Fernanda Medeiros
Por que precisamos ter razão?
Quando vencer uma discussão se torna mais importante do que compreender o outro
Por que precisamos ter razão?
Quando vencer uma discussão se torna mais importante do que compreender o outro
“Não foi isso que aconteceu.”
“Foi exatamente isso.”
“Você entendeu errado.”
“Eu lembro perfeitamente.”
“Você sempre faz isso.”
“Eu nunca disse isso.”
Uma conversa que começou tentando resolver um problema, pouco a pouco, transforma-se em outra coisa.
Já não estamos discutindo apenas o que aconteceu.
Estamos tentando descobrir quem está certo.
Isso acontece entre casais, pais e filhos, amigos, colegas de trabalho e pessoas que se conhecem há décadas. Em determinado momento, solucionar o conflito parece perder importância diante de uma necessidade muito maior: fazer o outro reconhecer que a nossa versão é a correta.
Mas por que precisamos tanto ter razão?
E, principalmente, o que acontece com uma relação quando vencer a discussão passa a ser mais importante do que compreender quem está diante de nós?
Ter razão também significa ser validado
Nem toda necessidade de estar certo nasce simplesmente de arrogância.
Quando defendemos nossa versão de um acontecimento, muitas vezes estamos defendendo também nossa própria experiência.
Queremos que o outro reconheça:
“Isso realmente aconteceu.”
“Você tem motivos para ter se sentido assim.”
“Eu entendo por que isso foi importante para você.”
Por isso, quando alguém contesta nossa interpretação, podemos sentir algo maior do que uma simples discordância.
Podemos experimentar a sensação de que aquilo que vivemos está sendo invalidado.
E então passamos a reunir provas.
Relembramos frases.
Reconstruímos conversas.
Procuramos mensagens antigas.
Tentamos demonstrar, detalhe por detalhe, que nossa percepção é legítima.
O conflito deixa de ser apenas sobre o acontecimento.
Passa a ser também sobre o direito de definir o que aconteceu.
Duas pessoas podem viver a mesma situação de maneiras diferentes
Existe algo importante sobre a experiência humana: não registramos a realidade como uma câmera.
Nossa atenção é seletiva.
Nossa memória reconstrói acontecimentos.
Nossas emoções influenciam aquilo que percebemos e aquilo que posteriormente recordamos.
Duas pessoas podem participar da mesma conversa e sair dela com lembranças e significados diferentes.
Uma pode lembrar exatamente das palavras utilizadas.
A outra pode recordar principalmente o tom.
Uma pode considerar determinada frase irrelevante.
Para a outra, aquela mesma frase pode ter sido justamente o ponto mais importante da conversa.
Isso não significa necessariamente que alguém esteja mentindo.
Significa que experiências humanas são atravessadas pela subjetividade.
Há fatos objetivos, naturalmente.
Uma mensagem foi ou não enviada.
Uma pessoa estava ou não em determinado lugar.
Determinada frase pode estar registrada.
Mas o significado emocional atribuído ao acontecimento pode ser diferente para cada pessoa.
E muitos conflitos começam justamente quando tentamos transformar nossa experiência subjetiva na única versão possível da realidade.
“Não foi minha intenção”
Essa talvez seja uma das frases mais comuns em conflitos.
“Eu não tive intenção de machucar você.”
Ela pode ser absolutamente verdadeira.
Mas existe uma diferença entre intenção e impacto.
Podemos não ter desejado ferir alguém e ainda assim reconhecer que alguma atitude produziu sofrimento.
O problema aparece quando usamos nossa intenção para invalidar a experiência do outro:
“Se eu não quis machucar, você não deveria ter se sentido machucado.”
Uma coisa não elimina necessariamente a outra.
É possível dizer:
“Não foi minha intenção.”
E acrescentar:
“Mas consigo compreender que tenha produzido esse efeito em você.”
Esse movimento não exige assumir uma culpa que não existe.
Exige apenas reconhecer que nossas atitudes também são experimentadas por outra pessoa.
A armadilha do “mas”
Alguns pedidos de desculpas duram poucos segundos.
“Desculpa, mas você também…”
“Eu reconheço que errei, mas você começou.”
“Eu não deveria ter falado aquilo, mas você me provocou.”
A palavra “mas” rapidamente devolve a conversa ao tribunal.
O pedido de desculpas deixa de ser reconhecimento e passa novamente a distribuir responsabilidades.
Naturalmente, um conflito pode envolver erros de ambas as partes.
Reconhecer aquilo que fizemos não significa afirmar que o outro agiu perfeitamente.
Mas talvez não seja necessário resolver tudo na mesma frase.
Podemos assumir nossa parcela sem imediatamente exigir que o outro assuma a dele.
