MK - Marcelo Kieling
A DESORDEM COMO MÉTODO:
QUANDO O ESPETÁCULO SUBTRAI A POLÍTICA
A DESORDEM COMO MÉTODO:
QUANDO O ESPETÁCULO SUBTRAI A POLÍTICA
Por Marcelo Kieling
Uma reflexão sobre a degradação da esfera pública e a erosão da autoridade institucional no Brasil contemporâneo
1. O Cenário das Sombras e das Luzes Artificiais
O Brasil de maio de 2026 apresenta-se como um cenário de contrastes profundos, onde a gravidade dos fatos parece travar uma batalha inglória contra a frivolidade das narrativas. De um lado, o país observa, com uma mistura de fadiga e apreensão, o desenrolar de investigações financeiras de proporções sistêmicas. As delações e auditorias envolvendo instituições como o Banco Master e o BRB não são apenas notas de rodapé no caderno de economia; elas representam grades fissuras na confiança do mercado e na integridade das relações entre o capital e o poder público. São temas que exigem sobriedade, análise técnica e uma resposta institucional robusta.
Contudo, ao desviarmos o olhar para a arena política cotidiana, o que encontramos não é o debate sobre o saneamento dessas crises, mas um noticiário tomado por episódios que beiram o surrealismo. Enquanto o "subsolo" da República é sacudido por questões de solvência e ética financeira, a superfície é ocupada por discussões sobre inspeções de detergentes, convocações de jogadores de futebol por parlamentares e uma paralisia legislativa programada. Este contraste não é acidental. Ele revela uma grave patologia da nossa democracia: a substituição da política substantiva pelo espetáculo da desordem. Vivemos um momento em que o ruído não apenas mascara o sinal, mas torna-se o próprio método de governança e oposição.
2. Primeiro Ato: A Espetacularização da Burocracia Estatal
Recentemente, uma operação de rotina de uma agência reguladora em uma fabricante de produtos de limpeza tornou-se o epicentro de uma tempestade digital. O que deveria ser um ato administrativo estrito — a verificação de conformidade técnica de detergentes — foi capturado por lentes ideológicas e transformado em um evento de "perseguição política". Em questão de horas, a inspeção fiscal foi transmutada em munição para a reacionária extrema-direita radical, alimentando teorias conspiratórias sobre o sufocamento do empreendedorismo por um Estado supostamente vingativo.
Sociologicamente, este fenômeno representa a espetacularização da burocracia. Quando as funções rotineiras do Estado perdem sua aura de neutralidade técnica e passam a ser interpretadas exclusivamente sob a lógica do conflito partidário, a própria administração pública se inviabiliza. Jürgen Habermas, em sua teoria sobre a esfera pública, argumentava que a democracia depende de um espaço onde o debate racional e a busca pelo entendimento mútuo prevaleçam. O que vemos hoje é a degradação absoluta dessa esfera. A discussão técnica sobre normas sanitárias ou fiscais é substituída pelo choque estético e pela desconfiança sistemática. Se cada fiscal é visto como um agente ideológico, o contrato social que permite a regulação da vida comum se rompe, restando apenas o caos das interpretações.
3. Segundo Ato: O Mandato Parlamentar e a Fuga para a Frivolidade
Se a burocracia é atacada por fora, o Poder Legislativo parece sofrer de uma erosão interna de propósito. O episódio de um deputado federal que utilizou seu papel timbrado e seu tempo de mandato para redigir uma carta formal à Confederação Brasileira de Futebol (CBF), exigindo a convocação de um jogador específico, é o ápice do que podemos chamar de "amadorismo institucional". Não se trata de uma crítica ao futebol, paixão que une o país, mas de um questionamento sobre o senso de prioridade de quem detém uma parcela da soberania popular.
O mandato parlamentar é um recurso escasso e caro. Quando um representante eleito para legislar sobre saúde, educação e segurança dedica sua energia a opinar sobre a escalação da seleção nacional, ocorre um esvaziamento simbólico da função pública. Este comportamento revela um sistema de incentivos perverso: na economia da atenção das doentias redes sociais, uma carta sobre futebol gera mais engajamento e visibilidade do que a relatoria de um projeto de lei complexo. O parlamentar, ciente disso, abdica da sua função de statesman para atuar como um influencer de nicho. O resultado é a infantilização do debate político, onde o acessório ocupa o lugar do fundamental, e o público é tratado como uma torcida, não como uma cidadania exigente.
