MK - Marcelo Kieling
O colapso silencioso da educação brasileira
A herança interrompida: o que foram os CIEPs e por que seu abandono é tão sintomático
O colapso silencioso da educação brasileira
Como o abandono de projetos estruturantes, a expansão acrítica do ensino superior e a aprovação automática produziram uma geração despreparada para o mercado de trabalho
Por Marcelo Kieling
A herança interrompida: o que foram os CIEPs e por que seu abandono é tão sintomático
Os Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs) foram, sem exagero, o projeto educacional mais ambicioso já concebido no Brasil. Idealizados por Darcy Ribeiro e implementados por Leonel Brizola nos governos do Rio de Janeiro (1983-1987 e 1991-1994), os CIEPs propunham algo revolucionário para a realidade brasileira: educação pública em tempo integral, com jornada das 8h às 17h, alimentação completa, assistência médica e odontológica, atividades esportivas e culturais integradas ao currículo escolar.
A arquitetura — assinada por Oscar Niemeyer — era funcional e icônica. Mas o projeto ia muito além da forma física. Os CIEPs eram a materialização do que Darcy Ribeiro chamava de "escola necessária": uma instituição capaz de compensar as desigualdades estruturais oferecendo à criança da periferia exatamente aquilo que a criança de classe média já tinha em casa — tempo de estudo, estímulo intelectual, acompanhamento e dignidade.
O modelo se mostrou eficaz onde foi mantido: estudos longitudinais demonstraram que alunos que frequentaram CIEPs em tempo integral apresentaram melhor desempenho em avaliações posteriores e menor taxa de evasão escolar.
O que aconteceu com os CIEPs? Foram progressivamente abandonados. Muitos prédios hoje abrigam secretarias municipais, depósitos ou estão simplesmente deteriorados. Onde ainda funcionam como escolas, raramente mantêm a proposta de tempo integral ou o tripé pedagógico original. A transição de governos — especialmente aqueles de orientação política oposta — tratou o programa como "herança maldita" a ser desmontada, em vez de legado a ser aperfeiçoado.
O abandono dos CIEPs não foi fruto de avaliação técnica desfavorável. Foi decisionismo político: descontinuidade administrativa, sectarismo partidário e a visão de curto prazo que caracteriza a gestão pública brasileira. Cada novo governo quis criar "seu" programa, e o acúmulo de experiência foi simplesmente descartado.
Esse padrão se repete em escala nacional. O Brasil não tem uma política de Estado para a educação — tem políticas de governo que mudam a cada quatro anos, interrompendo ciclos de implementação que exigiriam, no mínimo, uma década para maturar.
Os CIEPs foram o projeto mais ambicioso de educação integral do Brasil e foram abandonados por descontinuidade política, não por avaliação técnica negativa
O paradoxo da expansão universitária sem critério técnico
Paralelamente ao abandono da educação básica de qualidade, o Brasil viveu nas últimas duas décadas uma expansão explosiva do ensino superior — especialmente via faculdades privadas e EaD. O número de matrículas saltou de menos de 3 milhões no início dos anos 2000 para mais de 9 milhões em 2023.
A expansão do ensino superior priorizou quantidade sobre qualidade, formando profissionais com diploma mas sem preparo para o mercado
O problema não é o acesso. O problema é que essa expansão ocorreu sem qualquer filtro de qualidade ou aderência às necessidades do mercado de trabalho. Dados do Censo da Educação Superior mostram que grande parte dos cursos ofertados tem baixa demanda de mercado, corpo docente precário (mestres e doutores contratados como horistas, sem vínculo ou dedicação) e infraestrutura mínima.
Qual o resultado? Formamos milhares de bacharéis em áreas saturadas, com formação genérica, enquanto faltam engenheiros, técnicos especializados e profissionais com competências digitais. O Brasil forma muito para o diploma e pouco para a capacidade real de entrega.
A proliferação de cursos superiores de qualidade discutível criou uma ilusão de meritocracia: o diploma vale cada vez menos no mercado, mas o custo da formação — em tempo e recursos — é cada vez maior. O resultado é uma geração endividada e frustrada com um certificado que não abre portas.
A aprovação automática e a pedagogia do "tanto faz"
A implementação da aprovação automática (progressão continuada) em redes estaduais e municipais — especialmente a partir dos anos 1990 — foi apresentada como solução para o problema histórico de distorção idade-série e evasão escolar. Na prática, produziu um efeito perverso: eliminou a reprovação sem garantir o aprendizado.
