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Barra Mansa,27/05/2026

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    JJ

    A Montanha Pariu um Rato

    E o rato ainda saiu pequeno.


    A Montanha Pariu um Rato

    A Montanha Pariu um Rato

    Por JJ

    A montanha pariu um rato. A frase antiga, usada para definir expectativas grandiosas que terminam em resultados medíocres, encaixa-se com precisão cirúrgica na viagem do senador Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos em busca de uma imagem ao lado do presidente Donald Trump.

    Durante dias, setores da mídia simpáticos ao bolsonarismo venderam a agenda como um grande acontecimento diplomático e político. Manchetes espalhafatosas tentaram construir a narrativa de que a aproximação com Trump representaria uma demonstração de força internacional, uma espécie de reabilitação simbólica do bolsonarismo diante do desgaste crescente sofrido no Brasil. No fim, porém, o que se viu foi um encontro protocolar, frio, artificial e politicamente irrelevante.

    A tão aguardada fotografia, que deveria simbolizar prestígio e influência, acabou transmitindo exatamente o oposto. Trump aparece sentado, visivelmente desconfortável, sem qualquer gesto espontâneo de proximidade. Não há aperto de mão caloroso, não há demonstração pública de intimidade política, não há sinal de entusiasmo. O que deveria parecer um encontro entre aliados estratégicos transformou-se numa imagem burocrática, constrangedora e cuidadosamente esvaziada de significado.

    A tentativa de transformar o episódio em triunfo político esbarra na realidade concreta dos fatos. A viagem não ocorreu por acaso, tampouco se explica apenas por afinidade ideológica. O movimento parece claramente associado à necessidade de conter o desgaste político provocado pelas sucessivas associações do senador ao empresário Daniel Vorcaro e às controvérsias envolvendo o Banco Master. Em política, símbolos importam. E a busca desesperada por um símbolo externo costuma denunciar fragilidade interna.

    O problema é que operações de marketing têm limites. Quando a encenação é excessiva, o público percebe. E foi exatamente isso que aconteceu. A fotografia construída para demonstrar força acabou reforçando dependência. A agenda vendida como demonstração de prestígio terminou expondo subserviência. Em vez de um senador brasileiro defendendo interesses nacionais, a imagem transmitiu a sensação melancólica de um político em peregrinação atrás de validação estrangeira.

    Existe algo particularmente constrangedor em parte da direita brasileira contemporânea, especialmente no bolsonarismo, que consiste nessa necessidade permanente de tutela simbólica internacional. A soberania nacional, tão evocada em discursos inflamados, desaparece quando surge a oportunidade de buscar bênçãos políticas em Washington. O patriotismo performático dá lugar ao velho comportamento colonial de quem acredita que legitimidade política só existe quando reconhecida pelos Estados Unidos.

    O contraste se torna ainda mais evidente diante da realidade brasileira. Enquanto aliados midiáticos tentavam fabricar relevância para a visita, o noticiário nacional seguia dominado por investigações, suspeitas financeiras e pela atuação da Polícia Federal em apurações envolvendo bilhões desviados de aposentados do Rio de Janeiro. A gravidade das denúncias torna ainda mais artificial o esforço de criar factóides internacionais capazes de alterar o ambiente político interno.

    Há também um aspecto comunicacional revelador. O bolsonarismo sempre se alimentou da lógica da encenação digital, da fabricação de narrativas e da circulação massiva de versões paralelas da realidade. Porém, existe um limite para a eficácia da propaganda quando a própria imagem divulgada contradiz o discurso oficial. A fotografia não transmitiu liderança, prestígio ou influência. Transmitiu desconforto, improviso e vazio político.

    Naturalmente, parte do eleitorado mais radicalizado continuará tratando o episódio como uma demonstração histórica de prestígio internacional. O bolsonarismo possui um núcleo militante impermeável aos fatos objetivos, capaz de consumir qualquer narrativa produzida por seus influenciadores e canais digitais. Nesse ambiente político, até fracassos evidentes podem ser convertidos artificialmente em vitórias épicas. Ainda assim, fora da bolha ideológica, o saldo da viagem parece amplamente negativo.

    O episódio deixa uma lição importante sobre a crise de parte da política brasileira contemporânea. Em vez de apresentar projetos concretos para o país, discutir desenvolvimento econômico, desigualdade, segurança pública ou soberania nacional verdadeira, determinados grupos preferem investir em espetáculos midiáticos vazios, cuidadosamente desenhados para redes sociais e consumo instantâneo.

    No final, sobra a imagem. E imagens, às vezes, falam mais do que discursos inteiros. A imagem de um senador brasileiro buscando relevância numa fotografia protocolar com um presidente estrangeiro, enquanto o próprio cenário político ao seu redor afunda em suspeitas e desgaste.

    A montanha pariu um rato. E o rato ainda saiu pequeno.

    JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira   



     



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