4. Terceiro Ato: A Paralisia como Estratégia Eleitoral
O terceiro elemento deste padrão de desordem é a iminente paralisia do Congresso Nacional. Após a votação da PEC da escala 6x1 — um tema de apelo popular imediato e alta voltagem emocional —, a informação que circula nos corredores de Brasília é de que os trabalhos legislativos serão virtualmente interrompidos até o término das eleições municipais. Esta "folga branca" é a normalização de um vácuo de governança que o Brasil não pode se dar ao luxo de manter.
A paralisia legislativa em anos eleitorais não é uma novidade, mas sua aceitação passiva é um sintoma de anomia institucional. O Parlamento, que deveria ser a arena do debate contínuo, opera em ciclos que ignoram a urgência dos problemas nacionais. Enquanto o Congresso para, os investimentos represam, as políticas públicas ficam em suspenso e a confiança nas instituições declina. Esta desordem é funcional para aqueles que preferem o imobilismo à responsabilidade de decidir sobre temas espinhosos. O Brasil possui um dos calendários eleitorais mais extensos e exaustivos do mundo, e a simbiose entre a campanha permanente e a inércia legislativa cria um ambiente onde o Estado brasileiro parece estar sempre "em manutenção", nunca em funcionamento pleno.
5. O Padrão Subjacente: A Desordem como Método
Ao analisarmos esses três episódios de forma isolada, poderíamos vê-los como meras anedotas de um país peculiar. No entanto, a análise sociopolítica revela um padrão deliberado. A desordem não é um acidente de percurso; ela é o método. Vivemos uma crise profunda de autoridade epistêmica. Em termos simples, perdemos a capacidade coletiva de confiar em instituições ou indivíduos para separar o que é relevante do que é irrelevante, o que é fato do que é farsa.
Nesse ambiente de absoluta névoa informacional, a extrema-direita radical e outros movimentos populistas não apenas criam a desordem, mas a capitalizam com maestria. Quanto mais caótico o cenário, mais fácil se torna vender soluções simplistas ou narrativas conspiratórias. A deslegitimação das agências reguladoras, o esvaziamento dos mandatos e a paralisia do Congresso convergem para um único ponto: a clara demonstração de que as instituições democráticas são "inúteis" ou "corruptas". É a aplicação prática do conceito de anomia de Émile Durkheim, adaptado à política moderna: quando as normas que regulam o comportamento público perdem sua força vinculante, o absurdo deixa de ser a exceção e passa a ser a regra de vergonhosa conduta.
6. O Que Está em Jogo: A Normalização do Absurdo
O risco real que corremos não é apenas o de uma má gestão temporária, mas o de uma corrosão irreversível da confiança pública. Quando o cidadão comum observa que o noticiário alterna entre escândalos financeiros bilionários e deputados discutindo futebol, a reação natural é o cinismo. Tudo passa a ser visto como "teatro". E quando a política é reduzida ao teatro, a indignação genuína — o motor das mudanças sociais — se dissipa em meio ao riso amargo ou à apatia.
A consequência mais perigosa é a normalização do absurdo. Infelizmente, acostumamo-nos com o inaceitável. Aceitamos que o Congresso pare por meses, que fiscais sejam ameaçados por cumprir a lei e que o debate público seja pautado por memes. Essa habituação ao ridículo nos retira a capacidade de reagir com a gravidade necessária quando crises reais, como as do Banco Master e do BRB, ameaçam a estabilidade econômica. Se tudo é espetáculo, nada é verdadeiramente grave.
7. Conclusão: Em Busca do Pudor Institucional
O Brasil não sofre de falta de leis ou de excesso de regulação; sofre de uma carência aguda de qualidade institucional e de responsabilidade política. A saída para este labirinto de espelhos não virá de novas reformas burocráticas, mas de um resgate do que podemos chamar de pudor institucional. É necessário que o custo político da frivolidade seja elevado. Um parlamentar deveria sentir-se constrangido, e não recompensado, ao gastar seu capital político com temas alheios à sua função.
A sociedade brasileira precisa reencontrar a capacidade de se envergonhar do que é vergonhoso. Precisamos exigir que o palco da política seja ocupado por atores que compreendam a gravidade do seu papel. A desordem só persiste enquanto houver plateia disposta a aplaudir o espetáculo do absurdo. É hora de exigir menos entretenimento e mais governança, menos ruído e mais sinal.
A única solução é o FIM DAS REELEIÇÕES PARA TODOS OS CARGOS ELETIVOS.
O Brasil não precisa de mais espetáculo. Precisa de menos palco e mais palanque — e de políticos que saibam, finalmente, a diferença entre um e outro.
Precisamos mudar o Brasil. Vamos?
Ferramentas de IA foram utilizadas na elaboração deste conteúdo. Todo o conteúdo foi revisado por humanos.





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