MK - Marcelo Kieling
A louca manhã de domingo que nos devolveu o tempo
A louca loucura ...
A louca manhã de domingo que nos devolveu o tempo
A louca loucura ...
Por Marcelo Kieling
Era uma manhã como tantas outras. Acordei, fiz a higiene matinal, preparei o café, liguei a TV para ver as notícias — e estava uma missa no ar. Não entendi nada. Desliguei e religuei o aparelho, e lá estava ela, a mesma missa, ocupando a tela como se o mundo tivesse parado. Foi quando minha mulher, meu doce amor e sonho de realidade, me avisou: hoje é domingo. Minha louca loucura.
Pode parecer apenas uma anedota doméstica, um lapso bobo de quem perdeu a noção dos dias. Mas essa pequena cena carrega uma verdade incômoda sobre o tempo em que vivemos. A vida, envolvida nesta fase da doença digital, nos transforma em escravos do calendário e de diversas loucuras temporárias. Perdemos o fio dos dias porque os dias já não se distinguem mais entre si. A rotina devorou o ritmo. O trabalho se infiltrou no descanso, as notificações rasgaram o silêncio, e o sagrado — aquele espaço de pausa, de respiro, de existir sem produzir — foi ocupado pelo ruído permanente.
A loucura, nesse sentido, não é a ausência de razão, mas o questionamento de uma razão teológica que nos impõe uma única maneira de viver. Foucault, o filósofo que se debruçou sobre os muros dos manicômios e as fronteiras do pensamento, nos ensina que a loucura é a negação da dialética, do progresso, da acumulação, da continuação. Ela é a descontinuidade que nos permite pensar diferente. É o desvio que faz o caminho — e não o caminho que tenta anular o desvio.
“Estendendo-me os braços, e seguros / De que seria bom que eu os ouvisse / Quando me dizem: ‘vem por aqui!’ / Eu olho-os com olhos lassos, / (Há, nos olhos meus, ironias e cansaços) / E cruzo os braços, / E nunca vou por ali...”
Há um cansaço que não é do corpo, mas da alma. É o esgotamento de quem vive empurrado por uma correnteza que não escolheu. Os dias viram fichas num dado invisível. Segunda, terça, quarta — os nomes dos dias perderam o sentido porque o sentido do que fazemos neles se esvaiu na repetição. Acordamos, cumprimos tarefas, dormimos, e recomeçamos. Até que um domingo qualquer, disfarçado de dia útil, nos pega desprevenidos e revela o absurdo.
A loucura não tem um denominador comum. Ela é muitas coisas. Pode ser tudo, muito mais, se deixarmos que siga seus caminhos em paz. Talvez o verdadeiro ato de sanidade neste mundo ensandecido seja justamente aceitar que a loucura mora em nós — e que não há problema nisso. Se, em nosso curto trajeto por aqui, não encontrarmos a loucura em si mesma, ao menos teremos visto nela o que jamais havíamos pensado.
Foi nesse estado de espírito que o domingo me encontrou. E o domingo, com sua luz mais branda, seu café bebido sem pressa, sua manhã que não cobra produtividade, me devolveu uma verdade simples: a vida acontece nos intervalos. No dia em que o relógio biológico insiste em funcionar como se fosse segunda, mas o calendário diz que é domingo, há uma brecha. Uma fresta por onde entra a possibilidade de reexistir — não como engrenagem, mas como pessoa.
“Eu preciso te falar / Te encontrar de qualquer jeito / Pra sentar e conversar / Depois andar de encontro ao vento / Eu preciso respirar / O mesmo ar que te rodeia / E na pele quero ter / O mesmo sol que te bronzeia.”
As palavras de Michael Sullivan, na voz de quem já cantou um dia de domingo, nos lembram que o afeto é o último reduto contra a mecanização da vida. O amor, a conversa, o encontro — esses sim não cabem em agendas, não se submetem a prazos, não se deixam capturar pela urgência dos dias úteis. O domingo é o dia do encontro. Consigo mesmo. Com o outro. Com o silêncio que nos falta.
“Faz de conta que ainda é cedo / Tudo vai ficar por conta da emoção / Faz de conta que ainda é cedo / E deixa falar a voz do coração.”
A loucura daquela manhã de domingo — acreditar que era segunda — me fez perceber o quanto estamos reféns de uma temporalidade que não nos pertence. O tempo virou mercadoria. Cada minuto é contabilizado, otimizado, monetizado. Até o lazer virou performance. Mas o domingo resiste. Ele ainda carrega o peso simbólico do descanso, da liturgia da pausa, da recusa em produzir.
A missa que ocupava a TV não era apenas um programa religioso. Era um lembrete incômodo de que o sagrado ainda existe — e de que o sagrado é, antes de tudo, o tempo que não se vende, o instante que não se troca por nada. A igreja, o sofá, o colo, a conversa fiada, o olhar demorado: eis os verdadeiros antídotos contra a loucura do tempo produtivo.
No fim das contas, a loucura não é acordar pensando que é segunda quando é domingo. A loucura é passar a vida inteira sem perceber que todos os dias poderiam ser domingo — se a gente soubesse parar. Se a gente ousasse cruzar os braços e, como no verso de Foucault, nunca ir por ali.
A loucura, talvez, seja a única sanidade que nos resta.
Ferramentas de IA foram utilizadas na elaboração deste conteúdo.Todo o conteúdo foi revisado por humanos.





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