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Barra Mansa,04/06/2026

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    Carlo Simi

    OS PROFETAS DO FRACASSO E A INCAPACIDADE DE ENXERGAR A HISTÓRIA

    O futebol não é uma sentença.


    OS PROFETAS DO FRACASSO E A INCAPACIDADE DE ENXERGAR A HISTÓRIA

    OS PROFETAS DO FRACASSO E A INCAPACIDADE DE ENXERGAR A HISTÓRIA

    Por Carlo Simi

    Há uma diferença importante entre crítica e negatividade permanente.

    A primeira é indispensável. A segunda é estéril.

    A crítica constrói. A negatividade corrói.

    Quem acompanha o futebol há muitos anos aprende que nenhum clube está imune aos erros. Dirigentes erram. Treinadores erram. Jogadores erram. Conselheiros erram. Torcedores erram.

    Por isso mesmo, a crítica sempre teve um papel fundamental na vida dos grandes clubes. Ela ajuda a corrigir rumos, expõe problemas e impede que a paixão substitua a razão.

    Mas existe um ponto em que a crítica perde sua função e se transforma em outra coisa.

    Transforma-se em um estado permanente de insatisfação.

    Passa a existir independentemente dos fatos.

    Não importa o que aconteça. Não importa o resultado. Não importa o contexto.

    Nada é suficiente.

    Nada merece reconhecimento.

    Nada pode ser visto de forma equilibrada.

    O erro é amplificado. O acerto é minimizado.

    Quando isso acontece, a crítica deixa de ser um instrumento de análise e passa a ser apenas uma forma de reafirmar convicções previamente estabelecidas.

    A pessoa já não observa para compreender.

    Observa para confirmar aquilo que decidiu pensar antes mesmo dos acontecimentos.

    No ambiente do futebol, esse fenômeno tornou-se cada vez mais comum.

    Existem aqueles que parecem sentir um desconforto genuíno diante dos acertos.

    Quando o clube falha, surgem imediatamente as explicações, as previsões e os discursos de sempre.

    Quando o clube acerta, instala-se um constrangimento.

    É preciso encontrar rapidamente um defeito capaz de restaurar a narrativa negativa.

    A impressão é que alguns indivíduos desenvolveram uma extraordinária habilidade para identificar nuvens mesmo nos dias de sol.

    Naturalmente, ninguém é obrigado a concordar com dirigentes, treinadores ou jogadores.

    Aliás, seria preocupante se todos concordassem.

    A pluralidade de opiniões é saudável.

    O problema surge quando a discordância se transforma em identidade e a oposição passa a existir por si mesma, independentemente dos fatos.

    Nessa situação, o objetivo deixa de ser compreender a realidade.

    Passa a ser apenas combatê-la.

    Tenho 76 anos e acompanho o Fluminense desde a década de 1950.

    Vi o Maracanã em épocas que hoje pertencem à história. Vi grandes vitórias, derrotas dolorosas, administrações brilhantes e administrações equivocadas. Vi ídolos nascerem, serem contestados e depois eternizados.

    Talvez por isso minha visão sobre o futebol seja diferente da de muitos comentaristas das redes sociais.

    Eu vi Castilho, Pinheiro, Altair, Telê, Waldo e Escurinho em campo.

    Vi aquele extraordinário time do Fluminense perder a final do Campeonato Carioca de 1957 para o Botafogo. Vi Paulo Valentim marcar cinco gols. Vi até um gol de bicicleta.

    Foi uma derrota dura.

    Hoje fico imaginando como seria a reação de alguns dos eternos pessimistas das redes sociais diante daquela partida.

    Provavelmente decretariam o fim de um ciclo.

    Questionariam a qualidade dos jogadores.

    Pediriam mudanças radicais.

    Anunciariam que determinados atletas jamais poderiam representar a grandeza do Fluminense.

    Talvez produzissem longas análises explicando por que Castilho não servia, por que Telê era superestimado ou por que aquele elenco estava condenado ao fracasso.

    Mas o futebol tem o hábito de desmoralizar as certezas apressadas.

    Dois anos depois, aquele mesmo grupo conquistaria o Campeonato Carioca de 1959 com uma rodada de antecedência.

    E Castilho, que alguns talvez transformassem em alvo preferencial após uma derrota histórica, acabou se tornando aquilo que o tempo revelou: um dos maiores símbolos da história do Fluminense e, para muitos torcedores, o maior ídolo que o clube já teve.

    Essa é uma das razões pelas quais sempre desconfiei dos julgamentos definitivos.

    O futebol não é uma sentença.

    É uma trajetória.

    Os verdadeiros ídolos não são construídos apenas nas vitórias.

    São construídos também nas derrotas, na capacidade de se levantar, de resistir às críticas e de escrever novos capítulos.

    Talvez os pessimistas profissionais não compreendam isso.

    Talvez porque estejam ocupados demais procurando o próximo erro para perceber a história sendo construída diante dos seus olhos.

    Aprendi, ao longo de mais de sete décadas acompanhando o Fluminense, que a maturidade não está em aplaudir tudo.

    Mas também não está em condenar tudo.

    Está em reconhecer os erros sem perder a capacidade de enxergar os acertos.

    Está em compreender que pessoas são imperfeitas e que instituições também são.

    Está em exercer a crítica com firmeza, mas sem abandonar a honestidade intelectual.

    O Fluminense construiu sua história apoiado em valores que sempre admirei: inteligência, elegância, respeito e grandeza.

    Esses valores não exigem silêncio diante dos problemas.

    Mas certamente exigem algo cada vez mais raro nos tempos atuais: equilíbrio.

    Porque a crítica é necessária.

    O ressentimento, não.

    E porque a lucidez não consiste em enxergar apenas o que está errado.

    Consiste em ter honestidade suficiente para reconhecer também aquilo que está dando certo.

    No fim das contas, os grandes tricolores que conheci ao longo da vida nunca foram aqueles que torciam para estar certos.

    Foram aqueles que torciam para que o Fluminense estivesse certo.

    E existe uma diferença enorme entre uma coisa e outra.

    Carlo Simi é Matemático, Professor, Servidor Público, Sócio Proprietário e Torcedor do Fluminense, Frequentador dos jogos e do clube desde a década de 50, Ex-Conselheiro, Membro do Grupo Por Amor ao Tricolor e Membro da Embaixada Tricolores da Zona Sul.




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