Responsabilizar-se não significa perder.
Quando a conversa vira um julgamento
Existem discussões em que cada pessoa começa a desempenhar vários papéis ao mesmo tempo.
Somos parte.
Advogado.
Testemunha.
E juiz.
Apresentamos nossos argumentos, selecionamos provas favoráveis à nossa versão e aguardamos uma sentença que confirme aquilo que já decidimos:
“Eu estou certo.”
O outro faz exatamente o mesmo.
E duas pessoas que talvez tenham iniciado uma conversa porque desejavam preservar uma relação terminam tentando derrotar uma à outra.
É nesse momento que uma pergunta pode ser particularmente útil:
Você quer resolver o conflito ou quer que o outro admita que você estava certo?
As duas coisas nem sempre acontecem juntas.
Compreender não é concordar
Talvez uma das maiores dificuldades nas relações seja perceber que podemos compreender a experiência de alguém sem necessariamente concordar com sua interpretação.
Podemos dizer:
“Entendo por que você ficou magoado.”
Sem dizer:
“Você está certo sobre tudo.”
Podemos reconhecer:
“Agora consigo perceber como aquilo pareceu para você.”
Sem abandonar nossa própria perspectiva.
Compreender significa admitir que existe uma experiência além da nossa.
Isso não transforma todas as versões em igualmente verdadeiras.
Também não significa relativizar fatos, comportamentos abusivos, violência ou responsabilidades objetivas.
Existem situações nas quais limites foram efetivamente ultrapassados e responsabilidades precisam ser reconhecidas.
Mas grande parte dos conflitos cotidianos não acontece em um tribunal.
E relações não precisam necessariamente produzir um vencedor e um derrotado.
Algumas discussões escondem outras necessidades
Às vezes, passamos horas discutindo um acontecimento aparentemente pequeno.
Uma mensagem não respondida.
Um compromisso esquecido.
Uma frase dita de determinada maneira.
Um atraso.
Uma decisão tomada sem consultar o outro.
Mas talvez a discussão não seja apenas sobre aquilo.
Por trás dela podem existir perguntas muito maiores:
“Eu sou importante para você?”
“Você me escuta?”
“Posso confiar em você?”
“Você considera aquilo que sinto?”
“Meu lugar nesta relação é seguro?”
Quando essas necessidades não conseguem ser expressas diretamente, podemos discutir detalhes durante horas sem chegar ao verdadeiro conflito.
Talvez ninguém esteja procurando apenas ter razão.
Talvez esteja procurando ser reconhecido.
O preço de vencer
É possível vencer uma discussão.
Encontrar a mensagem.
Provar a data.
Demonstrar a contradição.
Fazer o outro admitir:
“Você estava certo.”
E ainda assim terminar a conversa com uma relação mais distante do que estava antes.
Por isso, algumas vitórias merecem ser questionadas.
O que exatamente ganhamos?
E o que aconteceu com o vínculo enquanto tentávamos ganhar?
Isso não significa abrir mão de nossas convicções para preservar qualquer relação.
Existem momentos em que precisamos sustentar nossa posição.
Existem limites que não devem ser negociados.
Existem fatos que não podem ser modificados para produzir uma falsa harmonia.
Mas há também situações em que insistimos em uma vitória que não produzirá reparação alguma.
Talvez a pergunta possa ser outra
Em vez de perguntar apenas:
“Quem está certo?”
Talvez possamos perguntar:
“O que aconteceu entre nós?”
“O que você entendeu quando eu disse aquilo?”
“O que eu não percebi?”
“O que essa situação produziu em você?”
“O que precisamos fazer diferente daqui para frente?”
Essas perguntas não eliminam responsabilidades.
Elas apenas deslocam a conversa do julgamento para a compreensão.
E talvez algumas relações precisem exatamente disso.
Não de um veredicto.
Mas de duas pessoas capazes de reconhecer que aquilo que aconteceu entre elas pode ter sido vivido de maneiras diferentes.
Às vezes, uma relação não precisa descobrir quem venceu a discussão.
Precisa compreender o que aconteceu com cada pessoa dentro dela.
Talvez amadurecer emocionalmente não seja aprender a perder discussões.
Seja perceber que algumas delas sequer precisavam ter um vencedor.
Há momentos em que dizer “consigo entender por que você viveu dessa maneira” não significa admitir que toda a interpretação do outro esteja correta.
Significa apenas reconhecer que existe uma experiência além da nossa.
Porque podemos ganhar uma discussão e, ainda assim, perder exatamente aquilo que estávamos tentando preservar: a relação.
Fernanda Medeiros
Psicóloga Clínica e Jurídica
Perita Judicial e Assistente Técnica
CRP-SC 12/02536 | CRP-RJ 05/300859




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