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Barra Mansa,14/09/2026

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    JJ

    Depois da Tempestade...

    É preciso reconhecer isso sem exageros conspiratórios


    Depois da Tempestade...

    Depois da Tempestade...

    Por JJ

    Duas coisas chamam especialmente a atenção na nova rodada da Quaest e revelam uma perigosa instabilidade na campanha do candidato Lula. A primeira é a insistência com que as manchetes e análises priorizam avaliações sobre um segundo turno que sequer aconteceu — e que nem sequer temos certeza de que ocorrerá. A segunda é o esforço, até aqui bem-sucedido, de vincular a questão do Banco Master ao presidente Lula, ainda que indiretamente. São movimentos distintos, mas que acabam produzindo o mesmo efeito: deslocam a eleição para um terreno em que Lula deixa de ser o candidato que lidera o primeiro turno e passa a ser apresentado como alguém que já está disputando — e pode perder — um segundo turno contra Flávio Bolsonaro.

    Os números ajudam a entender a preocupação. Lula permanece à frente no primeiro turno, com 36%, contra 31% de Flávio Bolsonaro. Mas, na simulação de segundo turno, Flávio aparece numericamente à frente, com 42% contra 40% de Lula. É uma diferença dentro da margem de erro e, portanto, não autoriza ninguém a decretar uma derrota. Mas também não permite à campanha agir como se nada estivesse acontecendo. O adversário cresceu, a vantagem diminuiu e o cenário deixou de ser confortável. A eleição está aberta. E uma eleição aberta, a esta altura, exige muito mais atenção do que tranquilidade.

    O mais curioso é que o segundo turno vem ocupando um espaço desproporcional na narrativa eleitoral. Antes de discutir quem venceria uma segunda rodada, deveríamos discutir quem chegará a ela. Lula ainda precisa conquistar a maioria necessária para vencer no primeiro turno; Flávio precisa superar seus adversários e chegar ao segundo. Há uma quantidade expressiva de eleitores que ainda não definiu seu voto. Mesmo assim, a repetição diária de pesquisas de segundo turno produz uma espécie de antecipação psicológica da eleição. Quando o eleitor vê repetidamente a manchete “Flávio vence Lula no segundo turno”, pouco importa que a diferença esteja dentro da margem de erro: a informação vai construindo uma percepção de competitividade e, sobretudo, de possibilidade de vitória da oposição. Pesquisa mede intenção de voto; manchetes também ajudam a construir ambiente político.

    É nesse ambiente que entra o Banco Master. O caso começou atingindo personagens importantes do campo adversário, mas, progressivamente, a narrativa passou a incorporar o governo, pessoas próximas ao presidente e instituições que estão no centro da crise política. Não é necessário sequer provar que Lula tenha cometido qualquer irregularidade para produzir desgaste eleitoral. Basta estabelecer, no imaginário do eleitor, uma associação entre Lula, governo, STF, Banco Master, Vorcaro e corrupção. A política não é feita apenas de processos judiciais e documentos; é feita também de associações, impressões e narrativas. E, nesse aspecto, as ações orquestradas — ou simplesmente convergentes — de setores da mídia têm produzido resultado.

    É preciso reconhecer isso sem exageros conspiratórios: não estou dizendo que exista uma central de comando coordenando cada manchete ou cada movimento. Estou dizendo que existe uma dinâmica de comunicação que vem funcionando politicamente contra Lula. A imprensa, em especial a Globo, tem enorme capacidade de estabelecer a agenda do debate público. Quando diferentes episódios são apresentados sucessivamente dentro de uma mesma moldura interpretativa, o eleitor comum, que não acompanha detalhes de inquéritos e processos, tende a guardar a associação, e não a complexidade dos fatos. O resultado é que a campanha passa a ser empurrada para uma posição defensiva, respondendo a perguntas formuladas por outros, enquanto seus adversários conseguem determinar os assuntos que devem ser discutidos.

    É nesse ponto que compreendo — e considero correta — a resistência de Lula em entrar agora na maratona de debates. Não porque um presidente deva fugir do debate democrático, mas porque existe uma diferença entre participar de um debate e aceitar uma armadilha política. Se Lula entrar num debate sem conseguir estabelecer sua própria agenda, poderá passar horas respondendo a Banco Master, STF, investigações, familiares e acusações, exatamente nos termos estabelecidos por seus adversários. Enquanto isso, os temas que deveriam organizar sua campanha podem desaparecer. Na minha opinião, insistir para que Lula vá aos debates, neste momento, pode ser uma verdadeira cilada.

    Mas não participar dos debates só faz sentido se houver uma alternativa muito mais forte. E é justamente aí que, na minha opinião, Lula precisa mudar radicalmente o ritmo da campanha. O que ele deveria fazer é intensificar a campanha com o povo, ir às ruas, percorrer o país, conversar diretamente com trabalhadores, comunidades, pequenos empresários, jovens, aposentados e todos aqueles que formam a maioria silenciosa que não vive a eleição pelas redes sociais ou pelas manchetes dos grandes veículos. Não se trata apenas de Lula falando para o povo. É preciso construir uma campanha em que seja o povo falando com o povo.

    Essa estratégia não pode depender apenas do presidente. Os partidos e movimentos que sustentam sua candidatura precisam ocupar as ruas, conversar nas comunidades, nos bairros, nas periferias, nas cidades pequenas e médias. É preciso recuperar uma campanha de presença, conversa e convencimento. Cada militante, cada liderança local, cada vereador, prefeito, deputado, governador ou dirigente partidário pode ser um ponto de contato com o eleitor. Quando a comunicação adversária é centralizada e massificada, a resposta não precisa necessariamente ser outra máquina de propaganda. Pode ser algo mais poderoso: milhares de pessoas conversando diretamente com outras milhares de pessoas, explicando, ouvindo e convencendo. Povo falando com povo.

    Não vejo, portanto, a nova Quaest como uma sentença de derrota de Lula. Seria uma leitura precipitada. Mas também seria um erro tratá-la como mais uma pesquisa sem importância. Ela revela uma tendência que precisa ser enfrentada. Lula ainda lidera o primeiro turno, mas corre risco real de perder a eleição se a tendência se consolidar. E, se nada de diferente ocorrer e as pesquisas continuarem apontando aproximadamente para este quadro, a equação é bastante simples: ou Lula consegue ampliar sua vantagem e vencer no primeiro turno, ou chegará ao segundo em uma situação de enorme vulnerabilidade, na qual tudo estará em aberto.

    A tempestade ainda não terminou. E talvez a pior coisa que uma campanha possa fazer diante de uma tempestade seja acreditar que basta esperar que ela passe. É hora de reagir, mudar o ritmo, sair dos estúdios e ocupar as ruas. Menos preocupação com a próxima manchete e mais preocupação com a próxima conversa. Menos eleitor tratado como espectador e mais eleitor transformado em protagonista. Porque pesquisa pode indicar o caminho, manchete pode tentar definir a narrativa, mas, no final, quem decide é o povo. E é com ele — falando com ele e deixando que ele fale com outros — que essa eleição será ganha ou perdida.

    JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira





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