O controle dos recursos estratégicos pesa enormemente sobre o comportamento das elites políticas, econômicas e institucionais.

    A questão central agora é saber se Roberto Sánchez conseguirá sobreviver politicamente dentro de um sistema que devorou quase todos os presidentes da última década.

    Porque no Peru atual, vencer a eleição talvez seja apenas o começo da crise.

    JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira   

     



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