JJ
Trump, Brasil e a nova Doutrina Monroe
Por isso, o problema central talvez não seja apenas Donald Trump.
Trump, Brasil e a nova Doutrina Monroe
Por JJ
A tentativa de atribuir as recentes ações do governo Donald Trump contra o Brasil a uma suposta visita de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos é um erro político e analítico. Pode até servir como narrativa eleitoral, alimentar disputas internas e mobilizar bolhas ideológicas, mas não ajuda a compreender a profundidade real do problema.
As movimentações de Washington em relação ao Brasil não podem ser reduzidas aos desejos pessoais de Trump, muito menos aos movimentos episódicos da família Bolsonaro. Elas devem ser entendidas dentro de um contexto estrutural muito maior, ligado aos interesses permanentes do capitalismo norte americano, à disputa geopolítica global e à tentativa dos Estados Unidos de reafirmarem sua hegemonia sobre a América Latina.
Trump obviamente possui preferência por governos submissos, alinhados e politicamente dóceis aos interesses de Washington. Nesse sentido, o bolsonarismo, assim como parcelas significativas da direita e da extrema direita brasileira, oferecem exatamente aquilo que os Estados Unidos historicamente buscaram na região, governos ideologicamente simpáticos, economicamente dependentes e geopoliticamente subordinados.
Mas limitar a análise a isso seria superficial.
A questão da classificação de facções criminosas brasileiras como organizações terroristas, por exemplo, não nasce de uma conversa de corredor ou de uma simples articulação eleitoral. Trata se de uma estratégia de Estado. O enquadramento terrorista amplia os mecanismos de intervenção política, financeira, jurídica e de inteligência dos Estados Unidos sobre países considerados estratégicos. O histórico internacional demonstra que a chamada “guerra ao terrorismo” frequentemente serviu como instrumento de expansão de influência e de legitimação de ingerências externas.
O caso brasileiro passa então a ser observado dentro de uma lógica mais ampla, a lógica de uma nova Doutrina Monroe.
Não mais a Doutrina Monroe clássica do século XIX, baseada em ocupações militares explícitas e tutela colonial direta, mas uma versão contemporânea, sofisticada e adaptada ao século XXI. Uma doutrina baseada em controle financeiro, pressão diplomática, guerra híbrida, lawfare, vigilância tecnológica, dependência econômica e enquadramentos securitários.
Quando observamos o conjunto das ações recentes dos Estados Unidos, o desenho torna se mais claro.
A abertura de investigações com base na chamada Seção 301 do Trade Act contra o Brasil, por exemplo, não é um detalhe secundário. Trata se de um poderoso instrumento de coerção econômica utilizado historicamente pelos Estados Unidos para pressionar países considerados desalinhados de seus interesses estratégicos.
As investigações podem resultar em sobretaxações de até 25% sobre produtos brasileiros, atingindo setores fundamentais da economia nacional. Mais grave ainda, o simples fato de o sistema Pix passar a ser citado dentro desse ambiente de pressão revela o grau de incômodo de Washington diante de qualquer mecanismo financeiro que escape parcialmente da órbita das grandes corporações e do sistema financeiro internacional dominado pelos Estados Unidos.
O Pix não é apenas uma ferramenta tecnológica de pagamentos instantâneos. Ele simboliza capacidade estatal, soberania monetária, autonomia operacional e fortalecimento de um sistema financeiro nacional relativamente independente das grandes plataformas privadas internacionais. O fato de o tema aparecer no radar norte americano demonstra que a disputa não é apenas comercial, mas também tecnológica, financeira e geopolítica.
Somam se a isso as ameaças comerciais contra países ligados ao BRICS, o debate sobre minerais estratégicos brasileiros, a crescente preocupação norte americana com a autonomia diplomática do Sul Global e, agora, a indicação de um deputado cubano americano ultrarreacionário da Flórida para a embaixada no Brasil.
A indicação do deputado da Flórida não é um gesto diplomático neutro. É uma provocação política deliberada.
Ela representa o fortalecimento do núcleo ideológico de Miami dentro da política externa trumpista, um setor marcado por anticomunismo militante, agressividade contra experiências soberanas latino americanas e profundo alinhamento aos interesses estratégicos do imperialismo norte americano.
Não se trata apenas de um nome. Trata se do símbolo político escolhido para representar Washington diante do principal país da América do Sul.
Ao mesmo tempo, o governo brasileiro encontra se numa situação extremamente delicada.
Reagir de forma dura aos movimentos de Washington exige sustentação política interna, algo difícil num país onde grande parte das forças conservadoras, da direita tradicional e da extrema direita mantêm alinhamento automático aos Estados Unidos. Há inclusive uma parcela significativa da sociedade brasileira que ainda acredita, mesmo diante das evidências históricas, que os “ventos do Norte movem moinhos”, como se a submissão aos interesses externos fosse um caminho inevitável para o desenvolvimento nacional.
Essa mentalidade colonial continua profundamente enraizada em setores das elites econômicas, políticas e midiáticas brasileiras.
Por isso, o problema central talvez não seja apenas Donald Trump.
Trump é expressão de uma transformação mais profunda do capitalismo norte americano, cada vez mais agressivo diante da perda relativa de hegemonia global, do avanço chinês, do fortalecimento dos BRICS e da emergência de um mundo multipolar.
O Brasil entra nesse tabuleiro não por acaso, mas porque possui território estratégico, recursos naturais gigantescos, posição energética privilegiada, importância agrícola global, reservas minerais fundamentais e influência regional relevante.
Nesse contexto, a pressão norte americana tende a aumentar, independentemente de simpatias pessoais ou de encontros ocasionais entre lideranças políticas.
A verdadeira questão colocada para o Brasil não é eleitoral.
É civilizatória, geopolítica e histórica.
Ou o país constrói um projeto soberano, capaz de compreender a dimensão da disputa internacional em curso, ou continuará oscilando entre ciclos de dependência, tutela externa e subordinação estratégica.
JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira




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