A lógica por trás da medida tinha fundamento pedagógico: reter o aluno no mesmo ano letivo raramente resolve o problema de aprendizado e frequentemente o empurra para a evasão. O erro foi implementar a progressão continuada sem o correspondente investimento em recuperação paralela, reforço escolar, redução de turmas e formação continuada de professores.
O que se viu foi o seguinte: o aluno passava de ano independentemente do desempenho, a escola perdia o poder de exigir, e a família recebia um boletim que não refletia a realidade. O resultado é que milhares de jovens chegam ao ensino médio sem dominar operações matemáticas básicas e sem capacidade de interpretação textual mínima.
Dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB) e do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA) são inequívocos: mais de 60% dos alunos brasileiros concluem o ensino fundamental sem nível adequado em matemática, e cerca de 50% em língua portuguesa. A aprovação automática, ao desconectar a certificação do aprendizado, institucionalizou o analfabetismo funcional.
Do despreparo ao mercado de trabalho
A falta de mão de obra qualificada é hoje um dos maiores gargalos do crescimento econômico brasileiro
A equação é simples, mas suas consequências são devastadoras:
· Educação básica frágil → jovem chega ao ensino médio sem repertório
· Ensino médio desestruturado → aluno não desenvolve habilidades técnicas ou cognitivas
· Universidade de baixa qualidade → diploma sem conteúdo
· Mercado de trabalho real → profissionais incapazes de resolver problemas, redigir relatórios, interpretar dados ou aprender novas funções
O resultado é um paradoxo que atravessa a economia brasileira: as empresas não encontram mão de obra qualificada, mesmo com milhões de desempregados. Pesquisas da CNI (Confederação Nacional da Indústria) e do ManpowerGroup apontam consistentemente que a falta de profissionais qualificados é um dos principais gargalos para o crescimento no Brasil.
O déficit não está apenas em áreas tecnológicas de ponta. Falta gente preparada para funções intermediárias — técnicos de manutenção, supervisores de produção, analistas de processos, assistentes administrativos com capacidade de gestão. Ou seja, a educação brasileira falha em entregar tanto o pensador crítico quanto o técnico competente.
Por que a política não avança?
Cinco fatores estruturais explicam a paralisia:
l Ciclo eleitoral curto: políticas educacionais maduras demandam 10 a 15 anos. Governos de 4 anos preferem obras visíveis a projetos de maturação lenta.
l Custo político do rigor: cobrar resultado, reprovar aluno que não aprendeu e fechar curso universitário sem padrão de qualidade gera desgaste imediato com eleitores, estudantes e corporações.
l Descontinuidade administrativa: cada secretário de educação quer "marcar época" com seu próprio programa. O conhecimento acumulado é descartado.
l Captura corporativa: sindicatos e associações pressionam por pautas que nem sempre coincidem com o interesse público. A aprovação automática, por exemplo, foi defendida por setores do sindicalismo docente como "inclusão", sem contrapartida de qualidade.
l Falta de pressão social organizada: educação não elege ninguém sozinha. A sociedade brasileira não se mobiliza por reforma educacional com a mesma intensidade que se mobiliza por pautas distributivas imediatas.
Sugestões de encaminhamentos
O diagnóstico é conhecido. As soluções também:
· Retomar o conceito de escola em tempo integral com base no que funcionou nos CIEPs, adaptado à realidade do século XXI — com ênfase em tecnologia, formação técnica e desenvolvimento socioemocional.
· Vincular a expansão do ensino superior a indicadores de qualidade e empregabilidade, com regulação efetiva e transparência de resultados por curso e instituição.
· Revisar a política de progressão continuada, mantendo o princípio de não exclusão mas reintroduzindo mecanismos de exigência, recuperação paralela efetiva e ciclos de aprendizado com metas verificáveis.
· Criar uma carreira docente atraente, com formação continuada, avaliação por desempenho e remuneração compatível com a responsabilidade — condição sem a qual nenhuma reforma educacional funcionará.
O Brasil já teve um projeto educacional de nível internacional — os CIEPs — e o abandonou por mesquinharia política. Repetiu o erro ao expandir o ensino superior sem qualidade e ao implementar a aprovação automática sem contrapartida de aprendizado. O resultado é uma geração despreparada, um mercado de trabalho que não encontra talento e um país que perpetua seu subdesenvolvimento.
A pergunta que fica é: quantos CIEPs precisaremos abandonar até aprender que educação não é despesa — é a única política industrial, social e econômica que funciona ao mesmo tempo?
Precisamos mudar o Brasil. Vamos?
Ferramentas de IA foram utilizadas na elaboração deste conteúdo. Todo o conteúdo foi revisado por humanos.





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