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Barra Mansa,18/05/2026

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    JJ

    Há uma certa perplexidade em mim.

    Pergunto, sinceramente, o que será de nós?


    Há uma certa perplexidade em mim. Foucault - A Voz da Loucura • Razão Inadequada

    Há uma certa perplexidade em mim.

    Por JJ

    Talvez porque a cada semana o Brasil pareça condensar quinze dias de acontecimentos. Tudo acontece ao mesmo tempo, em excesso, sem pausa para reflexão, sem tempo sequer para o espanto amadurecer.

    O fato de um pai, uma avó e uma madrasta manterem uma criança de onze anos acorrentada até a morte deveria, sozinho, ser suficiente para interromper qualquer normalidade. Um país inteiro deveria parar diante de algo assim. Mas não para. No dia seguinte já estamos mergulhados em outra insanidade coletiva.

    Pessoas bebendo detergente da Ypê porque acreditam que a Anvisa, a Vigilância Sanitária de São Paulo e até a prefeitura de Amparo estariam mancomunadas contra a empresa, supostamente por questões políticas ligadas ao bolsonarismo. A fronteira entre realidade e delírio coletivo vai ficando cada vez mais enevoada.

    Na sequência, a explosão criminosa envolvendo a Sabesp privatizada e a Comgás mal administrada mata pessoas, destrói casas, espalha famílias pelas ruas. E então vem o detalhe que parece roteiro de humor ácido, não de vida real, para indenizar as vítimas, a Sabesp exige três orçamentos de pedreiros de cada família atingida. Seria cômico, se trágico não fosse.

    E para encerrar a semana, surge mais um capítulo da nossa crônica política tropical. Um candidato da extrema direita, cercado por escândalos de machadinhas, vendas inacreditáveis de chocolates, imóveis comprados com dinheiro vivo, aparece em conversa com o mafioso André Esteves Vorcaro, personagem já associado a operações nebulosas contra a economia popular brasileira, pedindo ao irmão cento e trinta e quatro milhões de reais. Ao final da conversa, a frase que parece resumir o espírito da época, “entre nós não tem curva, conte comigo sempre”.

    O mais espantoso talvez nem sejam os fatos em si. O mais perturbador é que, diante de tudo isso, metade do país continue olhando para esses grupos políticos como alternativa legítima de poder. Não se trata mais apenas de divergência ideológica. Existe algo mais profundo acontecendo. Uma erosão moral, uma banalização do absurdo, uma fadiga coletiva que normaliza o grotesco.

    E então eu me pergunto, sinceramente, o que será de nós?

    Porque quando o absurdo deixa de provocar vergonha e passa a produzir engajamento, aplauso e intenção de voto, talvez o problema já não esteja apenas nos personagens dessa tragédia brasileira. Talvez a doença seja mais funda, mais social, mais cultural, mais emocional do que imaginávamos.

    Há uma certa perplexidade em mim, sim.

    E confesso que ela cresce a cada semana.


    JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira



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