JJ
Insistir ou Recuar?
A política, afinal, não se move apenas por convicções.
Insistir ou Recuar?
Por JJ
A possibilidade de setores do governo defenderem uma nova indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal provoca perplexidade não apenas na oposição, mas também entre aliados históricos do presidente Lula. Após a rejeição do nome do atual advogado geral da União pelo Senado, a simples hipótese de uma nova tentativa expõe um debate que vai além da disputa jurídica e alcança o terreno da estratégia política.
O primeiro aspecto a ser considerado é que derrotas parlamentares possuem significado político. Quando o Senado rejeita um indicado ao Supremo, não está apenas avaliando um currículo ou uma trajetória profissional. Está emitindo uma mensagem sobre a relação de forças existente entre Executivo e Legislativo naquele momento.
Por essa razão, a reação de aliados do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, classificando a movimentação como "estranha", não surpreende. A rejeição anterior não ocorreu por falta de informação sobre o indicado nem por algum fato novo que alterasse substancialmente o cenário. Ao contrário, ela expressou uma maioria política que decidiu impor uma derrota ao governo.
Nesse contexto, surge a pergunta inevitável: o que mudou desde então?
Até o momento, não há sinais claros de alteração significativa na composição do Senado, na disposição dos partidos de centro ou na relação entre o Palácio do Planalto e os principais articuladores da Casa. Se a correlação de forças permanece essencialmente a mesma, insistir na mesma indicação parece mais um gesto de afirmação política do que uma estratégia voltada para a vitória.
A política, afinal, não se move apenas por convicções. Move se pela capacidade de transformar objetivos em resultados concretos. Insistir em uma disputa sem possuir os votos necessários pode produzir exatamente o efeito contrário ao desejado: reforçar a demonstração pública de fragilidade do governo perante o Congresso.
Isso não significa que os defensores de uma nova indicação estejam completamente equivocados. Há um argumento legítimo em favor da insistência. Para alguns setores do PT, recuar após uma derrota representaria aceitar que o Senado adquiriu poder de veto permanente sobre determinadas escolhas presidenciais. Nessa leitura, a reapresentação do nome serviria como afirmação da prerrogativa constitucional do Executivo de indicar ministros para o Supremo.
O problema é que gestos simbólicos raramente substituem cálculos políticos. A história parlamentar brasileira demonstra que a insistência em pautas sem maioria consolidada costuma ampliar desgastes em vez de revertê los.
Também chama atenção o apoio de figuras experientes da esquerda, como Lindbergh Farias, à retomada da candidatura. Trata se de um parlamentar reconhecido justamente pela compreensão das dinâmicas do Congresso e pela leitura das disputas de poder. Por isso, a defesa da estratégia desperta dúvidas entre observadores que enxergam pouca probabilidade de mudança no comportamento do Senado.
Talvez a aposta esteja menos na aprovação imediata e mais na construção de uma narrativa política para a militância e para setores do eleitorado progressista. Ainda assim, permanece a questão sobre o custo institucional de transformar uma indicação ao STF em uma batalha cujo resultado parece previamente desfavorável.
Não por acaso, parte do governo já discute alternativas. A eventual indicação de uma mulher para a vaga surge não apenas como uma resposta à demanda por maior representatividade na Corte, mas também como uma tentativa de alterar os termos do debate político. Uma candidatura nova poderia reorganizar apoios, reduzir resistências acumuladas e criar constrangimentos distintos para os adversários.
No fim das contas, a discussão sobre Jorge Messias revela uma regra clássica da política: vontade não substitui correlação de forças. Governos podem desejar determinados resultados, partidos podem mobilizar argumentos legítimos e lideranças podem insistir em suas preferências. Mas, em sistemas democráticos baseados na negociação institucional, vitórias dependem da existência de maioria.
Se essa maioria não foi construída e não há evidências de que tenha surgido desde a rejeição anterior, a insistência corre o risco de converter uma derrota passada em uma derrota reiterada. E, na política, poucas coisas enfraquecem mais um governo do que perder duas vezes a mesma batalha.
JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira




COMENTÁRIOS