Carlo Simi
O TRIBUNAL DOS PAIS E A HUMILHAÇÃO DOS PROFESSORES.
Essa lógica é desumana.
O TRIBUNAL DOS PAIS E A HUMILHAÇÃO DOS PROFESSORES.
Por Carlo Simi
Há algo profundamente doente acontecendo na relação entre parte da sociedade brasileira e seus professores.
A história da professora afastada por recomendação médica, fotografada por uma mãe de aluno enquanto realizava uma atividade terapêutica acompanhada de sua psicóloga, é mais do que um caso de crueldade individual. É o retrato de uma cultura que perdeu a capacidade de respeitar aqueles que dedicam suas vidas a educar.
A cena é reveladora. Uma profissional da educação enfrenta um quadro de ansiedade generalizada e fobia social. Depois de meses de sofrimento, isolamento e tratamento, consegue dar um passo difícil: sair de casa e participar de uma atividade recomendada por especialistas. Bastou um sorriso. Bastou um instante de aparente normalidade para que alguém se sentisse no direito de julgá-la, fotografá-la sem autorização, expô-la publicamente e submetê-la a um linchamento virtual.
A acusação era tão ignorante quanto cruel: “Para dar aula não está boa, mas para sair com a amiguinha está.”
Imediatamente após a postagem veio uma enxurrada de julgamentos, acusações e ofensas. Pessoas que não conheciam a situação, que jamais haviam conversado com a professora sobre sua condição de saúde e que não possuíam qualquer informação concreta passaram a atacá-la com uma segurança impressionante.
Só que havia um detalhe fundamental: a mulher que acompanhava a professora não era uma “amiguinha”. Era sua psicóloga.
O aspecto mais chocante da história talvez seja justamente a distância entre a realidade e a narrativa construída pelos julgadores. Aquele encontro não era um momento de lazer irresponsável, mas parte de um tratamento terapêutico prescrito por profissionais de saúde. A professora não estava faltando ao trabalho para se divertir; estava tentando recuperar as condições emocionais necessárias para voltar a exercê-lo. A fotografia capturou apenas uma cena. A ignorância capturou todo o resto.
A mãe não viu uma paciente em tratamento. Viu uma oportunidade de acusar. E muitos dos que receberam a mensagem não procuraram compreender os fatos. Preferiram participar do linchamento.
Vivemos uma época em que muitos se consideram especialistas em tudo. Especialistas em educação, em medicina, em psicologia, em psiquiatria e, principalmente, em julgar a vida alheia.
O professor, que já enfrenta salários insuficientes, jornadas exaustivas, estruturas precárias, sobrecarga emocional e crescente desrespeito em sala de aula, agora também precisa conviver com a vigilância permanente de pais que se comportam como fiscais de sua vida privada.
O educador deixou de ser visto como um profissional e passou a ser tratado, muitas vezes, como um funcionário sem direito à individualidade, ao descanso, ao adoecimento ou à vida pessoal. Se está cansado, é preguiçoso. Se reclama, é incompetente. Se adoece, está fingindo. Se sorri, então não estava doente.
Essa lógica é desumana.
A depressão não obriga ninguém a chorar vinte e quatro horas por dia. A ansiedade não impede uma pessoa de sorrir em todos os momentos. Transtornos mentais não funcionam como caricaturas de novela. Quem convive com essas condições sabe que alguns dos maiores sofrimentos acontecem justamente atrás de rostos aparentemente normais.
O episódio também expõe outra tragédia contemporânea: a banalização da humilhação pública. O celular virou arma. O grupo de WhatsApp virou tribunal. E o direito de defesa desapareceu.
Uma fotografia tirada sem consentimento. Uma legenda maldosa. Alguns comentários indignados. E pronto. A sentença está dada.
O mais grave é que isso acontece justamente contra uma categoria que deveria ser uma das mais respeitadas de qualquer sociedade civilizada.
Nenhum país se desenvolve sem professores. Nenhuma democracia sobrevive sem professores. Nenhum médico, engenheiro, empresário, juiz, cientista ou político existiria sem que um professor tivesse passado por sua vida.
Ainda assim, no Brasil, tornou-se comum tratar educadores com suspeita, arrogância e desprezo.
Depois surgem discursos preocupados com a qualidade da educação. Mas como esperar excelência de profissionais submetidos diariamente à desvalorização, ao assédio moral, à pressão psicológica e à falta de reconhecimento?
A responsabilidade de educar não é exclusiva da escola. A formação do caráter continua começando dentro de casa. E quando um adulto decide transformar a dor de uma professora em espetáculo para um grupo de WhatsApp, a lição que está transmitindo aos próprios filhos não é de cidadania. É de intolerância.
Talvez o mais perturbador em toda essa história seja perceber que a professora não foi atacada por algo que fez. Foi atacada por tentar se recuperar. Foi humilhada porque estava cumprindo uma orientação médica. Foi julgada porque ousou dar um passo em direção à própria cura.
Quando uma sociedade passa a perseguir até mesmo quem busca ajuda para superar um sofrimento psicológico, o problema já não está na pessoa adoecida. Está no ambiente social que a cerca.
Mais do que solidariedade à professora, este episódio exige reflexão coletiva.
Porque uma sociedade que humilha seus educadores não está apenas ferindo indivíduos. Está atacando um dos pilares sobre os quais seu próprio futuro é construído.
Carlo Simi é Matemático, Professor, Servidor Público, Sócio Proprietário e Torcedor do Fluminense, Frequentador dos jogos e do clube desde a década de 50, Ex-Conselheiro, Membro do Grupo Por Amor ao Tricolor e Membro da Embaixada Tricolores da Zona Sul.




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