Fernanda Medeiros
Seu voto é tão racional quanto você imagina?
O que a Psicologia pode nos ensinar sobre emoções, crenças e escolhas em tempos de eleição
Seu voto é tão racional quanto você imagina?
O que a Psicologia pode nos ensinar sobre emoções, crenças e escolhas em tempos de eleição
Em poucas semanas, milhões de brasileiros irão às urnas.
Durante uma campanha eleitoral, somos convidados a comparar propostas, trajetórias, discursos e projetos para o país. Em princípio, poderíamos imaginar esse processo como uma escolha essencialmente racional: reunimos informações, analisamos alternativas e tomamos uma decisão.
Mas seres humanos não funcionam dessa maneira.
Não deixamos nossas emoções do lado de fora quando pensamos em política.
Também levamos conosco nossa história, valores, medos, experiências, vínculos sociais, expectativas e crenças anteriores.
Isso não significa que o eleitor seja incapaz de fazer escolhas conscientes.
Significa apenas reconhecer algo que a Psicologia estuda há muito tempo: nossa percepção da realidade não é completamente neutra.
E compreender isso pode ser especialmente importante em períodos eleitorais.
Nós não procuramos informações de maneira neutra
Imagine duas pessoas com posições políticas diferentes assistindo ao mesmo debate.
Um candidato comete uma falha.
Uma delas interpreta:
“Foi apenas um erro.”
A outra conclui:
“Isso demonstra que ele não está preparado.”
Minutos depois, o adversário comete uma falha semelhante.
Curiosamente, as interpretações podem se inverter.
Isso acontece porque tendemos a processar informações novas também a partir daquilo em que já acreditamos.
Um dos fenômenos conhecidos pela Psicologia é o chamado viés de confirmação: nossa tendência a buscar, perceber ou valorizar mais facilmente informações compatíveis com crenças que já possuímos.
E isso não acontece apenas com “os outros”.
Acontece conosco.
Reconhecer essa possibilidade talvez seja uma das partes mais difíceis do pensamento crítico.
Quando o candidato deixa de ser candidato e vira identidade
Política também envolve pertencimento.
Família, religião, região, classe social, profissão, experiências pessoais e grupos com os quais nos identificamos podem participar da construção das nossas posições políticas.
Em determinadas circunstâncias, porém, uma preferência política deixa de ser apenas uma escolha e passa a integrar fortemente a identidade da pessoa.
A crítica ao candidato pode então ser experimentada quase como uma crítica pessoal.
Nesse momento, discutir ideias se torna mais difícil.
Se alguém questiona “meu lado”, posso sentir que está questionando meus valores, minha inteligência ou o grupo ao qual pertenço.
A conversa deixa de ser:
“Essa informação é verdadeira?”
E passa a ser:
“Quem está dizendo isso está do meu lado ou contra mim?”
Quando isso acontece, fatos podem perder espaço para pertencimento.
Emoções também participam da decisão
Campanhas políticas sabem que propostas importam.
Mas emoções também importam.
Esperança mobiliza.
Medo mobiliza.
Indignação mobiliza.
Identificação mobiliza.
A sensação de ameaça pode fazer com que determinados temas adquiram uma importância muito maior. A esperança de mudança pode aumentar nossa disposição para acreditar em determinadas promessas.
Isso não significa que emoções sejam inimigas da razão.
Não existe decisão humana completamente separada da experiência emocional.
O problema surge quando uma emoção intensa reduz nossa disposição para examinar informações que contradizem aquilo que queremos acreditar.
Quanto maior a indignação, por exemplo, maior pode ser a vontade de compartilhar imediatamente uma informação que confirme aquilo que já pensamos.
E é justamente nesse momento que talvez precisemos fazer o contrário: parar.
“Eu sabia!”
Poucas sensações são tão satisfatórias quanto encontrar uma informação que confirma aquilo em que já acreditávamos.
Uma notícia aparece no celular.
O título confirma nossa opinião sobre determinado candidato.
Compartilhamos.
Talvez nem tenhamos lido o conteúdo inteiro.
Porque aquela informação não trouxe apenas conhecimento.
Trouxe confirmação.
Em períodos eleitorais, isso merece atenção especial.
As Eleições de 2026 acontecem em um ambiente no qual conteúdos circulam rapidamente por redes sociais, aplicativos de mensagens, vídeos curtos, montagens e materiais produzidos ou modificados por inteligência artificial.
