JJ
É Preciso Saber Viver
Uma diferença importante entre coragem política e voluntarismo político
É Preciso Saber Viver
Por JJ
A política brasileira vive uma perigosa banalização das cassações de mandato. Retirar de um parlamentar o cargo conferido pelas urnas deveria ser sempre uma medida extrema, reservada a situações absolutamente inequívocas e graves. No entanto, o país parece ter naturalizado esse expediente como parte da disputa política cotidiana, o que representa um desrespeito não apenas ao eleito, mas sobretudo ao voto popular.
É dentro dessa reflexão que observo o caso do deputado estadual Renato Freitas. Não conheço pessoalmente o jovem parlamentar, mas ao assistir alguns de seus vídeos e manifestações públicas, vejo alguém talentoso, estudioso, corajoso e, aparentemente, comprometido com as causas que defende. Por isso mesmo, sou contrário à cassação de seu mandato.
Entretanto, ser contra a cassação não significa concordar integralmente com sua forma de fazer política.
Há uma diferença importante entre coragem política e voluntarismo político. Muitas vezes, a atuação do deputado parece desprovida de mediação, de compreensão tática e, principalmente, de leitura da correlação de forças. A política institucional, gostemos ou não, exige capacidade de construir maioria, acumular força, dialogar e transformar indignação em resultados concretos.
A figura do parlamentar que assume permanentemente o papel de herói dos fracos e oprimidos, uma espécie de “Zé do Caroço” de terno e gravata, pode gerar forte impacto simbólico nas redes sociais, mas frequentemente produz poucos efeitos reais na vida das pessoas. O denuncismo permanente, especialmente quando centrado quase exclusivamente na retórica da “luta contra a corrupção”, corre o risco de priorizar a forma em detrimento do conteúdo. E isso, historicamente, muitas vezes serviu mais ao moralismo reacionário do que à transformação social efetiva.
A política não deveria existir para produzir cortes virais, lacrações ou conflitos performáticos destinados ao engajamento digital. O mandato parlamentar deveria ser, acima de tudo, um instrumento voltado à construção de políticas públicas, leis e medidas concretas que melhorem objetivamente a vida da população.
É evidente que a denúncia, a fiscalização e a firmeza fazem parte da atividade política. Mas quando o debate público se reduz a provocações permanentes, palavras de ordem e confrontos incessantes, o resultado prático tende a ser mínimo. Ganha-se visibilidade, perdem-se pontes. Ganha-se repercussão, perde-se capacidade de realização.
A política real não funciona como os filmes de super-herói. Batman pode combater criminosos sozinho em Gotham City porque Gotham é ficção. Na vida concreta, mudanças sociais exigem articulação, maioria, paciência estratégica e capacidade de negociação. Até mesmo as causas mais justas fracassam quando confundem coragem com impulsividade.
Defender o mandato de um parlamentar eleito democraticamente não obriga ninguém a transformar sua atuação em modelo ideal de ação política. É possível, ao mesmo tempo, rejeitar a cassação e fazer críticas sérias ao método adotado. Aliás, talvez seja justamente essa maturidade que esteja faltando ao debate público brasileiro, menos idolatria, menos demonização e mais lucidez.
JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira




COMENTÁRIOS