JJ
BANCARROTA MORAL
Trump é a expressão política mais grosseira dessa lógica.
BANCARROTA MORAL
Por JJ
Há momentos em que uma sociedade revela sua decadência não pelo que procura esconder, mas pelo que já consegue fazer abertamente sem sequer corar. A promessa de Donald Trump de entregar US$ 5 mil a cada adulto dos Estados Unidos caso os republicanos mantenham ou conquistem o controle do Congresso é um desses momentos. Apresentada como “Trump Dividend”, a proposta pode custar algo entre US$ 1,2 trilhão e US$ 1,35 trilhão e não veio acompanhada de uma fonte de financiamento capaz de sustentá-la. Mais do que uma promessa populista, trata-se da vulgarização absoluta da política: o cidadão é reduzido a eleitor-consumidor, o orçamento público vira instrumento de campanha e o voto passa a ser tratado como uma mercadoria que pode ser comprada. Oferecer dinheiro para obter apoio político é corrupção da democracia, ainda que a operação seja apresentada sob o verniz de uma política econômica.
A pergunta que deveria envergonhar qualquer defensor da responsabilidade fiscal é simples: de onde virá esse dinheiro? Não existe um cofre secreto cheio de dólares esperando pela vitória republicana. O governo dos Estados Unidos já opera com déficits gigantescos, e a própria análise da proposta mostra que as receitas de tarifas, apontadas por Trump e seus aliados como possível fonte dos pagamentos, estão muito aquém do necessário. Portanto, o chamado “dividendo” não é fruto de prosperidade compartilhada. É uma promessa eleitoral feita com recursos públicos futuros, provavelmente acrescentando pressão sobre uma dívida já gigantesca. O mecanismo é perverso porque transforma uma dificuldade estrutural em espetáculo eleitoral: em vez de discutir como produzir e distribuir riqueza de maneira socialmente justa, oferece-se um cheque e espera-se que o eleitor agradeça nas urnas.
A contradição se torna ainda mais obscena quando observamos a situação do próprio Trump. Ele ficou muito mais rico depois de retornar à Presidência dos Estados Unidos, enquanto milhões de trabalhadores enfrentam o custo de vida elevado e a perda de poder de compra. A Forbes estimou que sua fortuna saltou de US$ 4,3 bilhões em 2024 para US$ 7,3 bilhões em 2025, aumento de aproximadamente US$ 3 bilhões, atribuído em grande parte à exploração de negócios ligados às criptomoedas e à valorização de seus empreendimentos. Em 2026, a Forbes continuou descrevendo sua Presidência como a mais lucrativa de sua trajetória, estimando que Trump recebeu cerca de US$ 2,4 bilhões em 2025. Eis a fotografia perfeita da contradição: o presidente enriquece enquanto a população é convocada a se contentar com a promessa de cinco mil dólares.
É nessa contradição que aparece a verdadeira face do capitalismo estadunidense em sua fase de concentração extrema da riqueza. Os Estados Unidos da América continuam sendo uma potência extraordinária, capazes de produzir ciência, tecnologia, riqueza e inovação em escala monumental. Mas justamente por isso sua desigualdade se torna ainda mais brutal. A riqueza socialmente produzida é apropriada de maneira cada vez mais concentrada, enquanto parcelas importantes da classe trabalhadora vivem sob insegurança econômica, endividamento e dificuldade para manter padrões mínimos de bem-estar. No topo, as grandes fortunas crescem em velocidade impressionante. A Forbes registrou que os 400 americanos mais ricos acumulavam, em 2025, nada menos que US$ 6,6 trilhões, um recorde. O problema, portanto, não é a falta de riqueza. É quem controla a riqueza, quem dela se apropria e quem permanece condenado a vender sua força de trabalho para sobreviver.
Trump é a expressão política mais grosseira dessa lógica. Ele não inventou a concentração de riqueza, a mercantilização da política nem a promiscuidade entre interesses privados e poder público. Mas tornou tudo isso escancarado. Sua segunda Presidência convive com uma extraordinária expansão de seus negócios, sobretudo no universo das criptomoedas, enquanto sua administração reúne um número excepcional de pessoas extremamente ricas. Um levantamento divulgado pela Associated Press apontou 57 integrantes da administração Trump com patrimônio superior a US$ 100 milhões, número superior a quatro vezes a soma registrada nas três administrações presidenciais anteriores. Não é difícil compreender a lógica: para essa visão de mundo, riqueza privada é apresentada como prova de competência e sucesso, enquanto o Estado passa a ser administrado segundo valores empresariais. O problema é que uma República não é uma empresa e cidadão não é cliente.
Por isso, a promessa dos US$ 5 mil precisa ser compreendida politicamente, e não apenas contabilizada por economistas. Trump está dizendo ao eleitor: se o meu partido vencer, você ganhará dinheiro. A relação entre política e benefício material sempre existiu, evidentemente, mas aqui temos algo diferente pela dimensão, pelo momento e pela forma como a promessa é apresentada. É o presidente transformando a própria eleição legislativa em plebiscito pessoal e oferecendo um benefício financeiro associado à vitória de seu partido. A própria convenção republicana em Dallas foi construída em torno dessa lógica personalista, com Trump convocando os eleitores a tratar a eleição como um referendo sobre sua Presidência. Quando o poder público é utilizado para seduzir o eleitor com dinheiro em troca da continuidade política de um grupo, a democracia deixa de ser disputa de projetos e se aproxima perigosamente de uma transação.
O mais espantoso é que esse espetáculo não provoca indignação entre muitos dos que, no Brasil, se apresentam como campeões da moralidade, do patriotismo e da soberania nacional. São os patriotas de araque, nacionalistas de ocasião que passam o dia falando em independência brasileira, mas transformaram um presidente estrangeiro em objeto de culto político. Defendem a soberania do Brasil enquanto se submetem intelectualmente a um líder dos Estados Unidos. Falam contra a influência estrangeira enquanto reproduzem slogans produzidos pela extrema direita estadunidense. E são incapazes de perceber a vergonha de aplaudir um presidente que enriquece extraordinariamente durante o exercício do poder e que agora promete bilhões de dólares aos eleitores caso seu partido vença. Isso não é patriotismo. É submissão política travestida de nacionalismo.
Não é a América que está em bancarrota. A América somos todos nós. O que está em crise é uma determinada forma de organização econômica, política e social construída nos Estados Unidos da América: um capitalismo estadunidense que produz riqueza colossal e concentração igualmente colossal, que transforma dinheiro em poder e poder em mais dinheiro, que reduz direitos a mercadorias e converte a política em espetáculo eleitoral. Trump não criou essa contradição. Ele a encarna de maneira brutal. E sua promessa de cinco mil dólares é apenas a face mais vulgar de uma doença muito mais profunda: um sistema no qual a riqueza de poucos cresce enquanto a insegurança de muitos permanece, no qual o presidente pode enriquecer no exercício do cargo e, ao mesmo tempo, pedir ao povo que confie nele em troca de um cheque. Isso não é prosperidade. Não é patriotismo. Não é liberdade. É a bancarrota moral de um capitalismo que já não consegue esconder suas próprias contradições.
JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira




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