Por isso, a pergunta antes de compartilhar não deveria ser apenas:
“Isso combina com aquilo que eu penso?”
Mas: “Isso é verdadeiro?”
As duas perguntas são muito diferentes.
Quando compartilhar também significa pertencer
Compartilhamos informações por vários motivos.
Queremos informar.
Convencer.
Alertar.
Demonstrar indignação.
Fazer humor.
Mas compartilhar também pode ser uma forma de sinalizar pertencimento.
Ao publicar determinado conteúdo, mostramos ao nosso grupo:
“Eu penso como vocês.”
Isso ajuda a explicar por que algumas informações circulam com tanta velocidade mesmo antes de serem verificadas.
Quanto mais uma mensagem desperta emoção e confirma a visão de determinado grupo, maior pode ser o impulso de repassá-la.
Nesse ambiente, uma habilidade simples ganha enorme importância: tolerar alguns minutos de dúvida.
Não saber imediatamente se algo é verdadeiro não é ingenuidade.
Pode ser prudência.
Discordar não transforma alguém em inimigo
Períodos eleitorais também colocam relações pessoais à prova.
Famílias discutem.
Amizades se afastam.
Grupos de mensagens tornam-se campos de batalha.
Pessoas que conviviam durante anos passam a se definir mutuamente a partir de uma escolha eleitoral.
É evidente que posições políticas podem expressar valores importantes e que existem divergências profundas sobre o tipo de sociedade que desejamos construir.
Mas existe diferença entre discordar firmemente de uma ideia e reduzir toda uma pessoa à preferência política que ela manifesta.
Quando classificamos rapidamente quem discorda de nós como ignorante, mau, manipulado ou incapaz de pensar, encerramos qualquer possibilidade de diálogo antes que ele comece.
Talvez seja mais confortável.
Mas dificilmente amplia nossa compreensão.
Pensamento crítico também precisa ser aplicado ao nosso lado
É relativamente fácil identificar incoerências nos candidatos dos quais não gostamos.
Mais difícil é fazer o mesmo exercício com aqueles em quem confiamos.
Por isso, uma pergunta importante durante uma eleição talvez seja:
“O que seria necessário acontecer para eu reconhecer que estou errado sobre alguma coisa?”
Se a resposta for “nada”, talvez já não estejamos analisando.
Estamos apenas defendendo uma convicção.
Pensamento crítico não significa desconfiar exclusivamente do adversário.
Significa aplicar critérios semelhantes também às informações que gostaríamos que fossem verdadeiras.
Quem publicou?
Existe fonte?
O conteúdo está completo ou foi retirado de contexto?
Outros veículos confiáveis confirmam?
É fato, interpretação ou opinião?
Eu acreditaria nessa informação com a mesma facilidade se ela favorecesse o candidato do qual menos gosto?
Essa última pergunta pode ser particularmente desconfortável.
E justamente por isso pode ser útil.
A urna não precisa ser o fim do pensamento
No dia 4 de outubro, brasileiras e brasileiros participarão do primeiro turno das Eleições Gerais de 2026.
A escolha será individual e secreta.
Mas aquilo que levamos conosco até a urna foi construído muito antes daquele momento.
Foi formado pelas informações que consumimos, pelas conversas que tivemos, pelas experiências que vivemos, pelos grupos aos quais pertencemos e também pelas emoções que determinados discursos despertaram em nós.
Talvez a Psicologia possa contribuir para esse momento não dizendo em quem alguém deve votar, mas ajudando a formular perguntas sobre como estamos construindo nossas convicções.
Estou buscando informação ou apenas confirmação?
Estou avaliando o conteúdo ou apenas quem falou?
Estou compartilhando porque verifiquei ou porque me indignou?
Consigo reconhecer uma informação verdadeira mesmo quando ela contraria minha preferência?
Consigo questionar uma informação falsa mesmo quando ela beneficia o candidato que escolhi?
Democracia pressupõe liberdade de escolha.
E liberdade de escolha se torna mais consciente quando também conseguimos examinar os processos que influenciam nossas decisões.
Talvez, portanto, uma das perguntas mais importantes desta eleição não esteja na urna.
Ela pode ser feita antes:
“Esta é realmente uma conclusão à qual cheguei — ou apenas uma certeza que parei de questionar?”
Fernanda Medeiros
Psicóloga Clínica e Jurídica
Perita Judicial e Assistente Técnica
CRP-SC 12/02536 | CRP-RJ 05/300859




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