MK - Marcelo Kieling
O sangue e o sal
"Sangrando",
O sangue e o sal
Por Marcelo Kieling
Aos 22 minutos do segundo tempo, Gonzaguinha já tinha dito tudo. A canção se chama "Sangrando", foi gravada em 1982 e, como toda obra que sobrevive ao próprio tempo, parece ter sido escrita na semana passada. "Quando eu soltar a minha voz / Por favor, entenda / Que palavra por palavra / Eis aqui uma pessoa se entregando" — e o que seria da crônica, afinal, se não esse mesmo gesto: uma pessoa se entregando, palavra por palavra, diante do que não consegue mais calar?
O Brasil de 1982 saía de uma ditadura com as vísceras expostas. O Brasil de hoje sai de uma coisa muito parecida mas com outra roupa. O autoritarismo não vestiu mais farda — vestiu terno, aprendeu a sorrir para as câmeras, descobriu o algoritmo. Mas o estrago é o mesmo: uma nação que sangra enquanto canta, ou que já nem canta mais, pois está exausta de tanto sangrar.
Gonzaguinha entendia que cantar era verbo intransitivo da existência popular. O povo canta porque vive, e vive porque canta. A voz que ele soltava não era entretenimento — era instrumento de presença. "Coração na boca, peito aberto, vou sangrando" não é metáfora de artista sensível; é diagnóstico de quem habita um país onde a política deixou de ser a arte do possível para se tornar a indústria do espólio. Quando o Estado é capturado por interesses que nada têm a ver com o bem comum, quem canta sangra. E quando o sangue já não comove ninguém, a voz emudece.
É desse emudecimento covarde do povo brasileiro é que precisamos falar.
Vivemos um tempo em que a sociedade brasileira foi convencida da própria impotência. Não se trata apenas da fadiga das redes sociais, do noticiário tóxico que se consome como fast-food envenenado, da polarização que transformou o debate público em rinha digital. Trata-se de algo mais profundo: a sensação de que a força para cantar — isto é, a força para se indignar, para se organizar, para exigir — foi drenada por um sistema político desenhado para que nada mude. O Congresso vota a própria blindagem enquanto o salário mínimo não paga o aluguel. O orçamento secreto irriga currais eleitorais enquanto filas do SUS viram paisagem. A conta chega, implacável, e chega sempre para o mesmo lado da mesa.
O que Gonzaguinha chamava de "força tanta" era precisamente aquilo que mantém um povo de pé apesar dos pesares — e que a política espúria foi aprendendo a anestesiar. Anestesia pelo medo, que paralisa. Anestesia pelo cinismo, que naturaliza. Anestesia pelo cansaço, que entrega os pontos. "E se eu chorar / E o sal molhar o meu sorriso / Não se espante, cante / Que o teu canto é a minha força pra cantar" — reparem: o sal não anula o sorriso, ele o molha. A lágrima e o gesto convivem. Mas e quando a lágrima seca e o sorriso vira uma careta? E quando o canto do outro já não chega, porque o outro também está mudo, encolhido na mesma exaustão?
A política espúria — essa que compra voto com emenda parlamentar, que negocia cargo com denúncia engavetada, que troca ministério por silêncio cúmplice — não sobreviveria uma semana se a sociedade brasileira recuperasse a capacidade coletiva de cantar. O canto, aqui, é a metáfora mais precisa que temos: é a voz organizada, é a exigência ética, é a presença na rua, no sindicato, na associação de bairro, na escola pública, no conselho tutelar, na câmara de vereadores. É o oposto da terceirização da cidadania — essa ideia confortável e devastadora de que alguém, em algum lugar, resolverá por nós.
O pacto da política espúria com a sociedade que se cala é um pacto de conveniência mútua. De um lado, quem ocupa o poder oferece o espetáculo: a CPI que não dá em nada, o pronunciamento em rede nacional que mente com desfaçatez, a promessa de campanha que já nasceu natimorta. Do outro lado, quem deveria fiscalizar se refugia no sofá, no meme, na reclamação estéril do grupo de WhatsApp. E assim o Brasil vai sangrando — não mais com a dignidade do "peito aberto" de Gonzaguinha, mas com a hemorragia silenciosa de quem já nem sente mais a ferida.
Há um dado assustador nessa equação: a naturalização do absurdo. Quando a fila do osso no interior do Maranhão vira nota de rodapé do noticiário, quando a morte de crianças Yanomami gera apenas um dia de indignação nas redes sociais, quando o apagão educacional da pandemia é tratado como dano colateral aceitável — não estamos mais sangrando. Estamos anestesiados. E um povo anestesiado não canta: balbucia, morre!.
Gonzaguinha fechava a letra com um verso que é, ao mesmo tempo, declaração de princípios e chave de leitura: "É apenas o meu jeito de viver / O que é amar". Cantar, para ele, era a forma de amar — amar o país, amar a vida, amar a possibilidade de um mundo diferente. A pergunta que fica, 44 anos depois, é se ainda sabemos o que é amar desse jeito. Ou se trocamos o amor pelo conforto, a voz pelo pelo clique ou pelo like, a força pela resignação.
O Brasil não precisa de heróis. Precisa de gente que recupere a coragem de abrir o peito, pôr o coração na boca e soltar a voz. Mesmo que a voz saia trêmula. Mesmo que o sal molhe o sorriso. Porque o canto de cada um — na urna, na rua, na greve, na assembleia de condomínio, na reunião de pais e mestres, no abaixo-assinado, na conversa franca com o filho sobre política — é exatamente o que a política espúria mais teme: consciência organizada. E consciência organizada, mais cedo ou mais tarde, para de sangrar e começa a transformar.
A canção de 1982 nos alcança em 2026 com a urgência de sempre. Ela não oferece a solução — oferece o espelho. E o que o espelho devolve é a imagem de um país que pode escolher, a cada manhã, entre continuar sangrando em silêncio ou recuperar a força tanta de quem ainda acredita que cantar — e agir — é o único jeito de viver o que é amar.
Precisamos mudar o Brasil. Vamos?
Ferramentas de IA foram utilizadas na elaboração deste conteúdo. Todo o conteúdo foi revisado por humanos.





COMENTÁRIOS