JJ
Viva a Luta dos Trabalhadores
A história não mente.
Viva a Luta dos Trabalhadores
Por JJ
Há datas que não passam, elas nos atravessam. O Primeiro de Maio não é feriado, é memória em brasa, lembrança incômoda de que todo direito nasceu como afronta e quase sempre terminou em repressão. A imagem diante de mim não é apenas uma fotografia antiga, é um recorte de luta. Ali está Luiz Carlos Prestes, carregando o peso de um século que tentou dobrá-lo sem conseguir. Ao lado, minha madrinha, a inesquecível Beth Carvalho, com o sorriso de quem sabia que cultura também é trincheira. E a presença de Taiguara, cuja voz foi tantas vezes silenciada por dizer o que o poder não tolera. Essa imagem não é nostalgia, é denúncia.
O sistema aprendeu a se refinar. Já não precisa sempre do cassetete visível, embora ainda o use. Tornou-se difuso, aceitável, eficiente. Transformou exploração em rotina, precarização em oportunidade, cansaço em mérito. Convenceu milhões de que sobreviver exausto é vitória pessoal. O trabalhador de hoje não é menos explorado que o de ontem, apenas foi convencido de que é livre. A jornada que antes era imposta pela força agora se sustenta pelo medo, medo do desemprego, da fome, de desaparecer. A engrenagem continua girando, alimentada por corpos cansados e mentes anestesiadas, e o mais perverso, muitos já não a enxergam.
A história não mente. Cada direito foi arrancado, nunca presente, nunca concessão generosa. Foi conflito, organização, enfrentamento. Por isso essa data incomoda, porque lembra que nada está garantido. A fotografia, silenciosa, grita. Houve um tempo em que homens e mulheres se levantaram não apenas para melhorar de vida, mas para transformar o sentido da própria existência. Não aceitavam viver para trabalhar, lutavam para trabalhar e viver. Hoje a lógica se inverteu, vive-se para manter a máquina funcionando.
A escala 6 por 1, herança disfarçada de normalidade, é o retrato fiel desse modelo. Seis dias de entrega, um de respiro. Seis dias de desgaste, um de recomposição insuficiente. Não é equilíbrio, é contenção. Não é organização, é controle. Chamam de produtividade, mas é exaustão programada. Chamam de competitividade, mas é submissão generalizada. Chamam de escolha, mas é ausência de alternativa. A verdade é simples, não há desenvolvimento quando a vida é consumida pelo trabalho, não há progresso quando o tempo livre vira luxo, não há dignidade quando o descanso é privilégio.
A história já mostrou o caminho. Reduzir a jornada nunca foi o fim do crescimento, foi o início de uma sociedade mais justa. A fotografia não pede saudade, exige continuidade. Lutar por menos horas não é utopia, é coerência histórica. Defender salário integral não é radicalismo, é justiça elementar. Recusar a escala que esgota não é rebeldia, é sobrevivência consciente. O Primeiro de Maio não admite discursos mornos, ele existe para lembrar que o mundo só mudou quando alguém disse basta. Basta. Redução da jornada de trabalho, sem redução de salários. Fim da escala 6 por 1. Não como concessão, como direito. Não como proposta, como necessidade. Porque nenhuma sociedade pode se dizer livre enquanto seu povo vive cansado demais para lutar.
JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira




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