JJ
Sacanagem com Fé!
O carnê da salvação eterna ...
Sacanagem com Fé!
Por JJ
Deus, dizem, criou o homem à sua imagem e semelhança. O homem, por sua vez, criou o carnê da fé, o boleto ungido e a promoção espiritual em doze vezes sem juros no débito automático celestial.
A notícia da fiel que doou mais de meio milhão para a igreja e depois teve a doação anulada pela Justiça provocou espanto. Não pelo valor, claro. Brasileiro já viu gente vender voto por dentadura, rinoceronte virar vereador e coach ensinar rico a acordar às cinco da manhã para ficar milionário. O espanto foi descobrir que, aparentemente, Deus agora precisa devolver PIX.
A mulher entregou dinheiro, carro, patrimônio, praticamente só não entregou o CPF porque provavelmente já estava em nome do Espírito Santo Holdings Ltda.
Segundo a decisão, ela estava vulnerável. Vulnerável é uma palavra elegante. Porque, convenhamos, alguém convencer uma pessoa a entregar tudo o que possui em troca de prosperidade futura é uma mistura de telemarketing emocional com pirâmide metafísica.
E o mais fascinante é a criatividade do mercado religioso moderno. Antigamente, milagre envolvia multiplicar pães. Hoje, multiplica-se campanha. É a Fogueira Santa, o Desafio dos 318, o Jejum da Vitória, a Corrente do Envelope Marrom Premium Gold Edition. Falta só lançarem o “Cashback Celestial”, onde a cada dez dízimos o fiel ganha uma oração grátis e meia água ungida.
A Justiça decidiu que ninguém pode doar tudo e ficar sem o mínimo para sobreviver. Uma conclusão revolucionária no Brasil de 2026, onde aparentemente precisou o STJ lembrar que o cidadão deve comer antes de financiar o estacionamento do Apocalipse.
Mas o debate é profundo. Porque fé é uma coisa linda. O problema começa quando ela ganha metas trimestrais, setor comercial e gerente regional de milagres.
Tem pastor que fala de prosperidade com tanto entusiasmo que parece vendedor de consórcio em fim de expediente. “Irmão, entregue tudo a Deus.” Curiosamente, Deus mora sempre na conta bancária da instituição.
E o fiel acredita. Porque a dor humana é um território perigosíssimo. Gente desesperada compra qualquer esperança, inclusive as embaladas em versículos motivacionais e microfone headset.
A parte mais irônica é imaginar o próprio Deus observando isso tudo lá de cima, talvez encostado numa nuvem, olhando para São Pedro e perguntando:
“Eu multipliquei peixe… em que momento começaram a pedir carro seminovo?”
No fundo, o STJ apenas reconheceu algo simples: fé não pode ser licença para transformar desespero em ativo financeiro.
Porque uma coisa é entregar a alma a Deus.
Outra, bem diferente, é financiar o templo em 72 parcelas ungidas no carnê da salvação eterna.
JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira




COMENTÁRIOS